
«Para tratar com decência animais não é necessário constitucionalismo nem paranóia legislativa nem coisa nenhuma. Basta fazer uma lei que acabe com os maus tratos a animais: quer na criação, tratamento, transporte e abate em matadouros quer com animais de guarda e de companhia. É tão-só disso que se trata. Proibir que um cão passe a vida amarrado a um bidão como fazem aqui na aldeia ou viva à chuva dez anos na ponta de uma corrente. Respeitar o animal que abatemos para comer porque assim é necessário. Não é comparar os animais a pessoas, é tratar bem quem vive connosco. É humanismo.»
Do nosso leitor V. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

Recordo que quando saía da vila, há 20 anos, para os montes dos arredores, via cães presos por trelas ou à solta, cobertos de carraças e carrapatos, escanzelados. Recordo animais com leishmaniose, ainda hoje há casos desta parasitose em humanos em Portugal, o reservatório é o cão.
Quando vinha o final da época de caça, os caçadores abandonavam os animais mais velhos perto das aldeias serrana. Com fome, atacavam depois galinheiros e currais. De vez em quando era feita a «mezinha»: um isco envenenado lançado no monte que matava de um vez, por vezes, mais de uma dezena de animais, cães e gatos.
Há uns tempos uma inglesa disse-me que ficou impressionada com a forma como os algarvios tratam os cães no interior. Fecham-nos dentro de um canil, para onde atiram comer e água, e os bichos normalmente apenas saem na época de caça. O barulho à noite é insuportável, e alguns turistas já teriam desistido de algumas casas não só por causa da barulheira, mas também devido ao cheiro nauseabundo a dejectos da matilha encarcerada.
Estamos a evoluir na forma como tratamos os animais pois estamos mais ricos e instruídos, mas o caminho ainda é longo. Se há pessoas que não têm tempo nem paciência para dar atenção a um animal, por que carga de água os encerram em canis ou prendem eternamente numa trela ao frio, ao calor e à chuva, e os abandonam? Dirá este comportamento alguma coisa sobre a forma como estas pessoas se relacionarão também com o bicho Homem?
Por aqui (no norte do País) tenho observado que os cães são presos para guardar capoeiras mas também já os vi amarrados a barracões para guardar alfaias, campos com batatas ou materiais de construção — e em fábricas para guardar e dar o alarme e às vezes simplesmente para as pessoas não “passarem por ali”. Tudo isto é miserável e apenas acentua as casas feias, os muros brancos e a péssima “arquitectura” institucional e cultura de barraquinhas das câmaras e das freguesias, sempre com o mesmo folclore e com o mesmo mau gosto. Isto sim são coisas de organização do território sobre as quais vale a pena legislar — e não sobre escolas e o ensino e o que se deve ensinar e como se deve escrever e tudo o mais.
Outro problema é que os veterinários raramente passam factura porque não conta. Não conta apesar de estarmos a pagar produtos farmacêuticos normalíssimos. (Não sei se já existem algumas alterações legais neste sentido).
Excelente comentário, excelente escolha! O essencial dito em poucas palavras: respeitar os animais, tanto os que servem para a nossa alimentação, como os de companhia. É uma questão de humanismo, sim!