A mão toda na ferida


Sérgio de Almeida Correia,

“Muitas vezes pergunto se a maioria daquilo que hoje passa por ser um radicalismo da esquerda (e que a direita saliva ao ouvir) não é pouco mais do que moderadamente social-democrata ou democrata-cristão.”

 

Vale a pena ler o texto todo. Goste-se ou não se goste dele, diga-se o que se disser, por muitos anticorpos que possa criar e comichões que possa dar, certo é que Pacheco Pereira continua a pensar e a escrever em português como poucos. Concorde-se ou não com o que ali ficou, seria bom que algumas das suas afirmações pudessem ser devidamente discutidas e rebatidas sem preconceitos ideológicos, sem necessidade de insultá-lo, como parece ser mais fácil e cómodo para alguns no anonimato das redes sociais e dos blogues, porque aquilo que ele pergunta me parece de tal forma evidente que só por manifesta e voluntária acefalia se pode continuar a aceitar o modo como alguns discursos têm sido passados para a opinião pública. Do discurso do défice aos dos refugiados, sem esquecer o dos PEC de Sócrates e Teixeira dos Santos, do acordo ortográfico, da diplomacia económica na Venezuela e em Angola, de uma lusofonia imbecil e bestializante ou dos “vistos gold”, para só referir alguns tanto à direita como à esquerda.

Como se houvesse um propósito dissimulado de se criar e moldar uma opinião pública servil e obediente, que não faça ondas e seja bem comportada, um país de cidadãos alinhados, de verdadeiros mentecaptos e pobres de espírito prontos a engolirem qualquer prato de lentilhas e a debitarem tudo o que lhes é oferecido pela propaganda dominante, quantas vezes gerada, trabalhada e promovida através da blogosfera por profissionais da manipulação em relação aos quais a maior parte dos leitores não sabe quem são, quem os alimenta e protege, porque essa informação, esse registo de interesses é sempre escamoteado, escondido, iludido quando as suas opiniões são divulgadas, porque não interessa saber-se quem é o mensageiro e a mensagem não se discute. Simplesmente porque só se pode rejeitar ou aplaudir e aceitar uma divisão maniqueísta da vida. 

Como se houvesse medo que se soubesse coisas tão simples como quem são as pessoas, de onde vêm, o que fazem, que agendas prosseguem, para que fundações ou institutos trabalham, a que seitas ou confrarias pertencem, como têm sobrevivido e se têm colado às instituições, públicas e privadas.

Eu tenho sérias dúvidas, há muito tempo, que o léxico ideológico clássico continue a ter algum sentido nos termos em que hoje é utilizado, que a divisão esquerda/direita ainda sirva para compartimentar e catalogar pessoas e ideias, que sirva para algo mais do que ser uma espécie de bússola, como alguém escreveu, que nos ajude a perceber um pouco melhor o que nos rodeia. Por isso também não compreendo que partidos rotulados de social-democratas e não confessionais possam fazer parte de federações de partidos democratas-cristãos ou que o termo socialista possa encostar um indivíduo a um pensamento ou um modelo de acção política com o qual não se identifica, por ser profundamente não marxista e jamais se ter identificado com os monstros totalitários que medraram ao abrigo desse rótulo, nem com algumas práticas seguidas por partidos que como tal se assumem. Sociedades ideologicamente radicalizadas, catalogadas, definitivamente emparedadas, engaioladas, só servem para criar cidadãos estigmatizados, desequilibrados, complexados, preconceituosos, amestrados e estúpidos.

Se um dia, apesar de todas as nossas contradições e incoerências, ainda que as procuremos combater, formos capazes de ler um texto ignorando quem o escreveu e olhando só ao seu conteúdo, nesse dia talvez estejamos um pouco mais longe da ignorância e não tenhamos medo de caminhar sozinhos por vielas escuras e escorregadias, tentando iluminá-las à nossa passagem com um pequeno isqueiro ou uma lanterna de bolso. Se muitos por lá passarem e se o fizerem ao mesmo tempo, será mais fácil ver as pedras do caminho e as falhas nos passeios, perceber onde é necessário reparar, sem corrermos o risco de cada vez que por lá queremos passar termos de enfiar os pés na lama e na água, escorregar e cair numa espécie de fatalidade consciente e indiscutível. Porque é assim, porque foi assim, porque tem de continuar a ser assim. É isto que não aceito, é com isto que não me conformo. 

