O espírito de Marcoussis


Sérgio de Almeida Correia,

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 (foto Reuters)

Uma das coisas que as grandes competições desportivas têm de positivo é o de serem capazes de retirar os atletas, o público e os dirigentes do seu ambiente normal, transportando-os durante algumas semanas para um outro mundo, onde as picardias internas cedem o seu lugar à boa disposição, aos feitos desportivos, a imagens de extrema beleza, ao espírito de grupo que é criado em torno das respectivas selecções nacionais e, não raro, ao convívio e à confraternização com outros adeptos, com os quais em situações normais não se encontrariam. Salvo um ou outro caso pontual, o ambiente pouco saudável do dia-a-dia desportivo interno, feito de manchetes, mentiras e maus fígados é substituído por uma espécie de détente que se prolongará até ao final da competição e ao regresso dos jogadores às suas equipas para prepararem a nova época de competições.

Nenhum de nós pode neste momento dizer qual será o futuro da Selecção Nacional neste Euro 2016, nem com um mínimo de segurança prever quem sucederá à Espanha como campeão europeu. E, tirando um outro adepto mais estouvado e com ânsias de protagonismo, que sempre os há, parece-me ser relativamente consensual que a maioria dos apoiantes da Selecção em terras gaulesas tem-se portado bem, não criando, nem contribuindo para a sua criação, de situações de violência, por natureza alheias ao fenómeno desportivo e do qual devem ser bem separadas. 

Mas para além desse facto gostaria de aqui registar um outro e, ao mesmo tempo, deixar um repto. Refiro-me à forma calorosa como a Selecção e os jogadores têm sido apoiados, e em particular ao modo como os membros de algumas claques de clubes nacionais têm sido capazes de ultrapassar divergências para em conjunto darem o seu contributo no apoio à Selecção Nacional e a todos os seus jogadores. Para isso, também muito tem contribuído o espírito de união, boa disposição e sã camaradagem que os próprios jogadores e o seleccionador nacional se têm encarregado de fazer transpirar, ignorando as tradicionais rivalidades em prol do grupo e de um objectivo comum a todos. 

Gostaria, por isso mesmo, que este ambiente desanuviado pudesse, mesmo depois de finalizado o Euro 2016 e qualquer que venha a ser o resultado final, ser replicado durante as competições internas, isto é, campeonato nacional e taças. Estou certo que todos teríamos a ganhar desportivamente e em matéria de boa disposição.

Não me canso de ver o espírito, sentido de humor, civismo e respeito pelos adversários que irradia de alguns adeptos e das claques, organizadas ou não, de outras equipas. São muitas as imagens que já vimos e ainda mais os vídeos que se multiplicam nas redes sociais dando conta, por exemplo, do comportamento de irlandeses, galeses ou belgas, em que até os poucos excessos em que incorrem são objecto de imediata reparação. Não fossem as atitudes de alguns, poucos, hooligans ingleses, russos, polacos e alemães, no que será a meu ver mais um problema de cultura e civilização do que excesso de álcool, e teríamos tido um campeonato animado e sem casos.

Se as claques tradicionalmente desavindas dos principais clubes nacionais foram capazes de se unir em torno da Selecção Nacional, também seria bom que recolhendo essa experiência fossem capazes de fazê-lo na frente interna em prol de um desporto mais saudável e de uma competição mais equilibrada. Os líderes dessas claques já mostraram que é possível mudar e fazer diferente.

Seria bom que, de igual modo, os dirigentes se mostrassem à altura desse exemplo e que aproveitassem o “espírito de Marcoussis” para trazer alguma serenidade e sensatez ao futebol nacional que dentro em breve começará uma nova temporada. Se o pudessem começar a cultivar desde já, comparecendo juntos ao próximo jogo de Portugal contra o País de Gales, seria óptimo.

