(Max Rossi/Reuters)
E lá passámos aos oitavos de final do Euro 2016. Depois de tantos apertos, durante mais três dias, vai ser possível recuperar energias, secar os microfones que foram ao charco e dar algum trabalho aos barbeiros. Após o jogo de ontem com a Hungria, é caso para dizer que o melhor do jogo, tirando aqueles três golos que a Selecção Nacional alcançou em momentos de inspiração de Nani e Ronaldo, foi o apito final do árbitro.
É certo que se tratou de uma qualificação sofrível, alguns dirão “merdosa”, tal a forma como foi conseguida por uma selecção que reclama ser uma das melhores do mundo e arredores e ainda surge como a sexta classificada, salvo erro, no ranking da FIFA. De parecido com a forma como esta qualificação foi obtida só estou a ver a vitória da Porsche nas 24 Horas de Le Mans do passado fim-de-semana. Isto é, ao cair do pano, a minutos do fim e na sequência dos percalços dos adversários.
Para quem depois do primeiro jogo, com a habitual cagança, dizia que a Islândia não tinha futebol para estar em França e ia ser corrida na fase de grupos, só apetece dizer que nós nem à Áustria conseguimos ganhar. Convenhamos que com o grupo que nos calhou em sorte, com tantas estrelas no plantel, o senhor engenheiro devia ter feito muito melhor.
O seleccionador nacional e os jogadores terão no próximo sábado, frente à Croácia, uma oportunidade para se redimirem do que fizeram na frase de grupos. A Croácia é uma selecção que joga um belíssimo futebol – a Espanha que o diga -, tem jogadores de uma excelente craveira técnica e tanto é capaz de jogar aberto e com velocidade como esperar por uma jogada de contra-ataque para arrumar com o jogo. Portugal tem atributos que não nos deixam atrás. Daí que seja tentado a dizer que o que irá fazer a diferença no próximo jogo, mais do que a sorte, será a inteligência, o acerto no passe e nas marcações e a confiança na hora do remate.
Penso que Fernando Santos já terá feito todas as experiências necessárias, assim o espero, e neste momento a constituição da equipa não deverá oferecer dúvidas. Rui Patrício, apesar das suas habituais limitações, tem estado bem e não foi ele quem comprometeu, apesar de no jogo com a Hungria me ter parecido que por duas vezes se fez demasiado tarde à bola. Ou não viu a bola partir ou está a precisar de mudar as lentes. De qualquer modo é para continuar. E a defesa que ontem jogou no essencial deverá manter-se. No essencial porque se Eliseu voltar ao banco ninguém se espantará. Ontem, por duas ou três vezes lançou-se no ataque desguarnecendo o seu sector. Quando isso aconteceu procurou recuperar, mas valeu que foi sempre convenientemente dobrado. Eliseu é um poço de força, mas esta não é a maior amiga do talento e da classe. Vieirinha pode fazer muito mais e melhor. Os centrais estiveram num nível superior ao dos jogos anteriores, não obstante as dificuldades que Ricardo Carvalho tem em disfarçar os anos que leva em cada perna.
