Os gatos e a vida


Marta Caires,
O sol projecta os quadrados da janela no chão e, mesmo a meio, a Marquesa estende-se, o pêlo de tigre reluz. Em cima da cama, com os olhos num risco fino e azul, o Ming olha-me, faz-me perguntas de gato. Porque estou tão apressada, porque liguei o aspirador e enchi a manhã de barulho. Vira o focinho para a janela como que a esclarecer-me que, em manhãs de sol, é nossa obrigação aproveitar o calor.

Volta a olhar-me em silêncio, agora recomenda-me a leitura. Aquele livro de capa preta, aquele que tem uma fita a fazer de marcador, que lhe dá gosto mexer e desassossegar o momento. Quando a nossa conversa muda atinge este nível, abre a boca, mostra os dentes e o fastio. E, enquanto lambe uma pata, responde-me que os seres humanos são para isso mesmo, para desassossegar, para acordar com miados sonoros e patas frias sobre as caras de sono.

Do seu quadrado de sol, a Marquesa não entra na conversa. Paciente, conhece de cor o meu coração, os meus hábitos. O aspirador há-de calar-se, em breve o sol e o silêncio vão juntar-se no sofá para uma soneca no colo. Mais tarde ou mais cedo, consoante a birra que houver entre nós, assinaremos a paz. O tigre salta-me para a barriga, ronrona, ajeita-se e dorme. Protege-me, fâ-lo desde o dia que a retirei de uma jaula na SPAD.

Como seriam as manhãs de terça-feira sem estes dois? Que pulam, miam, exigem e arranham? E todos os outros dias? Devo-lhes o sossego e muitas lições sobre essa forma suave e inteligente de atravessar a vida. Li muito, leio muito, somo viagens, experiências, tenho alguns amigos, um marido, mas ninguém foi tão claro quanto à existência como estes gatos. Entre bocejos e longos sonos, há um tempo para tudo e eles sabem que sim.

De Inverno, porque faz frio, engordam; no Verão, lambem sem interesse o paté e emagrecem como se, em si, tivessem um relógio preciso. E, nos dias que correm entre as estações, são gatos. Correm desabridos, perseguem moscas e lagartixas, enfiam as garras nas pernas quando sentem que lhes falta atenção. Enroscam-se, a pedir carinho, viram as costas se exageramos. Amuam, eriçam o pêlo e mostram as unhas, às vezes, deixam marcas a latejar nas mãos. Enfrentam e recuam, escondem-se com medo e vergonha e têm uma maneira muito especial de dizer que gostam de nós.

Mostram a barriga, a rebolar no chão, a dizer que um gato – que é um bicho bravio, uma máquina de sobrevivência – também é meigo, capaz de mostrar o seu lado frágil a quem merece a confiança. Quando chegamos a este ponto, quando vemos – como eu vejo todos os dias – a barriga de dois gatos, então quer dizer que fizemos um longo caminho para compreender o Mundo, a vida que nele existe e os seus habitantes.

8 comentários em “Os gatos e a vida”

  1. É muito engraçado este fenómeno que se passa comigo: eu, que não tenho qualquer “cultura de gatos”, aproximo-me naturalmente (não faço a menor ideia por que razão) de pessoas que gostam de gatos e os têm em casa, e começo a gostar também deles por via dessas pessoas. Já constatei isto muitas e muitas vezes. Este belo texto ajuda-me a perceber melhor o fascínio pelos gatos como animais de companhia: independentes, orgulhosos e inteligentes, mas mesmo assim capazes de dedicação e ternura. Todas as razões para gostar deles, afinal.

  2. Olá Marta,
    O seu texto é um deslumbramento de sensibilidade e compreensão do mundo felino.
    Tenho cá uma Tareca, gatinha tigrada e muito personalizada, que costuma interagir comigo e com o mundo em geral de uma forma espectacular.
    Na casa da praia, onde uma onda de sol glorioso irrompe pelo quarto todas as manhãs, a Tareca é dona, senhora e rainha, esticando-se no soalho ou no tapete e daí saltando volta e meia para a minha cama, chamando-me às responsabilidade – às vezes só lhe falta falar, dizendo qualquer coisa no género “então, madraço, a tua preguicite é sinónimo de fome para mim ?” – ou então semi-cerrando os olhinhos quando me olha, significando “és um pecador, mas eu gosto de ti mais do que de caramelos vaquinha”.
    Obrigado pelo seu lindíssimo post (a Tareca está aqui ao lado e também agradece).

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