Excerto com coelhos e – em dia de decisão do título – adição de referências futebolísticas


escafandro,

1. A vantagem de jogar em casa

Por fim, ensina-me a construir gaiolas para os coelhos e dá-me conselhos e indicações sobre a comida, como tratar as doenças e essas coisas. E fala-me um pouco da cobrição:

– Tens de meter a fêmea onde está o macho, e nunca o contrário. Nunca o macho onde está a fêmea.

– E por que razão? – pergunto.

– Porque aí o macho encontrará duas novidades com que se entreter, uma fêmea e um território novo. É demasiado. Ficará confuso, e isso não é nada bom nestas situações, pois, ao fim e ao cabo, é ele quem tem de tomar a iniciativa – diz o Der Warming, dando-me uma cotovelada cúmplice. – E se não acontecer nada passados dois minutos – continua -, separa-os, porque isso quer dizer que não é o momento adequado do ciclo da coelha e podem pegar-se. Na pior das hipóteses, ela pode arrancar-lhe as bolas num instante.

– A fêmea onde está o macho – repito.

– Isso mesmo; se ele jogar em casa, correrá tudo bem.

– Mas então será a fêmea que ficará confusa – digo.

– Não importa; isso até pode ser uma vantagem – diz.

 

2. Os golos metidos fora valem mais

Quando chego a casa, mostro-lhes os coelhos e, antes que eu tenha tempo de reagir, o pai junta o macho a uma das fêmeas.

– A fêmea onde está o macho – protesto – disse o Der Warming. O macho tem de jogar em casa.

– Que parvoíce – diz. – Isso não quer dizer nada se ele for um verdadeiro macho.

 

3. Saltando os preliminares e indo directamente aos penáltis

E é um verdadeiro macho. Salta logo para cima da coelha, agarra-se bem ao seu pescoço com os dentes e monta-a – aprendi que se diz assim –, para, em seguida, lançar um grunhido e cair de lado.

 

4. O nível adequado de celebração (sim, sou sportinguista)

Ela, no entanto, não parece muito afectada e continua a comer.

 

Erling Jepsen, A Arte de Chorar em Coro.

Edição Cavalo de Ferro (2016), tradução de João Reis.

 

 

Adenda: Citada na badana do livro, a opinião da crítica Lisa Garsdal, no jornal dinamarquês Politiken, acerta em cheio no alvo: Não há absolutamente nada para rir no original thriller caseiro de Erling Jepsen; simplesmente, não se consegue evitar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *