O Pedro Correia escreveu dois posts sobre o europeu e Portugal e zurziu nas carpideiras portuguesas que se queixaram da qualidade ou beleza do jogo da selecção nacional. Como eu pertenço a este grupo, gostaria de deixar umas linhas sobre o assunto.
Há um aspecto intermédio que é necessário clarificar. Jogar bem não é o mesmo que jogar um futebol atraente. Mesmo a beleza do jogo depende de quem o veja. O tiki-taka espanhol, no seu apogeu, era profundamente aborrecido para muitos (entre eles eu) e fiquei fascinado quando Mourinho estacionou dois super-petroleiros em frente da baliza na famosa final contra o Barcelona (mas não quereria ver isso todos os dias). Portugal teve um futebol feio, mas foi de qualidade. Qualidade é medida no resultado das acções que nos predispomos a fazer. Portugal quis defender e fê-lo bem. Quis contra-atacar pela certa e fê-lo bem. Isso é também qualidade.
Note-se que concordo com o Pedro, mesmo quando tenho uma posição diferente. No fundo, a discordância que eu tenho será semelhante à política: somos capazes de analisar os factos da mesma forma, concluir o mesmo mas termos abordagens diferentes aos problemas. É também isso que faz a diferença na política e na ideologia. Neste caso a ideologia é futebolística e a única coisa que lamento no Pedro é ser sportinguista, mas ele sabe melhor que a maioria que ninguém é perfeito.
Brincadeiras à parte, avancemos. Uma coisa que eu sempre disse (e penso ter escrito, se não em posts, pelo menos em comentários) que preferiria uma equipa portuguesa a jogar um futebol atraente e perder nos oitavos ou quartos de final do que jogar mal e sair nas meias finais. A minha posição partia de uma ideia simples, mesmo que errada: Portugal não conseguiria vencer um torneio e por isso mais valia entreter do que tentar ingloriamente vencer.
Eu tinha desenvolvido esta posição nos tempos de Scolari, em que Portugal chutava mais os adversários que a bola e tinha criado anti-corpos que desbaratavam todo o capital de simpatia que a selecção tinha criado em 1996, 2000 e 2004 (sem falar no passado). Ness altura defendi que se era para jogar um futebol feio e antipático, que ao menos fossem campeões. Claro que haverá quem defenda e com boas razões que Portugal era simpático por jogar bem mas fazer o favor de perder quando jogasse contra as potências europeias (excepções: Inglaterra e Holanda). Contudo, depois de ver Portugal a não vencer o futebol com o futebol rendilhado de 2000 e 2004, o rendilhado musculado de 2006 ou o futebol cínico de 2010 ou misto de 2012, eu tinha-me resignado a preferir ver as rendas. Sempre me entretiam.
A vitória de Portugal complicou estas minhas posições. Fernando Santos acabou a fazer aquilo que eu não esperaria. Portugal venceu pela primeira vez um troféu. Agora não sei se devo rejeitar a minha posição anterior, apenas aceitar que a excepção faz a regra ou simplesmente dizer que, com o borrego no papo, podemos agora beber o vinhinho, frutado e doce, e pedir futebol bonito.
A decisão, felizmente, não é minha. É de Fernando Santos, talvez da federação e de alguns jogadores mais seniores na equipa. Muito dependerá da qualidade dos jogadores à disposição de Fernando Santos e dos objectivos que lhe sejam propostos. Devemos no entanto aceitar que esta vitória não nos atira para a lista das potências europeias no futebol e que o diálogo entre estetas e tecnocratas deve continuar. Pessoalmente gostaria de ver Portugal a voltar ao futebol bonito. No entanto, se é para voltar a estas experiências que quatro dias mais tarde ainda me parecem irreais, estou disposto a aturar mais umas curas para a insónia durante o processo.
Os meus posts de análise ao jogo da final, ao europeu de Portugal e ao torneio em si.

João, o que é futebol “bonito”?
São golos?
Pois então Portugal foi a única das quatro selecções que participaram nas duas mais recentes finais – Copa América e Campeonato da Europa – a marcar em 240 minutos de jogo.
Argentina e Chile ficaram em branco. Mesmo com Messi e Vidal.
Também a França ficou. Mesmo com Griezmann.
Só Portugal marcou. Mesmo a jogar só com dez em 17 minutos desse jogo e Cristiano Ronaldo inutilizado logo de início.
