O Conselho Económico e Social (CES) costuma ser notícia. Ainda hoje o foi, ao anunciar ao País as suas previsões de um débil crescimento do investimento público e de anémica criação de emprego em 2016 devido ao insuficiente aumento das receitas fiscais.
Órgão de consulta do Governo com um presidente escolhido pela Assembleia da República, o CES tem à sua frente um ex-ministro, Luís Filipe Pereira. E já foi dirigido por outros antigos ministros: Nascimento Rodrigues, José Silva Lopes, Alfredo Bruto da Costa e José Silva Peneda. Motivos de sobra para dever estar atento não só às questões económicas e sociais mas também à língua portuguesa, que goza de protecção constitucional. Nunca é de mais recordar o artigo nº 11, n.º 3, da nossa lei fundamental: “A língua oficial [da República Portuguesa] é o Português.”
Luís Filipe Pereira não ignora isto. Mas ninguém diria, ao visitar o sítio do CES: abrimos a página principal e deparamos logo com um palavrão: “Contatos”.
Assim mesmo, à brasileira, sem respeitar a correcta norma da ortografia portuguesa nem sequer fazer caso do que está contido no chamado “acordo ortográfico” de 1990. Em acordês, convém recordar, “as consoantes c e p são eliminadas em todas as palavras em que não são pronunciadas”. Obviamente não é o caso de contacto, palavra em que todas as consoantes são bem sonoras em qualquer das pronúncias portuguesas, independentemente da classe social ou da região do País de quem as pronuncia.
Quando os organismos oficiais são os primeiros a dar estes maus exemplos, distanciando-se da sociedade que pretendem servir, não admira que os erros na escrita da nossa língua se multipliquem por aí. A ausência de regras tornou-se a regra dominante. E tudo isto é encarado com um vago e sonolento encolher de ombros. Como se a língua não fosse nossa. Como se pertencesse a suevos, aborígenes ou patagões.

Caro Pedro:
A Língua Portuguesa vive um verdadeiro caos, boa parte dele em resultado da confusão que o Aborto Ortográfico introduziu (quer no seu uso, quer na sua aprendizagem: o que é ainda pior) .
Outra razão desse caos vem do uso das novas tecnologias que interferem na Língua, servidas pela nova Língua franca – o Inglês.
Uma terceira razão resulta da influência do português do Brasil – 30 anos de novelas em doses maciças produzem o seu efeito.
Veja como o verbo pôr foi banido em favor do verbo colocar; e como as formas reflexas quase desapareceram; ou como se constroem as frases à brasileira.
Os brasileiros quase só usam colocar, não usam formas reflexas nos verbos e têm construções gramaticais próprias: nós temos outras.
Portanto, nestas circunstâncias, a norma ainda se torna mais importante como âncora onde cada um de nós possa recolher para se amparar.
O que se fez com o Aborto Ortográfico?
Escavacou a âncora e cada um que faça o que quiser.
Um verdadeiro pandemónio.
Que parece pouco incomodar a maioria das pessoas; muito menos os responsáveis políticos, que se limitam a uns arrufos inconsequentes levantando apenas pequenas dúvidas contra tamanha monstruosidade.
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P. S. O Pedro manifestou há dias o desagrado pelo facto de alguns comentadores se identificarem apenas pelas iniciais do nome, dizendo que não gosta de dialogar com quem assim se apresenta.
Eu, como gosto de dialogar consigo, apesar de não nos conhecermos pessoalmente, devo dizer que não o fiz para me esconder. Nem lhe sei dizer bem porque tal aconteceu aqui, pois noutros blogues onde comentava aparece o meu nome verdadeiro: Manuel Silva, daí o M. S.
Trata-se dos meus 1.º e 3.º nomes verdadeiros.
Nunca pretendi esconder-me, daí que esclareça este assunto agora.
Eu disse onde comentava, pois tenho-me vindo a afastar paulatinamente da blogosfera: um caos, mas de outro tipo, de irracionalidade argumentativa, que quase se limita a uma guerra de capelinhas ideológicas com pouco sentido (ressalvando algumas excepções).
Meu caro: o aborto ortográfico, que pretendia “unificar” as ortografias – como se isso alguma vez fosse possível – funciona afinal como potencial ampliador das divergências fonéticas entre portugueses e brasileiros. Temos aparelhos fonéticos diferentes que o acordo só potencia ao suprimir as supostas consoantes mudas, afinal com valor diacrítico.
Voltemos ao famigerado “espetador” que alguns pretendem impingir-nos enquanto os brasileiros continuam a escrever espectador.
Ao pronunciar-se deste lado do Atlântico sem o C, o E extingue-se na segunda sílaba desta palavra, sobretudo na pronúncia de Lisboa, onde passa a ler-se “xp’tador”.
Nada a ver – nada mesmo – com a pronúncia brasileira. E assim se vão cavando fossos fonéticos, à boleia de pretensas pontes ortográficas. De boas intenções está o inferno cheio.
P. S. – A propósito das iniciais e/ou de pseudónimos, meu caro, nós conhecemo-nos mesmo sem nos conhecermos. Há casos e casos. E você, aos meus olhos, está bem identificado, pode crer. Não o confundo com sonâmbulos que vêm aqui aliviar a azia fora de horas…
Parece que hoje pouca gente tem o sentido estético suficientemente apurado para escrever bem. Já referi várias vezes que a APRE, que é uma associação com um grande número de professores, utiliza o horrendo “car@s associad@s” (em vez de o correcto “caros associados”) sem a menor vergonha. Sempre preferi a fórmula intermédia utilizada por Eanes (ainda antes da doença do politicamente correcto atingir os níveis de agora) “cares associades”. Apesar de não gostar, sempre é melhor.
Eu faço um esforço terrível para falar bem o português e não consigo. Mas há gente que nem tenta.
Joana Melo, professora (querem que eu escreva “professor@”? Esperem sentados)
Há gente que nem tenta, Joana. Isso mesmo. Incluindo gente que, estando no ensino, faz tábua rasa da pedagogia.
Ainda bem que há pessoas que persistem em remar contra a corrente.