Insegurança


Luís Naves,

Perante a vulnerabilidade externa e a fragilidade social nos subúrbios das suas capitais, a Europa terá de abandonar o caminho sonâmbulo rumo ao apagamento. A crise das dívidas soberanas foi grave por haver países que não cumpriram as regras de uma zona monetária que tinha escasso conteúdo político. Em resposta, os europeus decidiram reforçar as instituições de controlo da zona euro.

A insegurança europeia tem motivos semelhantes e deverá ter uma solução parecida: os atentados de Paris revelaram uma zona de livre circulação de pessoas onde se movem livremente jihadistas dispostos a fazer-se explodir no meio de centenas de inocentes. Tudo indica que os terroristas de Paris combateram na Síria e regressaram impunemente à Europa, aproveitando o caos que se instalou nas fronteiras externas da zona Schengen. Pressionados pela opinião pública, sobretudo em Agosto e Setembro, os governos europeus foram incapazes de controlar o fluxo migratório, falhando na identificação de milhares de migrantes e permitindo a entrada de combatentes que se misturaram com a multidão. Poucos na altura compreenderam que a crise humanitária era também uma crise de segurança.

Nas últimas décadas, a Europa foi incapaz de conciliar segurança interna com liberdade religiosa. Nos bairros degradados, centenas de imãs fundamentalistas difundem versões do Islão que, na prática, constituem um apelo à destruição dos valores e tradições do Ocidente. Os radicais não têm hipótese de impor a sua versão, mas sustentam a guerra santa em redes clandestinas que tornaram a vida dos europeus num inferno. A loucura do fanatismo religioso exigirá maior cooperação europeia nas áreas de informações, polícia e defesa. E se quiser manter a sua forma de vida, a Europa precisará de criar estruturas de segurança colectiva com maior capacidade para combater estes radicais, onde quer que eles estejam.

0 comentários em “Insegurança”

  1. uma zona de livre circulação de pessoas onde se movem livremente jihadistas

    Moveram-se entre a França e a Bélgica apenas, ao que parece.

    Tudo indica que os terroristas de Paris combateram na Síria e regressaram impunemente à Europa, aproveitando o caos

    Não. Eles regressaram à Europa porque eram europeus. Eram franceses e tinham o direito de entrar no seu país.

    1. Infelizmente, está enganado. É óbvio que se moveram livremente entre a França e a Bélgica, é o espaço de livre circulação, mas como é que chegaram à Bélgica? No meio da confusão das fronteiras externas, no meio da maralha, provavelmente com passaportes falsos ou fazendo-se passar por refugiados sírios. A CNN dizia há dois dias que dos 6 mil combatentes estrangeiros na Síria, 1500 já regressaram à Europa, muitos deles aproveitando a confusão nas fronteiras externas do espaço Schengen. A questão que ainda não percebeu é a seguinte: quando as pessoas chegam à fronteira externa, por exemplo na Grécia, sejam migrantes ou jihadistas, não têm automaticamente o direito de entrar, sobretudo se forem procurados pelas autoridades. É preciso tempo para identificar a pessoa e avaliar as suas intenções. Em Setembro e Outubro, houve pressão para não se cumprirem as regras de Schengen e entraram milhares sem controlo. Claro que a narrativa conveniente é a de que estes senhores são uma espécie de turistas, mostrando na fronteira, com toda a tranquilidade, os seus passaportes franceses. Isto é pura fantasia. Se o fizessem eram imediatamente capturados.

      1. Se o fizessem eram imediatamente capturados.

        Não. O Espaço Schengen não dispõe, que eu saiba (corrija-me se eu estiver errado), de uma lista de todos os cidadãos europeus que estiveram a combater na Síria. Nem essa lista existe, nem existe ordem para capturar essas pessoas e/ou para não as deixar entrar no Espaço Schengen. Pela simples razão de que ter estado na Síria a combater não é um crime reconhecido a nível europeu.

        Portanto, se um cidadão francês que esteve a combater na Síria tomar à volta um vôo e entrar no Espaço Schengen por, digamos, Viena ou Barcelona, essa pessoa não é capturada. Pode entrar no Espaço Schegen livremente, utilizando o seu passaporte francês, e a partir daí viajar para a França ou Bélgica.

        E foi provavelmente isso que os terroristas de Paris fizeram.

        Já agora: o Luís Naves dispõe de alguma notícia fidedigna que afirme que os terroristas de Paris tenham estado na Síria? Eu nunca vi tal notícia.

        1. Felizmente, isto não funciona assim. As polícias europeias têm pouca coordenação entre si, mas reconhecem o perigo dos radicais que foram para a Síria super-radicalizar-se. Há uma narrativa tonta segundo a qual reconhecer este perigo é defender a xenofobia. O que tentei explicar nos meus posts é aquilo que todos os especialistas e políticos franceses começaram a dizer nos meios de comunicação internacionais: é preciso proteger as fronteiras externas da UE e melhorar a coordenação policial. Trata-se de uma banalidade. Durante alguns meses entraram na Europa militantes misturados com os refugiados sírios. Outra banalidade. O Luís Lavoura, além de não estar a ver as televisões estrangeiras, atribui-me uma intenção política que não consigo vislumbrar. Se defender a segurança dos cidadãos europeus é ter uma intenção política, então sim, dou razão o comentador, eu defendo a protecção dos cidadãos e a preservação do nosso modo de vida. Se a insinuação visa acusar-me de ser contra a ajuda aos refugiados sírios, então o comentador está errado, nunca defendi tal coisa e nunca defenderei tal coisa. Quanto ao conhecimento dos bairros duros da Europa, o comentador passeou num deles, eu vivi durante um ano num deles.

  2. “Os radicais não têm hipótese de impor a sua versão.”

    Porque não?
    Se só um lado está disposto a combater ganha. Não se está só a combater contra o Estado Islâmico.

    Os EUA estão nas mãos de Marxistas.
    Para Obama o inimigo são os Republicanos. Ainda ontem John Kerry Secretário de Estado e amigo dos Vietcong disse que os atacantes dos Charlie Hebdo “pelo menos tinham um motivo…”.
    A França anda de mãozinha estendida.

  3. Se a luta contra este terrorismo se limitar ao confronto puro e duro, temo bem que o combate ao islamismo radical se transforme num generalizado e permanente estado de sítio, dentro do mundo ocidental e ocidentalizado.
    Tem de haver outras vias.

  4. tornaram a vida dos europeus num inferno

    Isto parece-me muitíssimo exagerado. A vida dos europeus ainda é paradisíaca quando comparada com as vidas da maior parte das pessoas do mundo. Com ou sem precauções de segurança, os europeus continuam a utilizar restaurantes, aviões e salas de concerto em nível incomparavelmente maior do que a maior parte dos outros povos.

      1. Já estive alguns dias num bairro dito duro de Amesterdão. Era perfeitamente pacífico. Ninguém fez menção de me fazer mal.
        E, de qualquer forma, esses bairros são perfeitamente delimitados e ninguém de fora tem qualquer interesse em lá entrar. É verdade que há em França alguns bairros nos quais é melhor um forasteiro não entrar, mas também é verdade que não há qualquer razão para que qualquer forasteiro precise de ou deseje entrar nesses bairros.
        E saiba o Luís Naves que, mesmo esses bairros são muitíssimo mais seguros do que bairros que eistem em qualquer grande cidade dos EUA. Mesmo com esses bairros, as cidades europeias ainda são paradisíacas quando comparadas com as do resto do mundo.

      2. Sim porque a vida em Bagdad e em Cabul, por ex. é paradisíaca graças aos esforços dos países ocidentais.

        Claro que qualquer atentado é um atentado a mais, e têm de se evitar, mas parece estar a perder o senso das proporções. A Civilização Ocidental não vai cair por causa disto.

