É curioso avaliar as linhas editoriais dos jornais pelas primeiras páginas da imprensa britânica de hoje. Nos tablóides, o Brexit ganha por maioria absoluta. Com o Sun a soltar um berro patrioteiro, chamando “Dia da Independência” a esta quinta-feira em que 46 milhões de eleitores são chamados a escolher se querem o Reino Unido dentro ou fora da União Europeia.
O Daily Mail, outro diário eurofóbico, estampa em letras garrafais quatro supostas “mentiras” propaladas pelos parceiros comunitários de Londres. E o Daily Express, sem vocação nem paciência para subtilezas, transforma toda a capa num grito de guerra favorável à saída.
Só o Mirror, único tablóide conotado com a esquerda trabalhista, navega na direcção contrária – e com a mesma falta de subtileza. Comparando o Brexit a um gigantesco “salto no escuro” ilustrado da forma possível, com um vertiginoso abismo que poderia servir de ilustração ao Inferno de Dante – que lá no jornal talvez alguém conheça, da selecção brasileira e do campeonato alemão.
Na chamada imprensa “séria”, que por vezes se leva demasiado a sério sem justificação para tal, o tom é mais comedido. Mas o espírito de trincheira está lá, embora envolto em rodriguinhos semânticos e gráficos.
O vetusto Times puxa por uma manchete supostamente anódina mas onde o verbo escolhido é precisamente leave [sair], palavra-chave dos eurofóbicos. Opção semelhante à do Guardian, embora enfileirando na facção oposta: no título principal deste diário de centro-esquerda lá surge a palavrinha stay, que funciona como lema da militância eurófila.
Um pouco mais escondido, mas ainda assim em destaque, é o remain que o Independent exibe no segundo título mais destacado da sua capa. Nada a ver com a histeria do Mirror, claro. Mas um leitor atento percebe que também aquele título tão independente prefere afinal manter o reino de Sua Majestade ancorado na União Europeia.
O mais sóbrio e contido é o Financial Times, que tem uma linha editorial pró-Europa mas não confunde jornalismo com militância política. Talvez esteja fora de moda, neste tempo em que a lógica das chamadas “redes sociais” infecta os conteúdos informativos, mas ainda não foi inventado modelo melhor.
Por isso, e sem desprimor para os demais, é a este periódico que tiro o meu chapéu. De coco.

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Gostei.
Se com o Correio da Manhã é o que é, nem imagino o que se diria por cá se houvesse nos nossos escaparates um tablóide do calibre do The Sun (que quase faz o CM parecer de referência).
Há um ‘Sol’, mas bronzeia muito menos do que já bronzeou.
Caro PC, a diferença é pequena, mas …. este pudim não agradou a muitos provadores.
Em Portugal se o PR pedisse 3 boas razões seria provavelmente Ronaldo, Moutinho e Quaresma.
Enfim, as urnas falaram. Antes estas do que as outras, as urnas dos mortos.