Balanço de Inverno (3)


Sérgio de Almeida Correia,

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 (Olivier Hoslet/EPA)

3. Ainda sem um orçamento que lhe oriente o rumo, o PS está por agora enfiado numa camisa-de-onze-varas. Cumprido o objectivo de apear do poder a coligação PSD/CDS-PP, ainda sem perceber o que lhe aconteceu nas presidenciais, sofrendo de um problema de astigmatismo crónico que lhe distorce a visão que tem do seu próprio eleitorado qualquer que seja o ponto do Largo do Rato onde se encontre, o PS procura ir dando resposta às exigências de apoiantes e parceiros sem adornar a embarcação. A experiência Sócrates deixou em todos os portugueses amargos de boca, com excepção daquele grupo de convivas que com ele assistia aos debates televisivos, e não tanto por causa do PEC IV, mera consequência da deriva populista dos habituais trauliteiros, mas mais em razão do adormecimento do partido, da passividade dos seus militantes perante o descalabro e da incompetência generalizada da direcção política do partido, pelo que quaisquer iniciativas a que neste momento se aventure são olhadas com desconfiança. A esta junta-se o clima de vindicta que diariamente lhe é movido pelos fedayeen do Estado laranja, amplamente suportados na comunicação de blogues e em comentadores disfarçados e jornalistas isentos, sempre ansiosos por atearem o fogo e verem as chamas para serem os primeiros a chamar os bombeiros. Libertado da eleição presidencial, com Cavaco Silva a fazer caixotes e Marcelo Rebelo de Sousa a preparar-se para dar um novo dinamismo ao eixo Cascais-Lisboa, o PS tem que encontrar as condições ideais de acção política num instável equilíbrio parlamentar, entre os compromissos internacionais, as necessidades de convergência com a Europa e a recuperação do desemprego e do crescimento sem comprometer as metas do défice. Por agora, a mais sólida garantia de que o partido goza é a de saber que qualquer desvio dos compromissos assumidos com o BE e o PCP atirará tudo por terra, gerando o caos e provocando eleições antecipadas. Uma rápida aprovação do orçamento seria o ideal, pelo que qualquer atraso nesse desiderato aumentará os receios de nova deriva. O PS tem a obrigação de restaurar a confiança dos portugueses no Governo, sem prejuízo de à capacidade para ouvir e negociar aliar a firmeza, sem o que dificilmente alcançará quaisquer metas. Em finais de Junho já se perceberá melhor o estado a que chegamos e que caminho haverá a percorrer. Até lá, todas as provas de sentido de Estado, bom senso e contenção verbal serão poucas e recomendam-se vivamente. O tempo não está para fracturas e uma relação de confiança leva tempo a construir.

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