A exibição de ontem voltou a mostrar as insuficiências da equipa e a falta de inteligência e eficácia no miolo. William Carvalho continua a ser um jogador desengonçado, que tem dificuldade em fazer passes à flor da relva, levantando muitas vezes a bola sem qualquer sentido, no que está bem acompanhado por Pepe. Ambos falham passes e comprometem sem jogadas sem necessidade e apenas porque não pensam. Carvalho defende melhor do que ataca, o que pode ser um problema quando se precisam de golos como de pão para a boca. André Gomes é um jogador de muita classe, só que também ainda não conseguiu encontrar o equilíbrio. Frente à Hungria voltou a falhar passes mas ficou com o mérito de ter sido o primeiro a fazer um remate digno desse nome à baliza adversária. Pode fazer muito mais e seria bom que o fizesse rapidamente. Moutinho entrou claramente em fase descendente e é hoje a sombra do excelente jogador que foi. Falha passes como se fosse um William Carvalho, falta-lhe pulmão, está lento, sem ritmo. Deve ficar no banco. Renato Sanches já devia ter merecido mais minutos nos jogos anteriores. Perdeu uma bola junto à linha lateral que não podia ter perdido, mas bolas como a que perdeu também já as vimos Ronaldo, Nani, João Mário e Quaresma perderem, não tendo estes sido alvo da chacota que aquele mereceu nas redes sociais. Ontem pediu muitas vezes a bola sem que esta lhe fosse passada, já que João Mário e William Carvalho preferiam jogar entre si e ignorar o companheiro que pedia a bola. Quando pôde, Renato Sanches mostrou que fazia a diferença, quer a atacar quer a defender. Os aplausos de Ronaldo às suas aberturas não levantam dúvidas sobre o seu valor, já que os fora-de-jogo não são da sua responsabilidade. João Mário esteve francamente melhor do que nos jogos anteriores, embora não tenha mostrado ainda ser o jogador que o seu clube apregoa. Danilo foi apenas mais um, enquanto lá na frente Nani, Ronaldo e Quaresma estiveram bem. Ronaldo não jogou pior nem melhor, simplesmente não teve o azar dos jogos anteriores. Concretizou, cumpriu marcou dois golos, não se lhe pode pedir mais. Pareceu estar mais concentrado e isso é bom. Nani dá a ideia de se cansar depressa, havendo momentos em que desaparece do jogo. Quaresma merece a oportunidade de ser titular contra a Croácia paras se ver se rende mais quando os outros também estão frescos. Tanto ele como Renato Sanches criam muitos problemas aos adversários e é um desperdício deixá-los no banco durante a primeira parte dos jogos.
Um ponto que Fernando Santos deverá rever é a marcação de livres. Como há dias era sublinhado numa estatística, Ronaldo não consegue marcar um golo de livre. Ultimamente são mais as vezes que lhe saem mal do que aquelas em que a bola vai à baliza com perigo. Talvez não fosse mau de vez em quando dar oportunidade a outros para marcarem os livres. Podia ser que se perdessem menos bolas para as bancadas.
Vamos, pois, aguardar, fazendo votos de que a exibição verde-água de ontem possa dar lugar a um jogo exuberante, com raça e inteligência. Um jogo vermelho-vivo, cor de fogo, que nos catapulte para os quartos de final. Como se exige e se espera de uma grande equipa que prometeu mundos e fundos aos seus adeptos.


Concordo com quase tudo. Para mim a falta de precisão no passe, serem passivos sem bola e não pressionarem o adversário para falhar passes, tardias e más substituições são problemas graves mas que o treinador pode tentar emendar. A soberba de se julgarem superiores a outras equipas não o sendo verdadeiramente e abusarem da falsa humildade é que acho que não tem cura, mais a mais com tantos exemplos em casa.
Alguns políticos, devem ter dado um enorme suspiro de alívio, lá teriam de inventar, à pressa, outra “droga”, para conseguir manter o povo entretido e distraído, daquilo que, realmente, afeta as suas vidas, hoje e no futuro. Alguns até devem ter aberto uma garrafinha de Moët & Chandon porque é preciso consumir e ajudar a economia a crescer… nos outros países
William Carvalho foi o jogador com mais passes e mais eficácia de passe no jogo de ontem. Penso que 94%.
És injusto para o William, Sérgio. Ainda não vi as estatísticas deste jogo, mas no anterior – frente à Áustria – William foi o nosso jogador com melhor percentagem de passes correctos: 87%.
Ontem o problema do William nos 45 minutos iniciais chamou-se… Moutinho. A explicação surge na citação que se segue.
“William transformou-se, durante a primeira parte, na segunda ‘vitima’ de Moutinho [a seguir a João Mário]: como o médio do Mónaco não está a conseguir ser dinâmico, ‘esconde-se’ em espaços muito recuados, originando redundância de posicionamentos e funções na primeira fase de construção. Portugal voltou a ressentir-se desse problema.”
