A morte de um jornal não tem a gravidade de uma morte humana, mas é à sua maneira um grande abalo na vida das pessoas e na memória das sociedades. Lembro-me daquelas semanas sombrias, quando O Tempo fechou. Talvez fosse inevitável, mas nunca soube a verdadeira razão do declínio a que assisti. É daquelas coisas que não se esquecem: só se falava do outro jornal que também fechara portas por esses dias, o Diário de Lisboa, e o encerramento de O Tempo era um notícia envergonhada e minúscula, como se tivesse falecido aquele familiar embaraçoso cujo nome não devia ser mencionado. Era ainda um jovem irreflectido, mas julgo que recebi a minha primeira grande lição sobre os dois pesos e duas medidas que regem a política.
Quando entrei em O Tempo, dois anos antes, em 1987, já na rampa inclinada, a redacção era um lugar estranho, juntando jornalistas com ideias diversas, de várias gerações e diferentes pancadas. Não havia facções definidas, nem rivalidades, nem me recordo que houvesse as maldades que depois encontrei em outros ambientes, pelo contrário, existia uma espécie de alegria ingénua e contagiosa. O director e proprietário, Nuno Rocha, era um homem elegante e alto, de sorriso fácil, charmoso e simpático, que tratava toda a gente da mesma maneira. Acho que gostou de uns textos que escrevi à experiência (obrigado, Fernando Sousa, pela oportunidade) e decidiu contratar-me. Entrei na mesma semana em que começou a sua brilhante carreira de jornalista o Pedro Camacho, mas ao contrário desse meu outro amigo, julgo que fui um erro de avaliação de Nuno Rocha, que viu em mim um talento inexistente.
A minha vida teria sido diferente
Se não tivesse entrado naquela altura na redacção de O Tempo, tudo para mim teria sido diferente. Em reportagem para o jornal conheci o amor da minha vida, pode parecer pedante ou piroso, mas é a pura verdade: sou um caso raro desse género de acontecimento e tratou-se de circunstância pouco profissional, pois o jornalista não se deve envolver demasiado no assunto que observa, embora não acredite no distanciamento ou no jornalismo que se demite de também sentir o mundo. Como já disse, fui um erro de casting.
Os outros jornalistas daquela redacção anacrónica ensinaram-me quase tudo o que aprendi na profissão que pratiquei durante 25 anos e certamente tentaram transmitir-me muito do que nunca cheguei a entender dela. Eram repórteres experientes e sabiam da minha falta de jeito, mas o Nuno Rocha talvez não se tenha dado conta: na praxe do caloiro (juro, isto é verdade) enviaram-me em reportagem à sede da NATO, em Bruxelas, e escrevi duas páginas de banalidades que encantaram o director. Nessa viagem, só havia craques enviados por outros jornais (lembro-me do Afonso Camões e do Miguel Gaspar); o Fragoso Mendes, do DN, perguntou-me há quanto tempo era jornalista e eu, parvo, disse a verdade, desde a semana passada, e o Fragoso, filosófico: ‘Está tudo doido’. Talvez a loucura possa ser explicada; como a redacção era pequena, escrevíamos sobre tudo e mais alguma coisa. Que melhor escola podia existir?
Vítima do Cavaquismo que defendera
Pedro Correia conta nesta belíssima crónica como era a redacção de O Tempo no início dos anos 80 e escreve um belo texto de memória sobre Nuno Rocha, que faleceu ontem, aos 83 anos. Também é muito justa esta evocação assinada por João Cândido da Silva: reconheço imediatamente o retrato de um jornalista que marcou toda uma época. Mas eu tive menos sorte; assisti aos dois últimos anos, de declínio e morte de O Tempo.
No colapso, havia razões financeiras que nunca entendi, talvez fosse parte de uma crise mais geral dos meios de comunicação, confrontados com a súbita perda de leitores ou de interesse em publicações centradas nos assuntos políticos e na discussão das grandes clivagens ideológicas. Os jornais eram caros de fazer e distribuir e precisavam de uma modernização da linguagem, da imagem e do estilo. Talvez fosse isso que faltou.
