Depois de já ter lido 8 (oito) crónicas do Luís Naves sobre a crise dos refugiados na Hungria, entendi, no passado dia 14 de Setembro, escrever algumas linhas sobre uma afirmação várias vezes reafirmada naquelas crónicas de que a Hungria era uma democracia. E fi-lo chamando a atenção para a existência de vários modelos de democracia e para um conjunto de factos que em meu entender deviam ser conhecidos dos leitores do Delito de Opinião. E ontem, dia 17, depois de ter ouvido as declarações do Alto Comissário para os Refugiados e de alguns funcionários das Nações Unidas, permiti-me trazer a este blogue alguns outros factos históricos, estabelecendo um paralelo entre o que aconteceu em 1956 e o que está a acontecer em relação ao fluxo de refugiados, dando conta da solução que então foi encontrada. Foram as duas únicas coisas que escrevi sobre a crise dos refugiados na Hungria.
O Luís Naves, que já tinha fica amofinado com o primeiro texto, extraindo dele conclusões precipitadas e que, para além de desajustadas, pouco ou nada tinham que ver com o que lá está (do tipo “uma maioria constitucional, duas maiorias absolutas não contam nesta narrativa“, “o homem só tem defeitos (…)”, “se a Hungria não é uma democracia deve ser expulsa da UE“, “seria preferível fechar os olhos e deixar os traficantes levar toda a gente até à Áustria“, “os húngaros serão forçados a fechar a fronteira ou arriscam-se a ficar com 60 mil pessoas em dez dias-se“, “o nacionalismo é também um exclusivo dos grandes“, “[c]laro que os votos nos pequenos países já não valem nada e a Europa é cada vez mais uma aliança entre grandes potências que não toleram os inúteis gestos de independência dos pequeninos, portanto talvez se encontre uma solução mais expedita“), resolveu ontem voltar à carga a propósito do texto que escrevi sobre os refugiados de 56.
Em relação às respostas que lhe dei ao comentário que deixou no meu primeiro texto, o Luís Naves nada disse. Por isso, reproduzo aqui o que ali ficou:
“Quanto ao argumento da maioria constitucional e às maiorias absolutas só tenho a dizer que a democracia é antes de mais o respeito das regras do jogo, o respeito pelas minorias, a acomodação da diferença, e não me parece que qualquer maioria absoluta (antes Orbán também teve derrotas) legitimem a alteração das regras.
Só duas linhas relativamente à expulsão, porque quanto ao resto cada um tem a sua opinião e os seus argumentos.
Uma das coisas que tem sido salientada por alguns autores, e isso já era referido em 2011 pelo JW Muller, é que “European governments have been too preoccupied with the fate of the euro and their own economic woes to pay much attention to small neighbors about which many Europeans know next to nothing. (…) Brussels itself began to scrutinize the media law, and it nowseems sure that Hungary will amend it in response to criticisms from the EU. Still, it has become painfully obvious that the Union has many instruments and incentives to get countries outside its borders to adopt liberal democracy but precious few for changing the behavior of governments on the inside. In the wake of the failed EU Constitution, the focus has all been on respecting national differences, emphasizing Europe’s internal political diversity, and avoiding tough common European political standards. Tellingly, the latest European treaty—the quasi-constitution—has a provision for a member state to leave voluntarily, but no mechanisms for ejecting a country that has ceased to be democratic. True, there is the possibility of withdrawing voting rights from states that have violated the EU’s “fundamental values,” but no leading politician has even mentioned that possibility yet.”