Mas se tal não for viável, então que os responsáveis dos principais clubes nacionais aproveitem para prepararem a nova época, começando por moderarem o discurso inflamado, temperarem os ataques directos e indirectos aos adversários de cada vez que têm um microfone ou uma câmara à frente, denunciarem os seus maus representantes em programas desportivos, transmitirem um módico de temperança para dentro das suas agremiações, evitando o falatório alienado, o discurso folclórico e desbragado e o insulto soez nas redes sociais. Contendo-se e contendo os seus subordinados, a começar pelos técnicos das respectivas equipas, convidando-os a falarem menos de assuntos extra-desportivos e do que se passa na casa dos outros, elevando o desporto e fazendo com que este seja um factor de apaziguamento da crispação dos últimos anos, para a qual, infelizmente, muito contribuíram alguns maus jornalistas, empresários desportivos e agentes políticos. Não se trata de uma qualquer lei da rolha ou de agora passarem todos a ser uns anjinhos, nada disso. A crítica, a competição, são essenciais ao desporto. Trata-se sim de encarar o futebol e a rivalidade entre equipas nacionais com outros olhos, ver a competição com outro sentido de lucidez.

Ter um Presidente da República que é adepto confesso do Braga, um Primeiro-Ministro do Benfica e um Presidente da Assembleia da República do Sporting pode não ser mau de todo. Outros serão adeptos do Porto, da Académica ou do Guimarães. Daí não vem mal ao mundo. A pluralidade é saudável. O que é preciso é ver o lado positivo das coisas, e aproveitar a oportunidade para limpar a casa e organizá-la. Se não der para sermos campeões, paciência. Melhores dias virão. Mas ao menos que Marcoussis sirva de inspiração para alguma coisa. Ainda vamos a tempo.

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0 comentários em “O espírito de Marcoussis”

  1. O povo prepara-se para mais um jogo, num Europeu que define os melhores entre os melhores. E entramos na última semana, que vai ditar os dois finalistas para disputarem o famoso troféu do velho continente.
    Não adianta voltar a falar do impacto que o futebol nutre em todo o mundo. É só assistir ao frenesim que se vive durante um jogo e logo entre duas nações com vasta história de campeões, para avaliar a histeria e ansiedade, que cada lance de possível golo invade os apoiantes.
    Italianos e Alemães, discutiam taco a taco a presença nas meias-finais, (onde já está Portugal), num jogo que entrou pelos penaltis, num falho eu e logo falhas tu. Até que necessariamente um deles teria que rumar a casa mais cedo.
    E a sorte sorriu ao Alemães, depois de terem estado a um pequeno passo de serem eliminados.
    Num ápice as ruas foram entupidas de buzinas estridentes e o povo eufórico com mais uma vitória, da grande favorita à conquista do troféu.
    A Alemanha embrenhou-se na euforia, que durou pelas altas horas da madrugada.
    A polícia já preparada para estas festas de rua. Ocupava pontos estratégicos da cidade e dissuadia qualquer excesso dos compatriotas.
    Nunca pensei que os alemães vivessem tão intensamente o futebol (por norma um povo frio de emoções). Mas são malucos pela bola e enchem todos os lugares onde existir uma cadeira e bebem canecas de cerveja, até que as camisolas brancas se tingem de amarelo, babados pelo licor que jorra como erva daninha nos canteiros dos alpendres.
    Foram-se os italianos comunidade muito forte por estas bandas e é com estrondo que os alemães manifestam a sua alegria, perante a tristeza dos italianos que bem perto de mim envolveram-se em confrontos com africanos que içavam a bandeira alemã.
    A semana está prestes a iniciar-se.
    Pelo meio joga-se a cartada final para se conhecer os dois melhores. Espero que na quarta percorra a vasta avenida com a bandeira das quinas e a buzina bem audível. Tão solitários, como a surpresa presença da nossa selecção na final. Sinal que no domingo, estamos a discutir o caneco tão desejado.
    Somos poucos mas somos notados pelas ruas de Wuppertal, que nos acolhe há mais de um ano.

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