
Violeta Parra
A história de Violeta Parra poderia ter sido igual à de muitos outros campesinos da América Latina. Condenada a trabalhar em condições miseráveis nas fazendas de colonos, lutando pela sobrevivência no amanho de pequenas leiras de terra – migalhas que os latifundiários desprezavam, por não serem rentáveis – ou dedicando-se ao fabrico de pequenas peças de artesanato, vendidas aos intermediários por uma côdea de pão.
Cedo, porém, Violeta Parra combateu o destino. Nascida numa pequena aldeia do sul do Chile, sem recursos para prosseguir os estudos, formou aos nove anos, com alguns irmãos, uma pequena trupe que cantava em circos, cafés e na rua, depois de ajudarem a mãe nos trabalhos do campo.
Aos 12 anos começou a compor as primeiras canções e aos 17 já era uma autodidacta. Até 1952 (com 35 anos, um casamento e duas filhas), ganha a vida a cantar. Sozinha, com os irmãos e mais tarde com as duas filhas. No entanto, já fazia tapeçarias, cerâmica e pintura, expressando em cada peça as tradições populares chilenas. Nesse ano começa a percorrer o Chile, recolhendo elementos do folclore nos meios rurais.
É no entanto a música que a traz até à Europa, onde viveu vários anos. A estadia em Paris foi um momento fulcral na sua vida. Aí gravou o primeiro disco e teve oportunidade de divulgar a sua obra de ceramista, pintora e tapetista. Com tal sucesso que em 1964 se tornava na primeira sul-americana a expor no Museu do Louvre (em 1997, uma outra exposição teria lugar no mesmo local, com grande sucesso).
Quando regressa ao Chile, depois de uma curta estada na Argentina, leva um projecto em mente: criar um Museu do Folclore. O falhanço da iniciativa ter-lhe-á provocado um profundo desgosto. Mulher de amores conturbados, com uma extraordinária sensibilidade, suicidou-se em 1967. Uns dizem que foi por amor, outros que foi o desgosto provocado pelo insucesso do Museu de Folclore. Morreu na maior indiferença, mas o seu legado tornou-se um símbolo da resistência. As suas canções foram cantadas pelos principais nomes da música latino-americana, como Victor Jara ou Mercedes Sosa.
Embora nunca tenha tido grande intervenção política, as letras das suas canções denunciavam as injustiças sociais na América Latina, o que, a par da sua obra artística multifacetada, contribuiu para a transformar num ícone das lutas contra as ditaduras que os EUA semearam pela América Latina nas décadas de 60 e 70 do século passado.
Quando os americanos derrubaram Allende e colocaram no poder Pinochet , o Chile entrou num período conturbado da sua história. Nos estádios da execrável ditadura chilena, onde eram detidos os oposicionistas, as canções de Violeta Parra ecoavam daquelas vozes sofridas, sabedoras de que o seu destino eram as masmorras da ditadura ou a morte.
Soube-se, por alguns testemunhos recentes, que durante a ditadura argentina os carrascos ao serviço do regime de Videla obrigavam os presos a acompanhar as canções de Violeta Parra que punham a tocar em altos berros, enquanto os interrogavam e torturavam.
A morte de Violeta Parra foi alvo da maior indiferença no Chile mas, 40 anos depois, é um símbolo da perseverança dos povos latino-americanos. Apenas mais uma prova de que o Chile é o país da América Latina mais parecido com Portugal.
Em tempo: Correspondendo à sugestão do Pedro, aqui ficam os links para as três canções de Violeta Parra de que mais gosto.
Gracias a la vida ; La carta; Volver a los 17
Já agora vejam também este video musical "Que dira el Santo Padre" Aviso desde já que as imagens são violentas. Porque são reais…

Bem lembrado, Carlos. Só falta mesmo a banda sonora.
Que não seja por isso, Pedro. Já lá estão algumas sugestões
excelentes sugestões.
Gracias à la vida, Carlos
:))
Essa já estava no Rochedo, anexada a um post, MD Sol
Acabei de vir de lá. eheheh
:)))
Aaaaaaaaahhhhhhhhhhhh!
Já estava à espera dela, Carlos. É uma referência da consciência social do Chile, como dizes, mas foi também uma excelente cantora e compositora. “Gracias a la vida” é uma canção eterna.
Na escolha da semana passada, deixei pistas que só podiam apontar para ela ou Mercedos Sosa.
Na próxima semana, a minha escolha é argentina e não é do mundo da música. Vai um palpite?
A Evita ão me cheira que seja… 🙂
Mas não te esqueças da Mercedes Sosa. E da Frida Khalo, por exemplo.
Cruzes! A Evita é de evitar.
Já calculava… 🙂
A Evita foi um logro.
Total. Até para ela própria, no fim.
Evito a Evita, Ana. Quanto a Mercdes Sosa, adoro, mas outra personagem do meio musical já a seguir, não me cheira…
“Rostos do Sul” e Violeta Parra são muito do meu agrado, já comentei no “Crónicas” O Carlos pede palpites e depois diz que desvendo o segredo eheh , o meu palpite é Alfonsina Storni , a autora de Voy a Dormir”,
“(… Voy a dormir, nodriza mía , acuéstame.
Pónme una lámpara a la cabecera,
una constelación , la que te guste,
todas son buenas ; bájala un poquito.(…)”
“nas fazendas de colonos”
Como ? O Chile já era independente muito antes …
“Quando os americanos derrubaram Allende e colocaram no poder Pinochet”
Então isso diz-se? Eles eram lá capazes disso…
Muito bem contada esta história, Carlos. E realmente muito próxima de nós, portugueses.
Excelente relato Carlos. Não conhecia em pormenor a história da Violeta Parra, e acho que nunca tinha ouvido a voz dela, embora a conhecesse como autora através de outros cantores nomeadamente da Mercedez Sosa . É fundamental recordarmos todas estas lutas.
Belissimo post, muitos parabéns. Bom pretexto para ouvir “Las últimas composiciones de Violeta Parra”, CD comprado há mais de dez anos em Santiago do Chile.