Um outro autor Ulrich Sedelmeir – London School of Economicas (JCMS, vol 52, 2014) escreveu: “Although the Commission made the debatable claim that the Media Law breached the EU media directive, it decided not to use infringement procedures.Instead, Commissioner Neelie Kroes was satisfied that the Commission’s concerns had been addressed in an exchange of letters with the Hungarian government, which promised to ease rules for foreign media and to soften the rules against ‘unbalanced’ coverage and ‘offensive’ Internet content. After the Hungarian Constitutional Court declared some elements of the Media Law unconstitutional, the controversy reignited when the Media Council withdrew the frequency for Klubradio, the main independent radio channel in the country, leading to criticism from the Commission, although there was no EU law that allowed it to act. A Budapest court granted a temporary relief for Klubradio to stay on air, but according to a Council of Europe expertise on the Hungarian Media Law, the government’s changes still do not meet European human rights standards. Freedom of the press remains problematic since the Media Council ‘still controls the entire broadcast sector and has [. . . the] legal power to reregulate print and online media’ (Bánkuti et al., 2012). In sum, the EU’s use of social pressure to achieve greater plurality and independence of the media was largely ineffective.
In January 2012, the Commission started infringement procedures against Hungarian legislation in three issue areas that had a separate basis in EU law. The lowering of the retirement age of judges (…) infringed Directive 2000/78/EC on equal treatment in employment. Measures to restrict the independence of the national data protection supervisory authority and of the Hungarian central bank, respectively, breached Article 16 TFEU and Directive 95/46/EC on data protection and Article 130 TFEU. Moreover, concerning the independence of the central bank, the EU not only used the infringement procedures – with the threat of financial penalties by the ECJ – but also used issue linkage. In April 2012, the Commission declared itself satisfied with the changes (…)”
Concluo que a UE não foi mais longe porque Orbán fez marcha-atrás, corrigindo o que foi obrigado a corrigir. Tal como a Roménia também fez. As maiorias de nada lhe valeram. Se todos os problemas fossem liminarmente resolvidos com a expulsão talvez já não houvesse UE.“
Ontem, o Luís voltou à carga. E que diz ele, de relevante, em relação ao que eu escrevi: que o meu primeiro texto está “cheio de preconceitos” e que o segundo é “injusto“, para depois concluir que a comparação com 56, “insinuando a insensibilidade e a ingratidão dos húngaros, revela a tese sentada no conforto do camarote“.
A partir daqui, fazendo uso destes elevadíssimos argumentos, atira com uma série de questões que com toda a propriedade deviam ser dirigidas aos responsáveis da União Europeia e das organizações internacionais que estão no terreno. Reparar-se-á que eu nunca coloquei em causa os relatos que o meu colega de blogue faz, não procurei sequer dar resposta às perguntas que ele foi atirando para o ar nas suas crónicas, nem sequer contestei as conclusões que foi extraindo em defesa do que foi afirmando.
Eu só tenho a dizer ao Luís Naves que não percebo onde está o “preconceito”, que aliás ele não desenvolve em relação aos factos que são apresentados e que ele também não refuta. Como também não desenvolve onde está a injustiça da comparação relativamente à situação dos refugiados em 1956 e em 2015. E vem dizer que eu venho insinuar a “insensibilidade e a ingratidão dos húngaros“, revelando “a tese sentada no conforto de camarote“.
Em relação a este último ponto, inclusivamente, eu remeti os leitores para declarações prestadas por um refugiado de 1956 e para o filho de um outro refugiado da mesma época. Se há o apontar de um sentimento de insensibilidade e ingratidão em relação ao que está a acontecer, isso estará nas declarações dos próprios húngaros que criticam a acção do seu governo. E sobre isso o meu colega nada diz. Aliás, o que diz a oposição interna húngara e as várias ONG que se queixam da acção de Orbán, o Luís Naves também ignora. Para o Luís, a narrativa do governo húngaro é que é a correcta, por isso não há nada a dizer.
