Milan Kundera tem levado a vida a protestar porque críticos e académicos insistem em definir os seus romances como “políticos”. Sobre A insustentável leveza do ser repetiu incessantemente – e com bons resultados – que se trata de “um romance de amor”. O meu problema é exactamente o contrário: quando publiquei o meu penúltimo romance, que falava do 11 de Setembro, de uma iraniana fugida de Inglaterra para escapar de um casamento forçado, que em Portugal se vê obrigada a fugir dos que querem fazer dela uma Vítima Exemplar e do drama identitário dos filhos post-modernos de pais anónimos, entre outros assuntos políticos contemporâneos, a maioria da crítica descreveu-o como um romance de amor. A propósito desse romance, um jornalista perguntou-me, ultrajado: “Por que razão as mulheres preferem sistematicamente os homens casados?”. O romance tinha, de facto, uma mulher que se apaixonava por um homem casado, mas creio que, de Tolstoi a Kundera, inúmeros escritores lhe poderiam explicar que o contrário também acontece, e que não há nenhuma estatística divina que faça desses casos um destino. Pedro Mexia declarou, na revista Ler, que eu me tenho ocupado a recuperar a “tradição” do “romance sentimental”. A minha mãe gostaria que assim fosse, e creio que o fantasma de Bernardim Ribeiro também. Se ao menos eu pudesse sentar-me com Milan Kundera no café de Flore a trocar cromos: eu ficava com o rótulo do “romance político”, ele com o do “romance de amor”. E talvez assim lhe dessem finalmente o prémio Nobel que ele tanto merece e que, certamente por amor, lhe têm negado.
Milan, quem dera!
blogprimario94472,

os filhos post-modernos de pais anónimos
Não vejo em que é que os filhos de pais anónimos sejam post-modernos. Sempre houve filhos de pais anónimos. (O meu padrinho, por exemplo, que, segundo o que se diz, era filho do pároco da aldeia.) Aliás, parece que hoje em dia se investiga a paternidade muito mais do que no passado. Conheço uma pessoa, já idosa, que no seu bilhete de identidade tem apenas o nome da mãe (e que também tem apenas o apelido da mãe).
Os artistas são uns incompreendidos (sem ironia). 🙂
O leitor só vê o que quer, mais por identificação pessoal que por outra coisa.
O crítico é diferente, gosta de descobrir coisas que mais ninguém é capaz de descobrir. E é perito em colocar rótulos. Podia arranjar emprego em qualquer fábrica de vinhos. 🙂
1. Ora, Inês, e desde quando os autores (mesmo do calibre de Kundera ) têm o poder para determinar a forma como as suas obras são lidas? De resto, se bem me lembro de alguns ensaios dele (p. ex., o livro Os Testamentos Traídos), Kundera até defende um estilo não-romântico , em que o autor não força interpretações e sensações, deixando-as ao leitor.
2. Não lhe têm negado o prémio Nobel (que, como escreves, tanto merece) por amor; provavelmente é mais por – lá está – visões políticas da obra dele.
3. Bem-vinda.
Extra (em modo provocatório):
“Por que razão as mulheres preferem sistematicamente os homens casados?”
Assumindo que é verdade, será pela mesma razão que as fêmeas de tantas espécies preferem machos com várias fêmeas no harém (i.e., dominantes) a machos solitários?
Já te dei as boas-vindas? 🙂
A velha questão dos rótulos, Inês. Nunca nos libertamos deles. Andou o Camilo durante tanto tempo a querer banir a etiqueta “escritor romântico” e acabou por perder a guerra. O Eça, por sua vez, cansou-se de ser rotulado de “naturalista” e até fez questão de encerrar a carreira literária com obras que de “realismo” tinham bem pouco, mas de nada lhe serviu: a etiqueta perdurou. O mesmo décadas depois, com o Cardoso Pires, que nunca se libertou por completo da designação “neo-realista” colada desde os primeiros tempos. E muitos, imensos etc.
O rótulo é sempre redutor. E serve de pouco para uma verdadeira análise à obra. Em vez de abrir janelas para rasgar horizontes instala o olho da fechadura.
E não é o amor político?
Bem vinda a este blog e obrigada ao Pedro Correia por a ter convidado. Mais um bom motivo para por aqui passar.
Só mais uma coisa, que provavelmente não será nova para ti: com um nome como Inês Pedrosa, esperavas mesmo escapar a associações ao sentimentalismo? 😉
bom texto:)