“Há dias, o Luiz Ruffato dizia ao HM que ‘o português de Portugal vai acabar por ser um dialecto do Brasileiro’…
Tenho de discordar. Em termos linguísticos não há dialectos. São línguas. Falava-se em dialecto quando o poder colonial se referia às línguas dos países africanos. Moçambique tem 11 grupos linguísticos, todos de raiz banta, Angola tem tantos outros. Falar em dialectos é uma espécie de menorização dos estatutos linguísticos. Hoje a linguística não vê a questão assim. Não se trata de dialecto absolutamente nenhum. O que vai acontecer são variantes da Língua Portuguesa, aliás já classificadas assim. A variante europeia não é única, porque naquele território tão pequeno, o léxico, alguma sintaxe e até a pronúncia sofrem tantas mutações … vai haver um português de Moçambique, os linguistas já fazem estudos nesse sentido, em Angola idem… O que o Luiz, se calhar, queria dizer é que pela dimensão geográfica e demográfica, o Brasil é o gigante que é.
Neste contexto, que sentido faz um acordo ortográfico?
Não faz muito. O problema da língua não está aí mas na sintaxe. O léxico não é problema porque as línguas são organismos vivos que se inventam a si próprios, depois a literatura gera uma espécie de padrão, a gramática analisa e cria um conjunto de regras que, logo a seguir, podem ser mudadas e são. Não há um proprietário da língua e qualquer Estado que julgue poder legislar a esse nível está absolutamente equivocado.“
Entrevista do escritor moçambicano Luís Carlos Patraquim a Manuel Nunes (Hojemacau, 23/03/2016)

É como chamar dialecto do Italiano ao Latim Romano de Catilina e de Cícero e da velha missa católica.
Em termos linguísticos não há dialectos. São línguas.
Eu não sou especialista na matéria, mas na Alemanha sempre ouvi referir os múltiplos dialetos que há nesse país. E na Suíça alemã e na Áustria, ainda mais dialetos. Nunca se fala na língua vienense ou na língua tirolesa, mas sim nos dialetos dessas regiões.
Não faz muito [sentido um acordo ortográfico]
Disparate. A Alemanha, a Suíça e a Áustria têm, no seu conjunto, dezenas de dialetos, porém a língua está codificada e a sua ortografia ainda mais. Os suíços aprendem na escola o alemão oficial, e a sua ortografia, apesar de na prática falarem dialetos que se prounciam de forma muito diferente. Informalmente escrevem “Zuri”, mas toda a gente sabe que a grafia oficial é “Zuerich”.
E Portugal também os tem. Nem precisamos de ir à Madeira e aos Açores.