Velório


tralhasdavida,

Vestida de anjo. Fato de baptizado onde não faltava uma primorosa touca alva a contrastar com a tez mulata. Deitada. Imóvel porque morrera na véspera. Uma boneca de porcelana que hesitávamos tocar pelo medo de admitir que de uma criança se tratava.

Pai e mãe angolanos, retornados, imigrados, sei lá. Conformados na inconformidade de ter tido uma filha que primeiro foi deficiente e que depois ficou doente. Felizes por ela ter existido, inconsoláveis por ter partido.

Perguntaram-me, da Associação de Trissomia 21, se podia dar um salto ao velório. Que os pais, que sabiam qual seria o desfecho da leucemia da filha, só precisavam de a sentir honrada.

Não sabia que podia fazer com que alguém que não conhecia se sentisse honrado mas, na dúvida, corri à margem sul para dar um abraço a esta família.

Apresentei-me e, mesmo sem me conhecerem, ficaram desconcertantemente gratos pela presença.

Saí eu a sentir-me honrada, depois de testemunhar aquilo que já sabia: que o desgosto da morte de um filho é o desgosto da morte de um filho. A ninguém importa se era considerado deficiente.

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