Palavras escritas hoje, no ‘Record’, por um atento e sábio leitor do jogo: o jornalista José Ribeiro, editor-chefe do jornal.
Essa % de acerto é a quantos metros? A do Patrício deve ser de 100%. 😉
A análise do Sérgio Correia está correta e muito bem feita.
Os jogadores de Porto, Benfica e Sporting tiveram uma prestação lamentável.
Pior é o caso do Sporting que foi quem mais investiu numa campanha de desespero para colocar estrelinhas em palco, à espera de contratos que salvem a gestão da Bruna do descalabro financeiro.
Renato Sanches não tem jogado nada, tal como João Mário, que nem sabe o que faz em campo. Mas o Renato está despachado e é problema do Bayern, enquanto o João Mário tem que jogar, para ver se o Sporting não entra em falência técnica.
William Carvalho tem estado bem como pivô da equipa adversária. Disfarçando nos passes de meio metro, que incrivelmente acerta, Fernando Santos teve que fazer entrar Danilo, porque só juntando os dois conseguia um jogador que não comprometesse no final.
Já Patrício oferece uma segurança na baliza semelhante à de Eliseu na defesa, com a diferença que Eliseu ataca.
Tudo muito fraquinho. Mas como só não vê quem não quer, o desespero por vender está aí, e por isso houve até a tentação de remeter culpas ao Ronaldo.
Essas análises do Record estão boas para ir para o charco com o microfone.
Quanto ao Moutinho, já se sabe, para a lagartagem que faz sagradas as orações do clube, há de ser sempre uma “maçã podre”.
Visionários!
João Mário “nem sabe o que faz em campo”?!!!
Aconselho-lhe uma deslocação urgente à Multiópticas. O seu caso parece-me preocupante.
Entretanto pegue numa lupa e leia isto:
Record, hoje: «João Mário foi um verdadeiro quebra-cabeças para Korhut, que lhe apareceu pela frente em grande parte do jogo. Num desses lances (50′) fez uma assistência perfeita para o calcanhar de Ronaldo. Excelente segunda parte, com uma série de desequilíbrios.»
O Jogo, hoje: «Que segunda parte! Assumiu o jogo e fez bons cruzamentos; um deles, aos 50′, resultou no golaço de Cristiano Ronaldo.»
A Bola, hoje: «Se o intervalo fez bem a alguém, foi a João Mário: beneficiou da dinâmica que Renato Sanches trouxe, soltou-se, voltou a domesticar o couro, cruzou para o calcanhar de Ronaldo.»
Sim, e o João Mário teleguiou o passe para o golpe de calcanhar de Ronaldo, está-se mesmo a ver que sim.
Se não fosse o Ronaldo inventar aquele golo, com o calcanhar, alguma vez aquele passe seria aproveitado numa jogada perigosa?
Confundimos o mérito do Ronaldo ter ali inventado um golo fabuloso, com um cruzamento mal feito por João Mário.
O João Mário é uma daquelas promessas indiscutíveis, como foi Montero.
Eu até gosto dele, e espero que ele melhore, mas tal como Renato Sanches, depois de serem elevados na máquina de propaganda comercial, do Benfica e Sporting, têm andado meio perdidos, e super pressionados por isso.
Praticamente, nestes três jogos, não fizeram um único remate com jeito de perigo, e quando tentaram desequilibrar perderam ou passaram mal a bola.
É como tentar ler as percentagens do William Carvalho sem ver os jogos. Passou a bola como se fosse uma batata quente, parece que tinha medo dela.
Jogar bem não é jogar para a estatística, e o Quaresma pode ter más estatísticas, mas foi quem tentou mais desequilibrar em acções individuais. Esse ao menos soube fazer um cruzamento para a cabeça do Ronaldo.
João Mário foi o melhor em campo. Sem sombra de dúvida.