Não conheci intimamente Nuno Rocha (ele era meu director), mas testemunhei alguns momentos da sua humilhação pública. Lentamente, perdeu o controlo da empresa e via-se no olhar o desespero do fracasso ou de quem tombava de muito alto. Asseguro-vos, uma das coisas mais tristes é assistir à queda de um anjo. Ele, que tinha sido o grande jornalista, o homem poderoso, que dirigira um jornal de enorme êxito, confrontava-se então com a perspectiva da falência. Foi lamentável o episódio em que Nuno Rocha perdeu o controlo da sua criação e acabou escorraçado, como um velho incómodo. Mil perdões se falto à verdade, mas foi isto que vi, o poder de direita já não precisava de um jornal de direita que concordava com esse poder. Ironia, O Tempo foi vítima do Cavaquismo que defendera com unhas e dentes. E a ‘classe jornalística’ assistiu ao fim com um encolher de ombros: afinal, era uma publicação de direita.
Não se regressa da derrota
Nuno Rocha perdeu o controlo do jornal e teve de sair. Da agonia ao fecho foi um processo rápido. Provavelmente, não houve investidores para a modernização, também não havia entusiasmo para a concretizar. A redacção esvaziara-se e eu fui um daqueles que não saíram a tempo. Havia outros, todos personagens de romance. E não posso deixar de lembrar aqui a tragédia de Eduardo Guerra Carneiro (das prosas mais perfeitas que encontrei na vida) um dos que foram ficando no esquecimento que não mereceram. Enfim, na fase terminal, o raciocínio deixara de ser o do entusiasmo e da tolerância, o poder não precisava daquilo, era mais fácil fazer outros projectos de raiz, com menos jornalismo e mais do resto que temos agora em abundância.
Nas décadas seguintes, encontrei-me com Nuno Rocha algumas vezes. Ele perguntava-me pela minha mulher, era mesmo a primeira pergunta que me fazia, sempre com ternura. Sabia da minha história. Mantinha aquele ar distraído e a mesma elegância no trato. Julgo que tentou outros projectos porque não podia estar quieto, mas fracassaram um bocadinho ou nenhum deles triunfou, não sei. Eu fui à minha vida, o Nuno nunca conseguiu regressar da sua derrota, depois reformou-se, deixou de ser falado. E o que aprendi com ele? Ah, a resposta a essa pergunta é relativamente fácil: aprendi o valor da liberdade, o seu valor inestimável e precioso, pois foi isso que existiu sempre no jornal dele. Como é que se escreve sem usar esse elemento tão custoso de ganhar e tão penoso de manter? Não sei se é possível, só sei que escrever com liberdade vale bem uma derrota sem regresso.

Tu merecia-lo, Luís, e o Nuno confiou com razão. Sobre o maior dos teus porquês relativos ao fim do Tempo concorreram vários motivos, tendo o maior sido a desistência do Pedro Santana Lopes da aquisição do jornal. O Nuno ainda tentou salvá-lo com a nomeação de um chefe de Redacção que merecesse a confiança de novos accionistas mas o escolhido recusou e o que foi escolhido teve dificuldade em aguentar o barco.
“só sei que escrever com liberdade vale bem uma derrota sem regresso.”
Vou guardar no meu livrinho das frases que merecem ser guardadas.
Excelente evocação, de um Tempo que já não vivi. Conheço o da fase anterior, que disputava liderança de mercado mas onde era possível antecipar os primeiros sinais da crise que viria a ocorrer no final da década (curiosamente, num altura em que a história acelerava e o fluxo noticioso aumentava vertiginosamente).
A fundação do ‘Semanário’, primeiro, e do ‘Independente’, depois, deram forte contributo para acelerar o fim do ‘Tempo’. Todos semanários: hoje seria algo impensável.
Mas década e meia de existência, numa época que já é História, fica para sempre documentada em centenas de edições de um jornal que não deve ser esquecido.
Excelente artigo.
Leal à verdade.
“escrever com liberdade vale bem uma derrota sem regresso”. Espero um dia ser capaz de escrever assim. Excelente texto, Luís!