 

0 comentários em “A mão toda na ferida”

  1. Caro Sérgio, pode estar, e até nalgumas matérias está, na ferida, mas não está na ferida toda. Há uma omissão total (voluntária?) no artigo das reversões da privatizações, do Banif (garantia de depósitos acima de 100k), das obrigações do BES, das questões da educação, etc. Este artigo não é um mão na ferida, é um dedo na ferida que faz “cherry picking” de algumas questões e esquece outras, para poder continuar esta sanha de radicalização esquerda / direita que P. Pereira diz gostava de evitar, mas na verdade é talvez hoje em dia o maior promotor em Portugal. Há medida boas e más no anterior governo, há medidas boas e más deste governo, e este maniqueísmo político é que não leva a lado nenhum. Cumprimentos

  2. mais uma pachecada ou ‘cum bersa’ da treta
    o pirata Ranckam recomendava ao juiz colocar as suas pomposas palavras num determinado local

  3. Meu caro, em 1990 discutia eu com um amigo sobre a esquerda da direita e as densificações gestionárias de uma e de outra. Concluímos, na altura, que o Governo de Mota Pinto estava à esquerda de Cavaco. Hoje, concluo, que Cavaco estava à esquerda de Guterres, que Guterres estava à esquerda de Sócrates e que Sócrates estava à esquerda de Passos Coelho.
    A marca deste governo, de Costa, é claramente de esquerda em, pelo menos, um ponto (as políticas de incremento de rendimento ou de recuperação de poder de compra são apenas matérias gestionárias do liberalismo burguês – o catálogo de direitos sociais não foi alargado nem comprimido, razão pela qual JPP não tem razão. Se repor rendimentos não é de esquerda, aumentar impostos e retirar rendimento não são de direita. A ortodoxia monetária é conservadora mas não é política do Governo Português, não há moeda nacional apenas moeda com curso legal o que JPP ainda não percebeu.). À esquerda de Mota Pinto e de Soares. Leiam-se as palavras do Ministro da Educação e do PM que revelam concepções filosóficas sobre o indivíduo e o sistema de ensino (não sei se serão deles, ou se alguma coisa sabem sobre a coisa, uma vez que, e no melhor pano cai a nódoa, as palavras, ontem, do PM revelaram uma ignorância avassaladora de contexto e de coerência ideológica quando cede ao mais abjecto utilitarismo que nenhum pensador de esquerda subscreveria – sobre o que de inútil teve que empinar – Um programa utilitário, é o que resulta da coisa. A perspectiva que queria defender, o PM, era a da aversão ao utilitarismo ou instrumentalização do ensino como direito face à comprovação de aprendizagem e produtividade na apreensão de conhecimentos, coisa que, manifestamente, demonstrou não saber fazer. Se se referia à escolha dos saberes que a teoria marxista pode justificar e que o movimento socialista tradicionalmente empregou como auto didacta, foi demasiado inábil para aí se poder escudar) Dizia. A marca é de esquerda, os agentes parecem-me improváveis para sustentar qualquer coerência filosófica e ideológica socialista.
    Aguardemos por novas no direito do trabalho .
    E mais e muito mais haveria para aduzir mas a coisa já vai longa, pelo que me penitencio.

  4. “Se um dia, apesar de todas as nossas contradições e incoerências, ainda que as procuremos combater, formos capazes de ler um texto ignorando quem o escreveu e olhando só ao seu conteúdo, nesse dia talvez estejamos um pouco mais longe da ignorância…”

    Bravo!!!

    Nota: Sem ponta de ironia. É que uma coisa tão óbvia permanece estranha para a maioria da nossa intelectualidade. Por isso achei por bem acrescentar esta nota.