Hehehehehe. O que vale é que os comentários sobre futebol estão ao nível da patetice dos comentários sobre política. É o que dar ver o mundo com lentes vermelhas. João Mário é fraco…O William não sabe passar. Mas o Deus… o Deus é Deus e só não fez uma exibição à Deus Maradona porque os outros meninos não lhe passavam a bola. Hehehe. Se o ridículo passasse eliminatórias já estava na final.
Só vi os últimos 15 minutos e é por isso que não faço qualquer análise.
Seja como for, gostava muito de ver análises (seja lá de quem for) que não fossem clubísticas ao estilo “deve jogar este e não aquele” sendo que “este” é o do nosso clube e “aquele” o do outro.
Dos 15 minutos que vi Eliseu não merece a titularidade. Do que vi de Guerreiro, este sim, merece-a, desde que consiga jogar. Se não jogar talvez não fosse má ideia meter um dos laterais direitos ali.
Do resumo que vi e dos 15 minutos finais, Pepe tem que ser enfiado no banco. As curas de banco costumam fazer-lhe bem. A sensação de titularidade garantida deixa-o displicente. É má altura para trocar duplas de centrais (e de quem é a culpa?) mas José Fonte há muito que merece estar no onze inicial.
Rui Patrício talvez seja o melhor guarda-redes português mas ainda não vimos Anthony Lopes a jogar. Nem sei se já está bloqueado para Portugal, não faço ideia se já jogou algum jogo competitivo. Se não, um dia destes os franceses convencem-no que lhe dão mais hipóteses que Portugal. Patrício, seja como for, se não tem culpas nos golos, pelo menos no segundo (salvo erro) demonstrou que não é nada de excepcional, apenas um bom guarda-redes. Um excelente guarda-redes poderia ter conseguido compensar. Patrício não o fez. Não o faz mau, mas mostra que não é particularmente bom. Também por isso me pergunto se não é tempo de ver o que Lopes pode render.
Quaresma teve a sua oportunidade contra a Áustria. Enquanto esteve fresco foi difícil de parar. Depois desapareceu e nem acertou os centros. Sempre dependeu da aceleração e essa está completamente gasta. Como substituto pode cumprir um papel fundamental. Como titular não acrescenta muito.
William Carvalho passa bem, aí penso que estás errado. Não é um médio ofensivo (há razões para ter recuado) mas nesse aspecto está bem. Defensivamente tem um excelente posicionamento, mas sempre que os adversários o contornam ou ultrapassam em velocidade, ele não parece ter rins para perseguir e se o faz é em ritmo de jogging. Há razões para os ingleses ainda não o terem ido buscar. Ainda assim dá mais garantias que Danilo.
João Mário é bom jogador mas tem duas dificuldades: 1) está excessivamente habituado a ter Adrien ao lado. Sem ele a telepatia não funciona. 2) não rende muito na ala, apenas pode disfarçar.
Renato Sanches não é jogador para ser titular (para já). Ainda lhe falta maturidade nas escolhas (não é uma questão de quantos passes acertados faz, mas as consequências dos – poucos – errados) e a energia só vale a pena se tiver um propósito. Com a equipa a necessitar de atormentar adversários ele pode ajudar – e muito – a defender. Se a equipa precisar de atacar ele ajuda a carregar os colegas para a frente. Mas essas são contribuições para dar a partir do banco. Neste momento eu preferiria a química de Adrien com William e João Mário à promessa e energia de Sanches.
Ronaldo. Bom, Ronaldo é Ronaldo. Portugal mata ou morre pelos pés e cabeça de Ronaldo. Mas não nos livres. É altura de alguém lhe retirar a braçadeira e os livres. E neste último caso dizer-lhe de forma simples que ele será muito mais útil com um cruzamento para a área do que a chutar para nada. São 40 livres em fases finais por Portugal. Nenhum golo. A mãe dele, por esta altura, já teria marcado um golo nem que fosse por acidente estatístico.