
Prometeu ao marido, vítima das balas assassinas de Ferdinand Marcos, que prosseguiria a luta por ele e em nome dele. Uma promessa jamais desmentida: a tímida dona de casa, de óculos muito graduados e sem vocação política, viu-se projectada para a ribalta do país, mobilizando multidões gigantescas de filipinos à conquista da liberdade. Corazón Aquino – é dela que falo – esteve para o Extremo Oriente como Vaclav Havel para a Europa de Leste. Com uma diferença digna de registo: enquanto o carismático dramaturgo checo, aureolado com a passagem pelos calabouços do poder comunista, teve oportunidade de fazer um prolongado tirocínio político, Cory ascendeu por um súbito golpe do acaso ao primeiro plano da História numa das mais fantásticas décadas do século XX – aquela que viu desaparecer o maior número de tiranias.
Em duas visitas às Filipinas, já ela era presidente, testemunhei a enorme popularidade de que gozava esta mulher que vestia sempre de amarelo e ostentava um sorriso perpétuo no rosto muito marcado pela ascendência étnica chinesa. Multidões em delírio ovacionavam-na no imenso Parque José Rizal, no coração de Manila. Sempre a seu lado, distinguia-se Jaime Sin, chefe da Igreja Católica e figura fundamental da transição democrática no país mais católico do Oriente. Sem o firme apoio do cardeal, Corazón nunca teria resistido às sucessivas investidas golpistas dos nostálgicos da ditadura que lhe foram abalando o mandato, entre 1986 e 1992.
Ao vê-la em cima do palco, falando com desenvoltura às massas que vibravam mal a viam desenhar com os dedos da mão a letra L, como símbolo de liberdade, poucos acreditariam tratar-se de alguém que nunca foi profissional da política antes de ascender à Presidência. Era também difícil adivinhar estarmos perante uma pessoa que sofria de incurável timidez.
Cory Aquino tinha uma força interior que ultrapassava todos os obstáculos – uma força interior inspirada na promessa feita a Benigno Aquino, o carismático líder da oposição a Marcos, pouco antes de o avião que os transportava dos Estados Unidos ter aterrado no aeroporto de Manila – hoje aeroporto Benigno Aquino – nesse fatídico dia 21 de Agosto de 1983. A canção da vida de Benigno era ‘Impossible Dream’, do musical O Homem de La Mancha. “This is my quest / To follow that star / No matter how hopeless / No matter how far”, diz a letra de Joe Darion, feita lema de vida do casal. Ou, na fabulosa versão em língua portuguesa da mesma canção que Bethânia imortalizou: “Quantas guerras terei de vencer por um pouco de paz?”
Belíssimo e justíssimo texto, compadre. Realmente, ainda há heróis.
Cada vez penso mais isso, compadre. Durante anos andaram a tentar impingir-nos que não havia heróis – era tudo soldado raso. Mas há. Uns conhecidos, outros anónimos. Nunca é de mais falar de qualquer deles.
Tens toda a razão. E é justo pensarmos nisso.
“outros anónimos” .. sem dúvida.
Posso acrescentar “comovente” à caracterização deste fantástico texto Pedro?
🙂
Com certeza, caríssima. A sua visita a esta casa é sempre um motivo acrescido de inspiração.
.. always gentle Sire :))
Sweet & fair.
Que bom.
:))))))
Muito bem, Pedro Correia. Também me lembrei de Corazon Aquino, já uns dois dias depois da sua morte. Só espanta a relativa discrição com que a anunciaram, e a pouca importância a que a blogoesfera votou a morte desta mulher extraordinária.