Quanto aos números dos refugiados, o Luís Naves escreveu em 5 de Setembro “que só este ano, já entraram na Hungria 167 mil migrantes. Amanhã, a soma dará 170 mil“. Bom, mas em 1956 na Áustria entraram 180.000. Em três semanas de Novembro terão entrado 113.000. E ainda lá estavam 150.000 da II Guerra. E a Áustria ao tempo não fazia parte de nenhuma União Europeia. E a situação resolveu-se sem muros, sem vedações de arame farpado, sem usar gás pimenta e gás lacrimogéneo, meios de que ainda ontem a Sérvia se queixou, por terem sido utilizados pela polícia húngara em relação a refugiados que se encontravam do outro lado na fronteira, no seu próprio território. Ah, pois, estavam a tentar entrar na Hungria porque por ali a volta é mais curta…
Vá lá que no texto a que agora se responde, o Luís Naves já vem admitir que, afinal, o Viktor Orbán “tem defeitos: é um conservador populista com visão exagerada do seu país, tem tendência para a franqueza pouco diplomática e para o que considera ser a defesa intransigente dos interesses nacionais“. É um princípio, mas logo a seguir o Luís Naves justifica isso, normal, com a oposição de extrema-direita e a oposição de esquerda pós-comunista, acrescentando ainda, não vão os seus leitores ficar confusos, oposição “que levou a Hungria à falência”. Bem sublinhado. Esta última nota deverá ser, pois, um dado essencial para se compreender a acção de Orbán, para justificar a sua actuação, a sua democracia musculada e o discurso populista. O Luís Naves devia explicar um pouco melhor estas coisas, bem como a história dos juízes do Tribunal Constitucional ou as alterações às leis da comunicação social que os restantes países da União Europeia obrigaram a Hungria a emendar. E já agora dizer quantos países, com excepção da Áustria por uma vez, foram obrigados a acatar recomendações da UE a esse nível. Está visto que o governo de Orbán e o Fidesz são “pequeninos” mas atrevidos. Fossem eles “grandes” e davam uma lição de democracia aos restantes europeus.
Para além disso, o Luís disse coisas tão extraordinárias como que “a vedação é uma medida paliativa“, que “ninguém os impede de apanhar o primeiro comboio para a Alemanha” e colou o Jobbik (o partido de extrema-direita) a Putin, quando aquele com quem Putin faz acordos, tal como faz com a Síria de onde os refugiados vêm, é com Orbán. O refúgio insistente no zeloso cumprimento dos Acordos de Schengen, perante a gravidade e excepcionalidade da situação, só me fez lembrar um manga-de-alpaca que com todo o zelo recusava requerimentos por serem dirigidos ao Chefe da Repartição de Finanças, que estava de férias, quando deviam ser endereçados ao “Chefe da Repartição de Finanças (Substituto)”.
O Luís também não esclarece a questão dos juízes, mas é pena, porque provavelmente poderia dar-nos a conhecer os argumentos que faltaram a Orbán para seguir em frente com a reforma do Tribunal Constitucional húngaro, fazendo calar os tontos de Bruxelas. Num dos seus textos até diz que “estamos a assistir a uma campanha organizada (por quem?) que visa exercer pressão política sobre os países do grupo de Visegrad“. Pois é, o mundo está cheio de malandros que querem tramar a Hungria…
O Luís gostaria que eu entrasse num jogo de ping-pong, mas confesso que tenho pouca paciência (e tempo) para isso. Não gosto de ver jogos de ping-pong. A maior parte das vezes a bola só é vista pelos jogadores e pelos árbitros. Tão pouco estou interessado em dar lições aos leitores ou a ele. Não tenho esse atrevimento.
Aliás, só escrevi o que ficou registado sobre a democracia húngara porque a determinada altura, tanta era a insistência do Luís em mostrar que a Hungria é uma democracia (num dos rankings dos indicadores de democracia estava em 36.º lugar, muito abaixo de Portugal), que comecei a ter a estranha sensação de que Orbán seria um reincarnação do Senhor, a UE uma cambada de malandros a fazerem um uso reprovável do seu poder sobre um pequeno país, e que o Luís Naves foi o escolhido para escrever cartas para os pastorinhos. Como não me chamo Jacinto, Marta ou Lúcia achei por bem marcar a minha posição, fazendo uso da minha liberdade de crítica, o que fiz, sublinho, apenas em relação às questões que eu considero essenciais para os leitores poderem, se quiserem, reflectir e sem que para tal fosse contrariar os factos e as conclusões, algumas sub-liminares, que o Luís apresentou. E repare-se que logo no primeiro texto que escrevi não contestei que a Hungria fosse uma democracia, embora fizesse notar, e foi esse o propósito, a existência de vários modelos e de algumas coisas “estranhas” que se passavam nessa democracia. E escrevi: “importa referir meia-dúzia de outros aspectos que não têm feito parte dos relatos do Luís Naves, e por isso não têm tido resposta, para que as pessoas não pensem que a democracia húngara é igual à alemã, ou à inglesa, ou à francesa, ou à espanhola, à italiana, à belga, à holandesa, e por aí fora, até à portuguesa“.
