O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Os condutores que têm este tipo de atitudes – o de tentar entrar lá à frente – forçando a uma atenção redobrada, promovendo a raiva por via do “sou mais esperto que vocês, otários”, obrigando a fila/bicha a encolher e esticar, atrasando-a, são junto com os mirones e com os “gajos” que só andam na faixa do meio, o maior sintoma nacional de algo muito podre.
Esta podridão e sacanice que nos mata a todos um bocadinho não é feita por políticos, ou por tipos dos panama papers – os actuais Némesis dos portugueses: é feita pelo mesmo português que a seguir, sem problemas de consciência, vem reclamar para o FB ou para junto dos seus colegas o quão horríveis e irresponsáveis são X e Y no desempenho das suas funções e que não entende como é que Portugal não avança nem por nada.
Se nas funções mais normais em sociedade o entendimento é nulo de como uma atitude pode desencadear toda uma serie de acontecimentos terríveis, como irá entender que outros não o repliquem na mesma linha nas suas funções?
Sim, é que isso de pensar nos outros, ou nos processos e mecanismos, dá muito trabalho “e eu tenho pressa”. Por isso em Portugal ninguém está disposto a ser o otário que se mete pacientemente na fila/bicha e espera pacientemente reciprocidade alheia, de modo a que tudo funcione. Não, nem pensar. Que se lixem os outros, que se lixem os portugueses.»

 

Do nosso leitor T. A propósito deste texto do José António Abreu.

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. Muito bem. É nesse sentido que falo normalmente da “falta de ética pessoal” que tem também muita razão da sua existência na permanente dependência e culpabilização do Estado (que é uma variação do miserabilismo católico) e por isso acho muito estranho que se continue a votar “à esquerda” senão por interesse próprio e não por ser ser uma pessoa fixe. Gostei principalmente do fila/bicha. Muito bom.

    1. Vota-se à esquerda porque a maior parte dos eleitores são muito pouco inteligentes (isto para não usar uma palavra mais forte) e não percebem que se votassem à direita até o trânsito correria melhor. Os propagandistas da direita também não foram dotados pela natureza com grande cabeça e, por isso, não conseguem fazer compreender estas coisas simples aos eleitores. Mas cos as suas postas, Caro V., isto vai melhorar.

      1. Você não consegue discutir os fundamentos de uma ideia sem ataques ad hominem: ataca o emissor em vez das ideias, como se isso lhes destruísse a lógica interna e as fizesse desaparecer. Mas não faz. Continue a tentar.

  2. Isso está tudo muito bem, e eu sou um grande defensor do civismo.

    Mas todos os estudos de tráfego confirmam que, na presença de um estrangulamento (ou seja, redução do número de faixas de rodagem), a melhor solução é que todas as faixas disponíveis sejam utilizadas na sua plenitude até ao ponto do estrangulamento.

    Num engarrafamento não devemos sair da nossa faixa para aproveitar uma faixa vaga (a não ser que vamos mudar de direcção). Isso está previsto no código da estrada.

    Mas se viermos da faixa desafogada, enquanto outras estão paradas (por exemplo ao entrar numa via com trânsito lento) devemos aproveitar a nossa faixa até ao fim.

    Não faz sentido criarmos um novo ponto de estrangulamento a montante, para depois barafustarmos com os que entram mais tarde. Se a faixa existe, é para ser usada por quem nela se encontra até ao ponto de estrangulamento.

      1. Se eu estou a entrar numa via congestionada vindo duma não congestionada, não há cavalheirismo nenhum em entrar mais cedo.

        Eu não saí da fila para voltar a entrar mais à frente.
        Até ao ponto em que as filas se juntam, aquela não é a minha fila.

        Isto não é chico espertismo, é não antecipar o estrangulamento, o que só vai empurrar o congestionamento para trás, eventualmente fazendo-o afectar uma via que não está congestionada, prejudicando outros percursos.

        1. Sinceramente eu acho que é má-educação. Imaginemos que temos de nos encostar à direita >>> para continuar numa única faixa. Quando há a percepção de que a via (mais à frente) está congestionada —e mesmo que eu venha numa faixa desimpedida, creio que é de bom tom mudar de faixa o mais rapidamente possível até porque é a “minha” faixa (a desimpedida) que mais à frente está obstruída e vou ter de passar para a do lado. Neste momento, já perdi a prioridade. E portanto, meu caro amigo, não vou passar à frente dos que já estão parados porque é feio.

