2015, o jazz


enlil,

Como de costume, ver as listas de “os melhores do ano” compostas por outrem é motivo de decepção. Sem dúvida que “outrem” dirá o mesmo desta, pois mil e uma cabeças ditarão mil e uma escolhas diferentes, boa parte delas conflituosas entre si, o que poderá atestar que, afinal, o jazz não está tão morto como isso. Também é certo que um género musical com necessidade constante de fazer prova de vida, não pinta demasiada saúde. Por isso cá vai uma lista minha, muito minha, que aceita com prazer a acusação de convencional, porque jazz é escola e escola é tradição, nem que seja para contraria-la.

 

 Vijay Iyer, “Break Stuff”

Apesar de ter sido capturado pela petulante ECM, que desde há décadas tem vindo a agasalhar o jazz numa frigidez setentrional, Vijay Iyer não se deixou vencer pelo cerebralismo. Houve quem ouvisse esvoaçarem nesta música as fórmulas matemáticas do espectralismo de Steve Lehman, mas “-ismos” aparte, Iyer densifica ritmos com a mão esquerda, ora estranhos ora compulsivos, e, à mão direita, vai desenhando ideias melódicas, algumas encantatórias outras dançantes. Uma surpresa ao virar de cada esquina.

 

Maria Schneider, “The Thompson Fields”

A música de Maria Schneider nunca toca no chão, desliza no ar, empurrada de um lado para o outro pela requintadíssima orquestração. Um francês evocaria a “tessitura”, outros mais simples diriam que a compositora, mas sobretudo a orquestradora, tem o secreto condão de transformar a música em paisagem. É como se estivéssemos lá, nas desmesuradas pradarias do norte, onde o céu se dissolve no horizonte. Em termos domésticos experimentem ouvir o disco no Alentejo – que pancada!

 

José James, “Yesterday I Had the Blues, The Music of Billie Holiday”

A proposta mais insensata que poderia passar pela cabeça de alguém: recriar com voz masculina o canto de Billie Holiday, no ano do seu centenário. Oportunismo e contrafacção – nos ídolos não se toca – seria o mínimo que se lhe poderia invectivar. Pois meta-se a viola no saco. Que o Zé tenha voz de algodão e crocante só lhe dá um certo mérito, pois se até na pobre da pop actual há cordas vocais formadas em conservatórios. O ponto mesmo é a calibragem certíssima entre dramatismo e contenção, capaz de lançar toda uma nova luz no repertório de Lady Day.

 

Rudresh Mahanthappa, “Bird Calls”

Aplicar a sintaxe e o vocabulário da música cárnatica à velocidade balística de Charlie Parker, endossar a coisa com o poder de impacte que tem sido o seu timbre, eis a promessa e o conseguimento (estás a ver Sãozita como de alguma coisa serviu a tua verve estrambólica) de Rudresh Mahantappa. Bem podem deitar as cartas que não se encontrará, nos dias de hoje, melhor e mais pujante saxofonista alto.

 

Ryan Truesdell, “Lines of Colour (The Gil Evans Project: Live at Jazz Standard)”

Reviver um orquestrador é empresa bem mais árdua do que reinterpretar ou recriar composições. Sendo Gil Evans o evocado, que para nossa felicidade nos legou tantos e tão diversos diamantes lapidados, de brilho capaz de ofuscar os imprevidentes – vamos lá ouvir em que se meteu este Truesdall. O disco foi gravado ao vivo: não se excitem com a ideia de risco e ausência de margem para o erro, esta gente sabe o que faz. Ao vivo quer dizer caloroso e corroborado pelo entusiasmo do público, assim saibam os músicos suscitá-lo. Souberam. Soube também Truesdell ser fiel sem subserviência, swingar sem nostalgia, quando foi preciso, reinventar o cool sem Califórnia. Uma hora muito bem passada.

 

Se me pedissem, eu até alinharia mais escolhas, mas assim já têm trabalho de casa quanto baste. Falta ainda o orgulho nacional. Não há “melhor do ano” sem haver o melhor da Clean Feed: “Epicenter” de Cris Lightcap, cintado por uma formação que é a fina-flor de um jazz despreocupado com parentescos.

Um comentário em “2015, o jazz”

  1. Obrigado pelas sugestões. Comprovo que a Maria Schneider vale sempre a pena, alguns outros tenho que ouvir – incluindo o tal homem a cantar Billie Holliday (a propósito, não gostaste de “Coming Forth by Day”, de Cassandra Wilson?).

    Quanto à decepção das listas de “melhores do ano” (de jazz, creio só ter passado os olhos por duas), estou a ver que recusas surfar a onda ‘épica’, que até se conseguiu introduzir nas tabelas de melhores álbuns de pop/rock…

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