Fomos a única selecção finalista a marcar por termos “futebol feio”? inais-so-portugal-marcou-2739288
http://sporting.blogs.sapo.pt/em-duas-f
Mais: será que foi por termos “futebol feio” que dois dos cinco golos que a UEFA seleccionou como melhores do Euro 2016 foram portugueses? erior/eder-e-cristiano-ronaldo-candidato s-a-melhor-golo-do-euro2016-5278795.html
http://www.dn.pt/desporto/euro-2016/int
Será que foi por termos um “futebol feio” que quatro portugueses integraram o “onze ideal” da UEFA, superando qualquer outra nacionalidade?~ atro-portugueses-na-equipa-ideal-do-euro-2 016-91951
http://ptjornal.com/saiba-sao-os-qu
Já agora: que futebol “bonito” houve neste Campeonato da Europa? O emocionante Alemanha-Itália, que terminou 0-0 ao fim de 120 minutos e só foi resolvido após a marcação de dezoito grandes penalidades por manifesta incompetência de sucessivos marcadores? Ou o trepidante Portugal-Hungria, com seis golos, três para cada lado?
Portugal jogou mais “feio” contra a Hungria, com três golos marcados, ou contra a Polónia, em que só marcou um?
Para mim, uma coisa é certa: não quero mais futebol para “entreter”. E muito menos ambiciono novas derrotas no currículo da selecção nacional.
Troco todo o futebol “lindo” e condenado ao fracasso das edições anteriores pelo troféu conquistado agora.
o que é futebol “bonito”?
É futebol como o que o Benfica e o Sporting jogaram na época passada. Com jogadas vistosas, passes arrojados, fintas endiabradas, toques finais inesperados.
Mas, é claro, isso foi no campeonato. Numa competição a eliminar, joga-se geralmente à retranca. É maior o medo de perder que a vontade de ganhar.
E foi durante a época. Jogar assim em junho, com os jogadores cansados e o calor a apertar, é difícil.
E foi contra equipas de muito menor gabarito. Jogar de forma espetacular quando se sabe que o adversário é verdadeiramente bom, não convem.
Caro Luís: para quem diz não perceber de futebol, acabou de resumir perfeitamente a natureza destas competições.
Eu deixei esse aspecto bem claro nos meus vários textos: os vencedores dos últimos anos foram sempre equipas que conseguiram sofrer poucos golos. Só que isso não significa necessariamente que é preciso sacrificar a estética em favor da segurança. É necessário ter uma equipa muito boa para ser segura e “bela” ao mesmo tempo. As outras procuram o equilíbrio. Portugal sacrificou mais o ataque e a fluidez em favor da segurança e equilíbrio. Ganhou. Bastaria ter perdido os penalties contra a Polónia (não era preciso muito) e estaríamos agora a crucificar Fernando Santos por ter sido defensivo e não ter tido sucesso.
Já agora: referiu o Benfica e Sporting. Alguns adeptos ou comentadores prefeririam um estilo mais ao estilo do Barcelona de Guardiola (que eu considero aborrecido), com muitos passes a hipnotizar os adversários. Os ingleses muitas vezes querem é pontapé rápido para a frente e remates de seja lá onde for. A beleza depende de cada um.
Pois, volto a concordar com o Pedro Correia.
O que o Pedro explica, bastante bem, é que só perdemos no campeonato do “estava à espera de melhor”… mas mesmo nisso, conforme se vê, as outras selecções não estiveram melhor.
Bonita explicação do Pedro, bem pragmática, parece herdada do Fernando Santos… eh eh!
A crítica faz sentido.
Mas há uma total diferença entre a posição do João André, que como aqui se viu estava a torcer por Portugal, apesar de não gostar da forma de jogar… e a posição da malta que, para manter a face, preferia desfecho diferente, e ainda tem dificuldade, ou persiste, em recusar engolir o sapo.
Essa era principal crítica do Pedro, creio eu…
Afinal quantos de nós acharam que a entrada do Éder resolveria a final?
Precisamente. Eu não critiquei o Pedro, antes deixei a minha posição específica. Claro que torci por Portugal. Na noite da final, depois da vitória da selecção, tive duas ou três pessoas a chatear-me por causa do estilo e expliquei-lhes que me estava completamente marimbando para as críticas naquela noite e mandei-os para sítios pouco simpáticos.
E sim, é verdade, desafio qualquer pessoa que tenha uma posição igual à do Pedro a dizer sem se rir que lhe parecia que o Éder ia dar a vitória. Pensei-o a certa altura, mas apenas numa perspectiva de “da forma como as coisas estão a correr, ainda vai ser o Éder a ganhar isto…”, nunca a sério.
E é por isso que escrevo o que escrevi e não só não apago ou modifico os meus posts do passado, antes os relembro, por não ter problemas de apontar os meus erros ou de ter uma opinião diferente dos outros.
Pedro, como escrevi, aquilo em que divergimos é na conclusão final. Não troco o troféu por um regresso ao primeiro jogo e um torneio de futebol bonito e eliminação nos quartos de final, mas a abordagem sistemática que prefiro continua a ser um futebol de que goste (e que defini como “bonito”).
Claro que a beleza depende de cada um. Se para ti a beleza for a vitória, então Portugal praticou um futebol bonito. A beleza não se discute, pelo menos aquilo que cada um descreve como belo (seja no futebol ou noutras coisas). Não creio no entanto que tenhas descrito o futebol da Grécia em 2004 como belo e marcaram mais golos (em 90′) que Portugal desta vez durante as eliminatórias (venceram os 3 jogos por 1-0).