          1. Está no seu direito de pensar assim, V.

            Mas se eu entro numa via rápida com 3 faixas de rodagem paradas e tenho uma faixa de aceleração com 50 metros, percorro esses 50 metros devagar, e com calma. Se entretanto vir uma oportunidade de entrar sem obrigar ninguém a manobras bruscas, aproveito. Se não vir, uso toda a faixa, paro e formo fila ao fim dos 50 metros.

            Não vou ficar parado numa faixa desimpedida tentando entrar mais cedo por “boa educação”. Isso só vai causar congestionamento a montante. Tenho uma origem diferente, não estou a passar à frente de ninguém que viesse à minha frente, pelo que não acho de todo que seja “má educação” para com os que já lá estavam.

            Os que se esforçaram para entrar cedo, são residuais, causaram mais problemas que os que resolveram, e não me incomoda ultrapassá-los, nem ser ultrapassado quando me acontece a mim (porque consegui entrar cedo sem fazer ondas).

        2. Pois é, mas poucos pensam nesses termos.
          Uma boa parte pensa da forma descrita – não vai ser o otário da bicha e ponto final.
          Agora, a questão é mais complicada e qualquer simplificação, como a apresentada, poderá ser redutora.
          No meio da bicha, tem desde o sujeito que nunca faz isso, ao sujeito que faz isso todos os dias, e pelo meio com muitas situações intermédias, incluindo as dos que simplesmente não têm que saber que a fila começa antes de qualquer sinal de direcção.
          Nem todos os condutores andam apressados, alguns dão-se ao luxo de poder ser otários, outros nem tanto.
          Por isso não me escandaliza deixar passar quando não estou com pressa, e agradeço quando estou e me deixam entrar.
          Se é ridículo o sujeito que se quer meter, não é muito diferente o que nunca deixa entrar ninguém, porque esse otário predispôs-se a esperar pacientemente 50 carros passarem, mas afinal não queria ser otário, e teima por princípio não deixar entrar o último, porque finalmente é a sua vez. Isso ainda é mais parvo.
          Acho que as coisas funcionam menos mal, dadas as circunstâncias. Muitas pessoas agradecem, porque nem sempre se trata de achar que enganaram a fila, essa é a visão do otário, que não gosta de ser otário.
          Mas também não é uma questão de facilitar a vida à entrada dos outros, ou seja, quem aparece por uma fila estranha deve esperar até o deixarem entrar. O que é estúpido é a situação de competição permanente. Quem vem por fora não pode esperar entrar «à má fila». Se isso for ponderado, há um custo na má fila, que nem sempre compensar ao artista. É engraçado que por vezes está mais gente parada na fila dos artistas do que na fila normal.
          Uma boa parte de congestionamentos deve-se ainda a não tolerar a entrada em zip, e normalmente são os mesmos otários que, só porque têm prioridade, não deixam entrar ninguém de outras filas.
          Por isso, tanto há comportamentos errados do lado dos que julgam que estão a cumprir tudo certo, e os outros é que são os prevericadores, como do lado dos que julgam que a estrada é deles.
          Mas tem toda a razão, Nuno, é idiota ter 4 faixas, fazer fila apenas numa, e deixar as outras 3 vazias. Isso só serve para antecipar o congestionamento, e convidar à técnica dos artistas. Só que também é culpa de quem não actualiza os traços na estrada, de acordo com o congestionamento habitual das vias, e de não se educar melhor certos otários, artistas à sua maneira, que julgam que o zip lhes retira os direitos adquiridos de prioridade.

  3. Os condutores que têm este tipo de atitudes – o de tentar entrar lá à frente

    Eu muitas vezes faço isso, não por maldade, mas por simples inconsciência. Quando, numa autoestrada, vejo uma fila na faixa da direita, não sei a que tal bicha se deve e, como é natural, tento continuar a circular pela faixa da esquerda. Só mais tarde me apercebo de que essa fila se deve a uma saída onde eu queria sair.

    1. O Lavoura no seu melhor: nestas questões comparta-se como alguém que não conhece a via, como o comum dos turistas. Eu conheço ouros chicos-espertos que procedem da mesma maneira. Uns julgam que ninguém os topa, outros gabam-se da habilidade, alguns outros querem passar por ingénuos, como é o seu caso.

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