Os passos de Passos não foram perdidos


escafandro,

1. Governo

Em Janeiro de 2013, estavam os sinais de retoma económica ainda escondidos pelas peculiaridades da quarta dimensão (o extra-Euclidiano «tempo» e a sua patusca componente «futuro), escrevi que, não obstante muitos defeitos – tinha imensos, já na altura –, achava este governo um dos melhores, se não o melhor, da Terceira República. Muitas coisas ocorreram desde então: os chumbos mais mediáticos do Tribunal Constitucional, as revisões para cima dos objectivos do défice, a crise da «irreversibilidade» de Paulo Portas, o início da descida da taxa de desemprego, o desvanecimento da tão-certa-quanto-maligna «espiral recessiva», o aumento sustentado das exportações, o saldo das contas externas positivo pela primeira vez em décadas, o fim do programa de assistência financeira sem necessidade de segundo resgate ou de programa cautelar, o escândalo dos Vistos Gold, a reforma do mapa judiciário, a confusão na abertura do ano lectivo de 2014, o colapso do Grupo Espírito Santo, o processo de privatização da TAP. Embora acomodando mais algumas discordâncias e desilusões, a minha opinião manteve-se. E gostaria hoje, a dois dias das eleições, de regressar a dois destes temas, que me parecem definir um traço fundamental no governo e, muito particularmente, em Pedro Passos Coelho: a crise provocada pela demissão de Paulo Portas e a falência do Grupo Espírito Santo.

 

2. Desilusão 

Como os políticos gostam de dizer, permitam-me começar por um enquadramento. Na sexta-feira imediatamente anterior às eleições de 2011, escrevi:

9. Gostei da clareza do programa do PSD, apesar de existirem pontos em que não me revejo e outros em que receio se vá demasiado longe no futuro. […] Desconfio de muitas pessoas que rodeiam Passos Coelho e detesto os aparelhistas e os caciques do partido. Não gosto da falta de clareza que o CDS manteve durante a campanha em relação a vários assuntos delicados, incluindo possíveis cenários de coligação. Considero que nos últimos anos fez uma oposição mais coerente do que do que a do PSD e prefiro, apesar de tudo, a equipa que rodeia Portas, por inexperiente que seja – ou talvez por causa disso.

10. Os próximos anos vão ser muito, muito difíceis.

11. Até domingo decidirei em que partido voto.

Votei CDS. Arrependi-me, acima de tudo por causa das tentativas que Paulo Portas foi fazendo para se dissociar – e dissociar o CDS – das medidas mais impopulares que o governo aplicava. Mesmo gostando pouco de organizações pejadas de gente com mais interesses do que convicções (como são todos os grandes partidos), se PSD e CDS concorressem separados às eleições do próximo domingo, o CDS perderia o meu voto e PSD ganhá-lo-ia.

 

3. Surpresa

Portas pode ter frustrado as minhas expectativas (reconheço-lhe, não obstante, uma capacidade de trabalho notável, que ajudou aos bons resultados das exportações) mas Passos ultrapassou-as – largamente. Contra uma esquerda radical ululante, contra um PS populista que sempre recusou assumir responsabilidades na situação a que o país chegara e colaborar nas medidas para o tirar dela, contra os «barões» do PSD, muitos dos quais afirmando o contrário do que antes haviam defendido, contra uma miríade de comentadores e «especialistas», contra sectores do Estado gordos, ineficientes e pouco habituados a constrangimentos, contra grupos económicos muito habituados aos negócios provenientes do Estado, contra quase toda a comunicação social, de maneira serena e sem autoritarismos (nunca ninguém teve razões para lhe chamar «animal feroz»), Passos aguentou o barco durante quatro anos e meio. Cometeu erros mas soube ultrapassá-los, aguentando firme ou recuando quando se tornou evidente que a alternativa seria pior – para ele, claro, mas também para o país.

 

4. «Não» a Portas

Quiçá por, em 2011, ter derrotado um Sócrates tão combativo, manipulador e histriónico como sempre mas bastante debilitado pelo falhanço clamoroso do rumo que insistira em seguir, muita gente continuou a subestimar as capacidades políticas de Passos Coelho até aos dias que se seguiram à demissão de Paulo Portas, no Verão de 2013. Nesses dias, ele mostrou que – não obstante o virulento cepticismo dos «pais» da República – era afinal um político de primeira. Nesses dias, fez algo que – admito – não julguei possível: manter o governo em funções, forçar Portas a reconsiderar, usando para isso o próprio CDS, e, na sequência dos esforços de Cavaco Silva para arranjar uma solução que envolvesse os socialistas, manter inteligentemente disponibilidade para negociar, ciente de que António José Seguro estava manietado por radicais que não aceitariam – como ainda não aceitam – compromissos. (Os quais – oh, ironias – lhes teriam dado em 2014 o que talvez não venham a conseguir em 2015.) Mais: partiu desse momento crítico para deixar de lado animosidades pessoais e criar uma melhor relação com Portas, bem visível durante a presente campanha. (Passos aproveitou a fraqueza de Portas, que ficara sem margem para novos erros, mas obviamente – até porque estas coisas são mais instintivas do que racionais – este terá parte do mérito na evolução que se constata.)

No Verão de 2013, nasceu outro Passos: o político que ninguém pode subestimar. Algo que os resultados das sondagens vêm confirmando, para surpresa e irritação de quase todos os socialistas, dos «barões» do PSD e de muito comentadores.

 

5. «Não» a Salgado

Se a crise provocada pela demissão de Portas revelou o político, o colapso do GES confirmou que Passos tem uma visão para a Economia. Ao longo destes quatro anos, teve de implementar muitas medidas que certamente lhe desagradam, começando pelos vários aumentos de impostos. Mas nunca tergiversou num ponto: a Economia desenvolve-se à base da iniciativa privada; esta deve funcionar em concorrência e assumir os riscos decorrentes da má gestão.

É ponto assente que o Banco de Portugal foi demasiado suave para com Ricardo Salgado durante demasiado tempo. O governo não. No período democrático (i.e., Terceira República excluindo PREC), nenhum antecessor de Passos teria recusado salvar Ricardo Salgado. Como – estou absolutamente convencido disto – não o teria recusado António Costa, se fosse primeiro-ministro. Há dias, no programa Conversas Cruzadas, da Rádio Renascença, Daniel Bessa (ex-ministro socialista) e Álvaro Santos Almeida (professor de Economia na Universidade do Porto) foram tão claros sobre o assunto que apenas me resta citá-los:

Daniel Bessa (1): Não tenho nenhuma dúvida de que o acto fundador – para o melhor e para o pior com todas as consequências que aí estão – partiu de Passos Coelho e Maria Luís que disseram ‘não’ ao Dr. Ricardo Salgado.

Daniel Bessa (2): Um ‘não’ proferido quando o Dr. Ricardo Salgado lá foi e não foi sozinho. Até conheço quem o acompanhou nessa diligência, mas não vou dizer. Até não foram só dois, mas saíram de lá com uma ‘nega’ redonda. O regime caiu aí.

Álvaro Santos Almeida: Se não fosse por mais nada este governo teria valido a pena só por esta decisão.

É cedo para aferir os custos decorrentes do colapso do Grupo Espírito Santo e, ainda que se perceba a intenção subjacente (não permitir impactos no défice), terá sido um erro tentar vender o Novo Banco à pressa. Seja como for, até prova em contrário, a resolução foi a escolha com menos inconvenientes. Mas nem é tanto isso que aqui me interessa. Interessa-me a posição de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque diante do dono disto tudo, absolutamente extraordinária num país onde o cruzamento de interesses entre o Estado e os principais grupos económicos tem imperado, com custos enormes para o bem-estar geral.

 

6. Do passado ao futuro

Critiquei-o várias vezes. Em Março de 2010, num texto intitulado Os passos de Passos não serão perdidos (no qual – de vez em quando sou ainda melhor do que julgo ser – previ que se realizariam eleições em Junho de 2011), cheguei a admitir preferir Paulo Rangel para líder do PSD. Desconfio que, numa perspectiva de imagem para o futuro, seria melhor para Passos perder tangencialmente no próximo domingo. Dentro de vinte ou trinta anos, o seu nome estaria associado ao salvamento (provavelmente temporário) do país; à criação de uma (provavelmente desperdiçada) oportunidade. Vencendo sem maioria absoluta, enfrentará (mais) um período turbulento, o qual, dependendo da versão do Partido Socialista que sair das eleições, pode acabar mal. Mesmo com uma improvável maioria absoluta, está por demonstrar que é possível fazer crescer este país de forma saudável sem a presença de uma forte tutela externa, tão numerosos e poderosos são os interesses instalados (veja-se como o governo, que até se comportou razoavelmente para ano eleitoral, acaba de ceder aos enfermeiros). E ainda há os riscos externos: tirando Centeno e Galamba, alguém acredita que a Economia mundial escapará a um novo solavanco – passe o eufemismo – durante os próximos quatro anos? Seja como for, levando em conta as alternativas, ainda bem que Passos Coelho está na corrida. Se em grande medida o meu voto no próximo domingo configura a recusa de males maiores (a democracia é o jogo do possível; as utopias acabam mal), em parte serve também como reconhecimento do trabalho desenvolvido e (por vezes convém suspender o cinismo e, ainda que sem entusiasmos excessivos, apostar em alguma coisa) sinal de esperança no trabalho a desenvolver pelo homem mais contestado de Portugal.