O torneio foi todo ele desagradável de ver. Deixo essa opinião no fim da minha análise ao torneio. Nisso Portugal esteve alinhado. Mas eu não faço uma análise da beleza de forma relativa: não é por mais equipas terem jogado feio que eu vou considerar que o futebol português até nem foi feio.
Ter marcado golos bonitos também pouco importa. Aliás, houve imensos golos bonitos no torneio. Talvez porque as equipas defenderam tanto que golos fortuitos foram mais raros e foi necessário produzir algo de especial para marcar golos. No entanto, marcar um golo bonito nada diz sobre os restantes 89′ do jogo. Seria o mesmo que dizer que um assassino até nem era má pessoa só porque um dia convidou sem abrigo para um jantar em sua casa.
Nem sequer a quantidade de golos diz muito sobre a beleza de um jogo. Uma das melhores finais da Champions League que me lembro de ver foi a primeira, entre Barcelona e Sampdoria. Só foi decidida por volta do minuto 118 com um livre directo. Até então foi um jogo fantástico mesmo sem golos. Também vi já jogos com muitos golos que, não fossem os mesmos, seriam de adormecer.
E sim: o Alemanha-Itália foi um excelente jogo, com emoção, bom futebol táctica e tecnicamente. Se entendes que não, então mais vale deixarmos aqui a discussão. Já o Portugal-Hungria não comento (não comentei) porque apenas vi os últimos 15′. O Portugal-Polónia seria um sacrifício se não o tivesse visto com muito bons amigos numa fan zone com outros portugueses e polacos que tornaram a experiência interessante. No Portugal-Croácia, se o futebol tivesse nota artística, ambas as equipas teriam sido eliminadas.
Só que o futebol não tem nota artística. Tem apenas troféus para os vencedores. Portugal recebeu este, mas se da próxima vez for eliminado cedo com este tipo de futebol, estarei cá para ver os comentários (um dia destes dar-me-ei ao trabalho de ir buscar os comentários de 2010…).
João, claro que não há “nota artística” no futebol.
Se houvesse, a Hungria tinha ganho o Mundial de 1964, a Holanda tinha conquistado o Mundial de 1974 e o Brasil tinha-se sagrado campeão no Mundial de 1982.
E Portugal tinha ganho o Euro 2004.
A comparação que fazes entre o Portugal de 2016 e a Grécia de 2004, se me permites, não faz sentido, por mais subjectivas que sejam as comparações.
E esse critério de que alguns de vocês se lembraram agora, de aferir o padrão-qualidade do futebol em função dos golos marcados só nos 90 minutos de jogo, sem contar com o prolongamento, é absurdo.
Em 40 anos como espectador assíduo, nos estádios e na televisão, nunca me recordo de alguma vez te visto isso aduzido como argumento para qualificar ou desqualificar o desempenho de alguma equipa ou selecção.
Como se o golo do Quaresma aos 117′ do Portugal-Croácia fosse só por imposição do cronómetro uma espécie de “golo de segunda”…
Por acaso esse golo culminou uma das melhores jogadas de envolvimento colectivo de que me recordo desde sempre de ver na selecção nacional, percorrendo quase todo o campo, pelo menos numa distância de 80 metros, sempre com a bola dominada: Cristiano-Quaresma-Renato-Nani-Ronaldo-Q uaresma. Com os croatas já nas lonas.
Jogada espectacular. Desenrolada duas horas depois do início da partida, como se todos os intervenientes tivessem acabado de entrar em campo (Nani e CR estavam lá desde o início). Isto demonstra a excelente condição física da equipa das quinas – aspecto que tenho visto muito pouco salientado.
Se “ter marcado golos bonitos” pouco importa, que linha fronteiriça separa a subjectivíssima distinção entre futebol “bonito” e futebol “feio”? O equipamento? O penteado dos jogadores? As tatuagens?
E já reparaste na contradição? Começas por concluir que “o torneio foi todo ele desagradável de ver” embora acrescentes que “houve imensos golos bonitos no torneio”?
Como podem “imensos golos bonitos” emergir de um futebol “feio”? Há quase uma incompatibilidade ontológica entre uma coisa e outra.
No Mundial de 2010, se bem recordo, disputámos quatro jogos. E só marcámos num desses encontros. Com a marca Queiroz, o homem que em vez de visar alvos externos preocupava-se mais com os alvos internos, daí a multiplicação dos seus conflitos com jogadores: houve o ‘caso’ Nani, o ‘caso’ Deco, o ‘caso’ Moutinho, o ‘caso’ Ronaldo.
Essa selecção, sim, a fazer lembrar a Grécia de 2004. Com uma diferença assinalável: não ganhou nada.
Errata: naturalmente, quando menciono a Hungria, quero referir o Mundial de 1954.