  5. O meu problema é que empanquei logo aqui:

    “Um exemplo, é a crítica ao consumismo oriunda da esquerda que preparou o terreno e encaixou perfeitamente na crítica da direita ao “viver acima das suas posses”, em ambos os casos centrando-se na culpabilização dos consumos típicos da classe média. Mais do que de esquerda e direita, estas posições são socialmente reaccionárias.

    Num país em que a construção de uma classe média é recente e traz consigo uma nova liberdade face à pobreza e à memória recente da pobreza, isso significa pôr em causa muitos aspectos do mecanismo de elevador social e abre caminho, por exemplo, à negação de que a educação possa ser um elemento fundamental dessa ascensão social.”

    Se esta amálgama entre consumismo (foi ele que escolheu a palavra!) e educação no contexto de ascensão social é pensar em português como poucos… Estamos mesmo tramados.

  6. Pacheco Pereira que nos diz que os 20% de impostos em PIB que pagávamos em 1980 é Social Democracia do PPD de Sá Carneiro e os 50% de impostos que pagamos hoje é neo liberalismo do PSD de Passos.

    Sem contar com a ínumeras leis que foram passadas no Parlamento e a transformação de vários organismo do Estado para nível de Autoridade passando assim por cima da defesa dos acusados?

    É o Pacheco Pereira que ao mesmo tempo acusa outros de serem ideológicos falando de ideologia?

    É o Pacheco Pereira que para o autor parece ser o único que pode insultar outros http://www.publico.pt/opiniao/jornal/a-raiva-que-o-manifesto-dos-70-provocou-27997180

    É essa a referência do autor deste texto fundamentalmente falso?

  7. 1. JPP é um demagogo como referido acima noutro comentário é um grande promotor do que critica.
    2. Pelo discurso, ou está sob o efeito de alguma substância, ou não consegue ter um discurso coerente, ou é um muito desonesto. Veja-se:
    “Já viram um jornalista, com a mesma imediaticidade pavloviana do “quem paga?”, perguntar a um banqueiro se ele acha justo que os erros de gestão da banca tenham que ser pagos pelos contribuintes? Não, porque o jornalista já deu na sua cabeça a resposta ideológica, “é preciso salvar o sistema financeiro”.”
    E tem mais, mas nem vale a pena perder tempo com gente deste calibre.

  8. Defendo que a treta esquerda/direita, só serve para enganar tolos, que felizmente estão em redução acelerada, felizmente.
    outra coisa é não se poder ignorar, quem escreve um texto, como consegue provar isso e o seu contrario, desde que vá de encontro aos seus credos. Por isso defendo violentamente que a cada um +e que compete julgar e decidir, sem desculpas de que foi engaqnado ou não, e pior quando se defende a proibição seja do que escrito for. Os nossos tudologos, que acompanharam melhor que nós, simples leitores, as campanhas contra por ex. Clinton. Bush ou Nixon e Obama, por ex. e se enxofram todos por umas escritas sem peias contra socrates e seita , ou Relvas e semelhantes, só merecem desdem.

    1. Ainda há diferenças entre esquerda e direita (pelo menos a nossa):

      .A esquerda destaca-se por dar protecção a franjas anti-sistema (daí o radicalismo – em termos da ciência política), a direita não.
      .A esquerda acredita na economia planificada, no supra poder do Estado, do Estado que se intromete em tudo.
      .A esquerda odeia os mercados ou então, pelo que se tem visto, compreende-os mal.
      .A esquerda acredita que o consumo é a alavanca para o crescimento económico.
      .A esquerda gosta de vender ilusões enquanto culpa o mundo pela incompreensão dos seus problemas.

      Na direita há muitos defeitos, mas nenhum é desse carácter.

  9. Para ser franco, nunca me pareceu que JPP escrevesse bem em Português. Bem pelo contrário. E tal como lhe sucede com as ideias, dedica-se mais à tentativa de ser original (mal sabe ele que também temos internet em casa) do que para ser coerente ou rigoroso.

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