Os custos do populismo de esquerda


Luís Naves,

As torneiras do dinheiro público serão abertas e, nos primeiros meses, haverá dinheiro para tudo. O populismo de esquerda tem custos elevados. Os sindicatos defendem os privilégios de alguns trabalhadores e tentarão destruir as reformas impostas pelo FMI. A imprensa estende a passadeira vermelha ao governo minoritário do PS e já começaram as pequenas mentiras, tipo “afinal, os cofres estavam vazios” e “há estagnação económica”. Na realidade, o novo governo recebeu um país com crescimento (modesto), contas externas positivas, criação de emprego e facilidade na obtenção de crédito nos mercados. O governo beneficiará também de bons ventos ocasionais, como petróleo barato e intervenções do BCE, mas não devia ter sido esquecida tão depressa a herança que a direita recebeu em 2011: programa de ajustamento mal negociado, economia em colapso, falência iminente do Estado, perda de soberania, sistema financeiro à beira da ruína, desemprego galopante e dívida insustentável.

Nos primeiros meses do novo ciclo político não existe qualquer ameaça interna, pois os partidos que apoiam o governo não cairão na tentação de o derrubar: quem o fizer abre as portas à direita e será punido. A maior ameaça vem do exterior, pois os credores europeus dificilmente permitirão o descontrolo das contas públicas. Quando chegar a factura, talvez já em meados de 2016, as novas medidas de austeridade implicarão o rompimento dos acordos de esquerda ou o não cumprimento dos compromissos externos, hipóteses que os mercados financeiros não perdoam. O PS tentará eleições antes deste desfecho, enquanto ainda forem visíveis os efeitos da sua generosidade. E haverá entretanto outras incógnitas, da atitude do futuro presidente ao grau de paciência da extrema-esquerda. E à direita, que acontecerá? Vão surgir novos partidos ao centro? Podemos esperar mudanças nas cúpulas partidárias?

É fácil culpar a Europa e o euro pelos nossos problemas, mas esta crise política promete ser longa. As dificuldades ainda não acabaram e mantém-se a fragilidade económica, nomeadamente o endividamento e a falta de poupança. As reformas de que o país continua a necessitar estão congeladas ou abandonadas de vez. Há demasiadas pessoas no desemprego, mas esta esquerda começou pelas causas fracturantes e pelos exames da quarta classe.

4 comentários em “Os custos do populismo de esquerda”

  1. As heranças são sempre grandes para os que saem e pequenas para os que entram.

    Queixar-se de ter um programa de ajustamento mal negociado depois de se ter gabado que se negociou os pontos principais, como o anterior governo fez é incoerente.
    O sistema bancário em fanicos não será culpa direta de nenhum governo, mas dizer que o legado deste governo com o Banif e o Novo Banco (o tal que não ia trazer prejuízos aos contribuintes) é melhor que o do anterior é um pouco forçado.

    Quanto aos credores exteriores, esperemos que a nossa direita revanchista não resolva prejudicar o país no exterior para ter ganhos internos.

  2. Eu quero acreditar que o novo governo faça um pouco de Zé do Telhado – vá buscar aos ricos para dar aos pobres.
    Os ricos são os bancos, as ppps, os corruptos, as reformas milionárias, o desperdício…
    Os pobres são os espoliados do costume…
    Se assim for, talvez não seja preciso desequilibrar as contas.
    Se assim não for, então ter-se-á gorado mais um sinal de esperança.
    E será muita pena!

  3. O Luís continua a ignorar as evidências à sua frente, preferindo enveredar por uma historieta («A imprensa estende a passadeira vermelha ao governo minoritário do PS e já começaram as pequenas mentiras, tipo “afinal, os cofres estavam vazios” e “há estagnação económica”»). O Governo anterior usou e abusou da mentira para iludir os portugueses e os mais incautos, por ignorância ou militância, continuam a espalhar aos quatro ventos as supostas “boas novas” desses tempos.

    Na realidade, a situação externa é tão grave que o BCE ainda carregou mais no acelerador (sendo que o pedal estava já praticamente no fundo): baixa da taxa de facilidade permanente de depósito para -0,30% (isto é, os bancos que recorram aos cofres do BCE para lá parquearem algum dinheiro ficam sem 0,30% do que lá colocarem) e prolongamento do plano de compra de activos, que agora também incorporam activos com risco (acções).
    Cf. http://www.jornaldenegocios.pt/economia/politica_monetaria/detalhe/perceba_as_medidas_anunciadas_pelo_bce.html

    Quanto ao resto, é a conversa do costume: os contratos sociais, porque não estão assinados num papel, são coisa ‘inútil’ ou ‘perigosa’ e vão destruir as “reformas do FMI”, as tais que o seu principal proponente, Vítor Gaspar, garantiu que foram em vão na sua hora da despedida!

    Não tenho confiança na solidez do actual Governo. Existem de facto muitos pontos de conflito entre as diversas ideologias. Porém, existe a possibilidade de fazerem melhor que o anterior Governo – o que, convenhamos, não é muito difícil…

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