0 comentários em “Os passos de Passos não foram perdidos”

  1. Por acaso eu já tinha visto essa característica messiânica que se atribui a um incompetente como Passos plasmada em Sócrates.
    Aliás, meu caro JAA, se tiver a coragem de trazer os números para aqui verificará que em tudo Passos faz o que Sócrates fez e vai mais longe sem deixar obra. E vive das obras por Sócrates feitas que tanto crítica. Traga os números, os seus e os que aqui lhe deixei.

    O “não” a Salgado foi um sim à intervenção do estado que carrega sobre os ombros dos cidadãos outro BPN. A inclusão do valor no défice já o comprova e os andamentos futuros também. Passos não tinha nem competência nem autonomia para dizer nem sim, nem não e nem nim. Quem decidiu foi o BCE e a política de Bruxelas. Alguém quer usar a queda do BES e associá-la a Passos por alguma incomodidade gerada por Salgado.

    Paulo Portas é esperto. E luta para se poder redimir. É o desespero que o move associado a que faltar-lhe-á sempre concentração para fazer outra coisa que não tentar manter-se numa ribalta que ele mesmo construiu e que mais ninguém vê o que ele vê, e quer fazer com que outros vejam.

    Por último, as sondagens não plasmam absolutamente nada, a não ser que existem seguidores desesperados que querem ver números que lá não estão. Mas num país de seguidores é natural que se tentem erguer bandeiras esfarrapadas que nada sinalizam.

    1. Ler no meu texto crença em messias ou atribuição dessa característica a Passos Coelho revela um enviesamento tão forte que discutir o que quer que seja seria perda de tempo. Fiquemos com as nossas respectivas opiniões – e com a interpretação que fazemos da do outro.

      1. “Se a crise provocada pela demissão de Portas revelou o político, o colapso do GES confirmou que Passos tem uma visão para a Economia”.

        O JAA perde-se com tantas palavras. Pegue nas inúmeras visões que Passos já teve da economia e compare-as com suas afirmações.

  2. Pois para mim, o melhor sinal que vai reforçar a minha escolha é a Calma dos tais “Mercados” nestas eleições. Muito francamente, é fácil de ver, eles nem se importam que ganhe o PS, aliás, no fundo até devem preferir, porquê?
    Muito simples, esta parte do PS que usou de todos os truques e malabarismos para continuar no Poder é, a continuação de políticas arriscadas e despesistas, portanto, quanto maior for a dívida, maior o controle dos países endividados porque, foi assim que perdemos a soberania sobre decisões internas.
    Se ganhar a Coligação, continuamos com a dívida e, desde que eles não se ponham a cortar nas autarquias, cujo número já deve vir da idade da pedra, desde que não se ponham com ideias de levantar muitas notas de dívida, bem guardadas em Bancos alemães, continua tudo bem e eles podem continuar o treino, como se faz aos cães… levanta, deita, salta, busca… porque isto de dinheiro… tenho de repetir a frase:
    “When you run in debt; you give to another power over your liberty”
    Benjamim Franklin

    1. A calma dos mercados é o reflexo de:
      – A acção do BCE (cujas consequências a longo prazo são muito discutíveis);
      – Uma determinação clara por parte de Passos Coelho que, praticamente sozinho, evitou que Portugal seguisse o caminho da Grécia.
      E os mercados ‘normais’ (bancos, fundos de pensões, etc.) gostam de lucros – logo, de um risco que, podendo ser elevado, não esteja demasiado perto do colapso.

  3. Lamento, mas discordo em absoluto. Passos limitou-se a dizer amém a Bruxelas, FMI, Eurogrupo e BCE e nunca disse não, a nada, o que mostra, ser muito mau político. Um bom político, negoceia e não desista de fazer o melhor pelo seu povo. Passos governou para amanhã ser recompensado, tal como Moedas e Gaspar. Portas só vê a ribalta e nada mais, mostrando ser um vendedor de palavras de faz de conta. Portas não vê mais nada, para além do poleiro e como tal usa de todas as artimanhas, para atingir os seus fins. O CDS se fosse a eleições, só, provavelmente desapareceria e assim, ainda dará o seu ar de pouca envergadura política para mais quatro anos. Aqui está uma habilidade do Paulinho e uma burrice de Pedro. Ainda mal que Passos está à frente do PSD pois não tem envergadura para tal.

    1. “Aqui está uma habilidade do Paulinho e uma burrice de Pedro.”

      Percebo que goste da ideia mas, do ponto de vista de Passos, não faz qualquer sentido. Porque o que você está a dizer é que ele devia ter preferido perder as eleições sozinho a tentar ganhá-las acompanhado.

