O estado da arte


Ana Vidal,

O problema dos humoristas em Portugal é que são como o estado islâmico: auto-proclamam-se. Alguns, como é o caso de Rui Sinel de Cordes, vão mais longe ainda nesse fascínio e trocam graças por mísseis e bombas contra um público que, evidentemente, não reage como eles gostariam. Não percebem os auto-proclamados humoristas que escolheram a mais difícil e ingrata de todas as artes, e que fazer rir muitos é para muito poucos. E quando isso não acontece, quando fatalmente constatam o fiasco, reagem como onze virgens ofendidas e vão fazer humor, enormes e injustiçados, para o seu micro-público amante de cintos de explosivos.

 

Não percebem também outra coisa muito básica: o direito à liberdade de expressão que lhes permite violentar todas as fronteiras (as dos outros, claro) é o mesmíssimo direito que assiste a esses outros para os crucificarem depois em praça pública. A mesma praça pública, aliás, e com a mesma violência.

0 comentários em “O estado da arte”

  1. Não percebo. Qual é a manifestação artística em que não há “auto-proclamados”? Os cantores vão a alguma repartição receber a certificação de cantor? Os actores dirigem-se à Loja do Cidadão para receber o cartão de actor? Os escritores aguardam parecer de alguma comissão até se considerarem escritores? Ou todos esses também se “auto-proclamam” cantores, actores e escritores? E quem é que decidiria que um humorista é humorista? A Ana?

    1. Boa questão. Não se entende porque é que esse é “o problema dos humoristas em Portugal”. Em que país é que os humoristas não se “auto-proclamam”? Há algum país com cerimónia de investidura de humoristas?

      1. Respondo a ambos: claro que acontece o mesmo com os artistas em geral, mas todos são julgados pelo o público que os lê, que os ouve, que os compra, etc. (eu também, claro, enquanto parte desse público).
        Falo aqui particularmente dos humoristas porque o que aconteceu em Portugal foi, de há alguns anos para cá, uma proliferação de novos “humoristas” por todo o lado, todos os dias. Como se fosse fácil, como se fosse possível haver assim tantos génios natos de uma arte tão exigente como é a comédia. Sim, ponho-os entre aspas porque a maioria deles não tem a menor graça e acha-se um Monty Python de geração espontânea. É a minha opinião, não precisam de concordar comigo.

        Mas este caso ainda mais particular, cujo nome cito no post, é o de alguém que agride toda a gente desde sempre com um “humor” (aspas outra vez, sim) violento, muitas vezes de forma brutal e desumana. Está no seu direito, exerce o seu direito à liberdade de expressão? Está. O que não pode é depois estranhar que lhe paguem na mesma moeda, fazendo birras e queixando-se de ser um genial incompreendido quando os outros exercem o mesmo direito e o atacam também.

        1. Continuo a não perceber. Os humoristas não são igualmente julgado por quem os lê, ouve e compra? Também houve uma proliferação de fadistas e não são todos a nova Amália, uma proliferação de escritores e não são todos o novo Eça. Qual é mesmo a especificidade aqui? Além disso, o texto diz “os humoristas”, não diz “certos humoristas”.

  2. Alguns “humoristas” que andam por aí não têm graça nenhuma, Ana. Confundem humor com graçolas boçais. Só não menciono os nomes deles para não lhes fazer publicidade.

    1. Também pões a palavra entre aspas. Presumo que aches, tal como eu, que há humoristas a mais e graça a menos. Sofremos de um surto de humorite aguda, ainda por cima de fraquíssima qualidade.

  3. Li uma entrevista à “Sábado”.

    Se não estava a gozar, relatando a sua vida – acho que é demasiado pirulas.
    Apesar do ar arrumadinho, que desconcerta.

    À pala do humor dá largas à maluquice, sem freio.

    O direito à capitis diminutio que ousa dizer o seu nome: humor negro.

    Gosto desse humor, mas em doses brutais como faz é uma loucura.
    Na verdade, não é difícil fazê-lo: basta gozar tudo e todos, incontinentemente.

    Quantas vezes não amortalhamos tal – no íntimo.
    E soltamos em estado de inebriação, sem censura interna – ou externa, dos que estão na mesma “frequência”.

    Não. Não pagava para vê-lo.
    Mas de borla: “sinto a liberdade a passar por aqui”.
    Desnuda bem preconceitos e “clichés”.

    Por mau gosto que integre – a uns, mais que a outros…

    Por curiosidade, ver
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Rui_Sinel_de_Cordes

  4. A propósito do “Estado da arte”:-

    Será preciso dar duas “bofetadas” no promissor ministro da Cultura para que ele acorde e diga ou escreva qualquer coisinha, nem que seja uma quadra para um manjerico d? Santo António?

    Ou está em França com a selecção?

  5. Totalmente chanfrado…

    E o diabo da entrevista, estragou-mo completamente.

    Os “produtos” que toma – viraram-no de vez…

  6. O post tinha piada. Já muitas vezes me interroguei porque carga de água vem um tipo ou uma tipa queque escrever um livro para ensinar os outros a “viver com a doença”. Há um paternalismo idiota nos auto-intitulados VIPs das têvês que não é dissemelhante da cultura proteccionista do estado. Tem a ver com o facto de serem quase todos retornados que ocupara as televisões e os cargos mais altos da funcão pública: e criaram esse discursozinho educador e supremacista contra a populaça (os famosos “populares”). Eles é que sabem ser verdadeiramente chiques e vocês são uns saloios portanto tomem lá um livrinho para vos ajudar a ser felizes. No fundo precisam deles para vender os seus programazinhos de astrologia patêga, os seus livrinhos de auto-ajuda e o seu marketing ranhoso e aldrabão.

    Daí o “ataque” do humorista não ser contra a tal apresentadora não-sei-quantos ou lá o que é, mas sim contra toda a classe de panfletários e os politicamente-correctos de carnaxide e de toda a subúrbia. Irrita-os profundamente e isso é bom porque já andam há demasiado tempo a mandar nisto e precisam de apanhar nas orelhas e eventualmente no focinho também.

      1. Não, essas não têm piada. O post que eu li do fulano pareceu-me ligeiramente mais elaborado e em linha com algumas coisas absurdas que já me tinham suscitado dúvidas como as que mencionei anteriormente (os livrinhos: eu compreendo as suas razões da esfera pessoal e a simpatia que geram, mas estranho o impulso e encontro paralelos com o universo de onde provêm).

        Para ser franco, nunca apreciei comédia, nem humoristas e muito menos stand-up comedy que acho mentecapta e exprime o impulso para a cópia dos nossos génios caseiros (os auto-intitulados e os outros, banhados a ouro pela “opinião”) embora ache obviamente graça a algumas perspicácias. Não é o caso deste sujeito que verifico agora é um autêntico idiota.

        Não é comigo que estes tipos ganham a vida. Nem esta cópia manhosa do Louis C.K. (é esse imbecil que este imbecil está a copiar) nem os hermans josés. Disto podem ter a certeza.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *