En garde!


Ana Vidal,

Schopenhauer tem uma frase extraordinária, qualquer coisa como isto (cito de cor): “Quando não tenho nada que me angustie, é isso mesmo que me angustia”. Não é possível inverter-lhe o sentido. Quando nada conseguimos ver que nos anime, não será nunca o desânimo a fazê-lo. E, a somar aos de cada um, motivos de desânimo colectivo não nos faltam hoje em dia, múltiplos, imprevisíveis e cada vez mais sinistros. Não é preciso procurá-los, não é preciso imaginação ou patologia especiais para estarmos infelizes. A depressão é a marca de água do nosso tempo.

Vivo a tentar contrariar esta tendência generalizada, não quero deixar-me dominar por um pessimismo descrente de tudo, que me dobre ao meio e me paralise. Até quando o conseguirei, não sei. A lucidez é a maior inimiga da alegria, e nem sequer falo em felicidade. Mas recuso, pelo menos enquanto tiver forças para isso, depor armas perante os monstros que rondam diariamente. Faço-o com total consciência, teimosamente, sem o bálsamo que seria alhear-me da realidade. Às vezes preciso de algum malabarismo para iludir-me, outras sinto que o meu optimismo é quase ridículo. Há dias em que ando muito perto da rendição, mas nunca tão perto que não sacuda o pó e volte a levantar-me. O meu maior trunfo, o que me salva sempre? O humor.

Entre mim e o desânimo existe uma guerra antiga, jurada, declarada e sem tréguas. Que vença o melhor.

suicida.jpg

0 comentários em “En garde!”

  1. A menina, fáxavor, não ande com esse tal de Schopenhauer. Eu andava chateado por não me ter pedido autorização para se ausentar. Mas agora que sei que foi desviada por esse tipo ainda fico mais bravo.

    Tá vendo o que acontece quando se anda com más companhias? A pessoa fica en garde! E ficar en garde significa que a pessoa acaba gradeada. Relax, don´t do it.

    https://www.youtube.com/watch?v=Q3_2entulkw

    Logo que regresse de Hollywood conto-lhe mais coisas a respeito do fulano.

    1. Trying to relax, believe me. But things are windy, Wind.
      Eu bem tento mandar o Shope às urtigas mas as notícias não nos dão tréguas, já viu? Mas pronto, voltei. 🙂

      Traga boas novas de Hollywood. Ao menos lá é tudo um faz de conta.

      1. Já cheguei. A Aninha não me diga que anda preocupada agora com a Turquia? Não se preocupe. Isto já era previsível.
        Olhe aqui o que escrevi em Março de 2016 (aliás já tinha dito isto antes de Março):

        “Por outro lado, tive oportunidade de escrever aqui no DO que o futuro mostrar-nos-ia a implosão do sistema na Turquia e também na Arábia Saudita, por causa do envolvimento na Síria. Os acontecimentos que surgiram na Turquia estão em linha com este prognóstico. E a Arábia Saudita iniciará esse processo, o da implosão, com a questão petrolífera. Não adianta ter capacidade em extrair petróleo a baixo preço, é necessário vendê-lo. Como sabemos, não existe mercado tão alargado e os operadores são muitos.

        Concluindo: os EUA e a UE terão de acelerar um entendimento com os Russos na questão Síria sob pena de verem estes seus dois aliados, Turquia e Arábia Saudita, de pantanas”.

        ver aqui:
        http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-turquia-e-a-europa-8303826

        A Aninha não pode afastar-se de mim ou, então, entra em ansiedade. Se apoquente não!

  2. Eis um texto inteligente.
    No sentido etimológico: ler dentro das coisas, neste caso, da vida.

    “A lucidez é a maior inimiga da alegria, e nem sequer falo em felicidade.”

    Eu diria mais, ou melhor, diria menos: a lucidez á a maior inimiga do sossego.
    E nem sequer é preciso falarmos das grandes tragédias mundiais.
    Basta atentarmos no dia a dia de cada um de nós.

    “Que vença o melhor.”

    Temo bem que não haja vencedor.
    Schopenhauer está certo no seu pessimismo.
    É que ele invoca não só a razão mas também a emoção.
    Não há volta a dar-lhe.
    Infelizmente!
    João de Brito

    1. Obrigada, João de Brito.

      Sim, a inconsciência pode ser uma bênção, assim como a ignorância. A lucidez é tramada.

      Mas se Schopenhauer estiver certo e não houver mesmo volta a dar-lhe, então há mesmo um vencedor. Mas até lá vou dar-lhe luta, isso é certo.

  3. Fosse a extrema direita, os fascistas, os católicos extremistas e teríamos um texto cheio de soluções, apelos a manifestações de milhões, pressão aos governos etc etc.
    Como a realidade não joga com a cultura em vigor, o canone marxista-politicamento correcto temos o desânimo.

    Se fosse para lutar contra os inimigos pre-declarados, já se teria soluções.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *