Perturbação


Luís Naves,

É nos momentos de perturbação e choque frontal com a realidade que vemos com maior nitidez a desagregação das sociedades contemporâneas. A degradação da política, por exemplo, e o declínio das ideologias, dois fenómenos paralelos que explicam o triunfo do cinismo e a ascensão das propostas populistas. Estabeleceu-se nos últimos vinte anos o curioso mito de haver uma ligação inevitável entre liberdade económica e prosperidade, mas a realidade é mais amarga: a globalização criou Estados falhados e, no mundo industrializado, trouxe sobretudo a ansiedade dos trabalhadores, que temem pela extinção dos seus postos de trabalho. Como explicar a riqueza pornográfica da elite dos gestores, cuja preponderância contraria os próprios princípios do capitalismo? E como explicar o trabalho não remunerado, literalmente absurdo, disfarçado de aprendizagem?

O capitalismo vive uma das suas piores crises, com o empobrecimento de parte da classe média, a morte das indústrias, a alta instabilidade dos mercados e o desemprego crónico elevado. Mas o mundo contemporâneo revela também uma profunda crise do Estado. Muitas profissões lutam hoje pela sobrevivência e estarão amanhã extintas. As democracias afogam-se em impotência e retórica. Pode vir por aí nova vaga de colapsos, desta vez nas economias emergentes, e serão mais uma vez os pobres a pagar as dívidas.

O mandarinato atraiçoa o povo. É incompreensível a eleição sistemática de políticos cada vez mais fracos. As elites mediáticas habitam o mundo da lua, com a sua linguagem de fachada ridicularizando os valores tradicionais e negando o passado. A nossa identidade está a ser perseguida e estilhaçada. Os intelectuais desapareceram ou foram silenciados. A cultura transformou-se na busca do insignificante e a arte tornou-se uma xaropada sentimental que cultiva a bela frase vazia e a lágrima ao canto do olho.

0 comentários em “Perturbação”

  1. Hoje o Luís Naves acordou para a realidade.

    «Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso à roda da fortuna, nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia não tenho de enredar-me na trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente. Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no Mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção. Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre. Jamais empreguei o insulto ou a agressão de modo que homens dignos se considerassem impossibilitados de colaborar. No exame dos tristes períodos que nos antecederam esforcei-me sempre por demonstrar como de pouco valiam as qualidades dos homens contra a força implacável dos erros que se viam obrigados a servir. E não é minha culpa se, passados vinte anos de uma experiência luminosa, eles próprios continuam a apresentar-se como inteiramente responsáveis do anterior descalabro, visto teimarem em proclamar a bondade dos princípios e a sua correcta aplicação à Nação Portuguesa. Fui humano».

  2. a globalização, no mundo industrializado, trouxe sobretudo a ansiedade dos trabalhadores

    Pois, mas no mundo não industrializado trouxe aos trabalhadores oportunidades de trabalho e de riqueza nunca antes imaginadas.

    ridicularizando os valores tradicionais e negando o passado

    Os valores tradicionais e o passado, de facto, já para pouco servem. Estamos num mundo novo, no qual esse passado se torna quase incompreensível (as crianças, em particular, têm enorme dificuldade em aprendê-lo e compreendê-lo) e as tradições não necesstam de ser ridicularizadas, porque são de facto ridículas.

    A nossa identidade

    Não sei a que se refere o Luís. O budismo ensina-nos que nem uma pessoa só tem identidade. Um conjunto de pessoas muito menos a tem.

  3. A globalização vai tornar demasiado vulneráveis, sociedades isoladas; sinto como bom que Portugal esteja agregado a sociedades bem organizadas e que têm mostrado ao longo de todas as crises(com a minha idade já ouvi gritos de crise profunda umas 15 vezes) , sairem melhor que os outros.
    Presumo que para se mudar vamos necessitar de mudar nas regras de subsistência/emprego; não vai haver empregos para todos, nunca mais,ponto.

  4. – Os Estados falhados não têm nada que ver com a globalização mas com o falhanço do Socialismo Árabe.
    Síria, Iraque, Líbia, Egipto, tudo sociedades que seguiram a cartilha do Socialismo Árabe agora em ruínas.
    Com a agravante que o que toma o lugar é o Islamismo.
    Ou seja precisamente falta de globalização.

    O autor quer esconder o falhanço estrondoso de mais um Socialismo.

    No resto do mundo.
    – As pessoas estão mais ricas.
    – As pessoas têm muito maior esperança de vida.

    Nada disso tem que ver com a politica mas ao invés é apesar da política. Da política distributiva que o autor defende e que surpresa surpresa não dá os resultados totalitários que anseia.

  5. Num aspecto o autor tem razão: porque como já é factual este parlamento tem mesmo deputados mais fracos. Sugestão: novas eleições já, para o autor poder (re)orientar o seu voto para deputados melhores.

  6. Apenas para secundar aqui o desabafo do caro Luis Naves. Uma vez mais.
    As contradições insanáveis e indisfarçáveis da contemporaneidade!!

  7. Caro Luis Naves, permita-me esta curiosidade à laia de abelha!
    Há já longos anos que leio do caríssimo Castelo Branco (combustões) a denúncia do processo de desconstrução e destituição, valorada e legitimadora, do Estado Nação. À cabeça apontava a mundividência trotamundos das elites pungentes!! Na altura entendia tal juízo, do caríssimo Castelo Branco, um tanto ou quanto exagerado!! Hoje creio-o evidente. Há muito que o Rubicão ficou para trás!!
    Isto veio-me a propósito disto “As elites mediáticas habitam o mundo da lua, com a sua linguagem de fachada ridicularizando os valores tradicionais e negando o passado. A nossa identidade está a ser perseguida e estilhaçada.”

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