      1. Se para ganhar precisa da muleta do CDS está a dar-me razão. Não presta para estar à frente do PSD. É mau político, para não dizer péssimo e no domingo veremos se a muleta lhe serviu de alguma coisa ou se apenas serviu para o enterrar. Duma coisa pode ter a certeza o CDS vai sair beneficiado.

    1. Podia perder a cabeça e votar Puff… naquele “golpe de vento” que irá repetir a mesma política do passado que só fez voar muito dinheiro para “alguns bolsos”, deixando umas migalhas noutros e, no fim, nos levou até à Troika.

    2. Poderia, entre muitas outras alternativas, não ir votar.

      Mas não, este eleitor vai votar. Não no CDS, que inclusivamente “perderia o seu voto”, mas na PàF. Vai fazê-lo em boa parte por admitir que o PM em funções desempenhou bem o cargo.

      Compreendo que esta posição cause azia a muita gente. Que seja complicado encaixar pessoas com um discurso coerente de defesa deste governo e deste PM.

      Mas aparentemente esta opinião é comungada por dois quintos do eleitorado, e esses dois têm tanto direito de a expressar como os outros três (que aliás passaram os boa parte dos últimos 4 anos em campanha).

  4. Caramba:
    O José António Abreu vive neste país?
    Deixe lá os números e olhe as gentes da sua rua, da sua cidade, do seu país.
    Ou tem casa na Quinta da Marinha?
    Rómulo de Carvalho, também conhecido por António Gedeão, dizia que «a história não é os governos que a fazem mas eu, a vizinha do lado, o merceeiro da esquina da rua.»

  5. Não fico em muito má companhia, diga-se.
    Mas, diga-se: odeio números.
    Principalmente aqueles que marcam o destino dos povos.
    O Manuel Mendes – um escritor que ninguém, hoje, lê (desculpe lá mas quando me vêm com números eu saco de letras) dizia que as gentes dividem-se em duas classes: os que aprenderam quebrados e os que não aprenderam.
    Não volto a chateá-lo.

    1. Não me chateia nada. Mas acho triste (e revelador de alguma sobranceria: sugere que as pessoas de letras estão num patamar ético superior) procurar-se uma dicotomia tão forte entre letras e números. O lirismo não paga contas, como algumas pessoas de letras até percebem (leiam-se as crónicas de Vargas Llosa).

      1. O lirismo não paga contas e as pessoas não são números!… Se diz que Passos governou bem, das duas uma: ou vive em Marte ou anda por cá e não vê nada à sua volta, o que é grave! É tão grave que diz que o governo cedeu aos enfermeiros. Cedeu! Mas o que é isso de cedeu? Vossa excelência vive no reino das maravilhas onde nem sequer percebeu que se precisa de enfermeiros nos hospitais. Mais grave ainda, é os portugueses andarem a pagar impostos para pagar a formação desses mesmos enfermeiros e bem, para depois os exportamos. Isto para si é que é governar bem.

    2. “Não fico em muito má companhia, diga-se.”
      Os grandes ditadores usam a sua lógica.

      &ETC demonstra aristocracia, a arrogância, o populismo, e a consequente a violência inerente aos que julgam que tudo é política.
      Para &ETC matemática, aritmética podem dobrar-se à sua vontade.

      No fundo é mais um representante do Romantismo que destruiu o Renascimento.
      Já tivemos os resultados desse Romantismo: Comunismo, Nazismo e todos os movimentos para qual a realidade é o que o líder, ideologia diz que é.

  6. Basicamente tem razão. A reforma dos estado é um ponto muito negativo; como positivo, podemos sentir, um certo esforço de deixar a justiça trabalhar como deve (independente) e acabar com as moscavilhas e “apoios” estatais a DDTs

  7. “Se a crise provocada pela demissão de Portas revelou o político, o colapso do GES confirmou que Passos tem uma visão para a Economia. (…)Mas nunca tergiversou num ponto: a Economia desenvolve-se à base da iniciativa privada; esta deve funcionar em concorrência e assumir os riscos decorrentes da má gestão.”

    Se tal fosse verdade haveria alguma coerência.
    Os dados indicam que a recusa ao GES foi só porque não fazia parte da sua próximidade, antes pelo contrário.
    Veja-se a venda da ANA a um monopólio privado a controlar todos os aeroportos, “Aeroportos de Portugal” é um anátema a quem supostamente defende a inciativa privada. A não ser que estejamos a falar de Mercantilismo e não de Mercado Livre.

    A taxa sobre equipamentos de armazenagem para beneficiar os “artistas” etc…
    A visão do Passos é precisamente igual aos outros Socialistas.
    Ou seja Mercantilismo.

    PS: É significativo que nenhum jornalista pareça interessado em noticiar quem acompanhou Ricardo Salgado apesar do pisca pisca do Daniel Bessa…

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