    1. A seguir essa lógica, então, somos felicíssimos em Portugal, por cá nunca houve verdadeira austeridade, a miséria é um mito, somos privilegiadíssimos – todos! – e os portugueses não têm a menor razão de queixa. É caso para dizer de facto que, venha o que vier, “ai aguentam, aguentam!”. E não fazem mais do que a sua obrigação.

      Porque, por muito que tenhamos sofrido, há no mundo gente que nunca chorará, por exemplo, a perda de um banal apartamento ou de automóvel utilitário – bens que o tempo por cá vulgarizou – pois nunca sequer os tiveram ou esperam sensatamente vir a ter. E que têm – e terão – bem maiores problemas na vida do que o corte da electricidade, a penhora do salário ou uma simples e difusa perda de qualidade de vida. Ou uma pobreza que, apesar de tudo, se vai conseguindo disfarçar.

      A ir por aí, como posso eu, como pode qualquer de nós, revoltar-me por exemplo contra o vidro partido e a vandalização do meu carro – e a manifesta incapacidade do estado em combater a pequena criminalidade, largamente impune – se há quem se arrisca em cada noite, em cada dia, ao longo de uma vida, a ver, uma e outra vez, a sua cidade, a sua aldeia, a sua rua, a sua casa, a sua vida, tomada de assalto e devastada por bandos armados em terras sem lei ou com leis absolutamente iníquas?

      Sejamos sensatos, Lavoura. Convém, por um módico de honestidade intelectual, contextualizar as coisas. Os meus (e os seus, diga você o que disser) limites de suportável e insuportável não são, não podem ser, não é legítimo que pretendam impor-me (impor-lhe) que sejam, os mesmos de quem luta pela mais básica existência. Pela prosaica razão de que passámos essa fase. De que vivemos alegadamente no Primeiro Mundo, num país dito civilizado. E pagamos – pagamos bem caro – para que uma máquina estatal nos permita ter patamares mínimos bem mais elevados.

      Porque nos comportamos como cidadãos obedientes à lei. A uma lei acima da “lei” da guerra civil ou da destruição do Estado, que tenha chegado a existir, às mãos de fanatismos. E dela, da nossa lei na nossa terra, procuramos e exigimos, com absoluta legitimidade, garantias de protecção. Que não são favor. São direito.

      Não perceber isto é não perceber o que seja.

      Costa

  5. Os credos têm sido encarados com demasiada brandura pelo poder secularcom algumas consequências graves (pedofilia/corrupção/ensino/politica) e dito por um ministro paquistanês no exílio , as madrassas são um canteiro de extremistas, pela própria natureza de impingir conceitos a mentes demasiado frágeis(3 anos) que também já mais abandonada se verificava na católica quando eu 60 anos atars tinha que ser industriado pelas catequistas de serviço.
    A pratica de escolher a religião devia ser apenas quando o jovem tem entendimento e poder de escolher.

  6. Se a Europa resolver o problema da segurança como resolveu o problema da crise económica, estamos todos feitos.

    A economia da Europa foi salva pela austeridade e o ISIS vai conquistar o mundo. Nem o mais demagogo dos propagandistas do DAESH pensaria que se poderia passar essa mensagem como verdadeira.

    Cuidado com as generalidades. Claro que num estado policial é mais fácil evitar atentados, mas existem outras contraindicações para esses remédios.

  7. Tudo indica que os terroristas de Paris regressaram à Europa aproveitando o caos que se instalou nas fronteiras externas da zona Schengen.

    Isso não passa de uma especulação a que o primeiro-ministro francês deu voz e à qual o Luís Naves resolve dar crédito porque politicamente lhe interessa. Não há, tanto quanto entendo, quaisquer dados objetivos nesse sentido.

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