A factos contrapus outros factos e clarifiquei fontes, socorri-me de textos de académicos, de notícias, de registos conhecidos. Os leitores se quiserem podem informar-se. Já o tinha feito anteriormente quando vi a defesa que o Luís fez de algumas teses em relação à Grécia, sendo certo que não tenho nem manifestei particular simpatia pelo Syriza em nenhuma ocasião. Como várias vezes tenho feito e inclusivamente aqui escrevi uma vez, a provocação é um direito. E a ironia nunca fez mal a ninguém. Eu prefiro ter leitores que contrariem as minhas teses, que apresentem outras versões, que me critiquem e se necessário me corrijam, como alguns por vezes têm feito, do que ter uma carneirada a aplaudir o que escrevo, a insultar anonimamente os vizinhos de blogue com referências indirectas e meias-palavras e a publicar as críticas nos comentários dos textos dos outros porque foram por mim censurados devido aos seus inaceitáveis termos, muitas vezes em relação a terceiros e claramente xenófobos, anti-semitas e racistas.
Aqui não há “narrativas”, o mundo não é visto a preto e branco, de um lado não estão os bons e do outro os maus, não há grandes e “pequeninos”, e eu não dou aulas de catequese a neófitos. Registo as minhas opiniões, as minhas posições, factos que entendo deverem ser registados. E cada um que tire as suas conclusões, que faça as críticas, de preferência sem atacar o vizinho, sem insultar quem escreve, sob pena dos comentários não serem publicados. Lá porque há quem queira “desancar” no vizinho, com quem até posso não simpatizar, o que nem sequer é o caso, não vou permitir que se publiquem nos comentários aos meus textos considerações que possam ser consideradas ofensivas para ele ou para qualquer outro dos meus colegas que aqui escreve. Tenho pena, mas o Delito de Opinião ainda não é a Hungria de Orbán. E se um dia for seguramente que me avisarão com antecedência, porque nesse dia a opinião deixará de ser livre.
Tenho pena, mas é assim que vejo as coisas, Luís.

A história nunca se repete mas tem constantes como se costuma dizer. A diligência cega dos funcionários assusta porque foi também esse modo de actuação que levou à morte milhares e milhares de pessoas na 2º guerra mundial.
tal como a sociedade portuguesa em geral
isto começa a ser um local mal frequentado
vivi anos na Áustria
donde não emigrou ninguém durante 2 GM
pretende-se a balcanização da Europa central
Tem remédio: emigre. Escusa de fazer sacrifícios. Deve haver outros sítios mais bem frequentados onde poderá sentir-se bem.
Agradeço este terceiro texto sobre um tema que não quero discutir: sou acusado de andar amofinado e de praticar um desporto (ping-pong) que desconheço, mas a primeira afirmação será certamente factual; julgo que na UE são frequentes os choques entre comissão e estados-membros sobre legislações nacionais, reconheço que a Hungria foi criticada e mudou aspectos da sua legislação, mas também confesso que me estou basicamente nas tintas; não percebes onde está o preconceito nos teus textos, ainda bem; considero também que na UE há pequenos e grandes, tu discordas; pronto, ficamos assim; os teus textos enumeram uma série de factos e os meus são pobres nessa matéria, cá terei as minhas limitações; e não li o JW Muller , devia ter lido e agradeço a citação; escreves que não tens uma narrativa, em oposição (suponho) à minha, estamos a partir de agora inteiramente de acordo.
O Delito de Opinião não é a Hungria de Orbán , apoio a moção, e peço desculpa por ter escrito algumas crónicas sobre o assunto, a descrever o que via. Juro que não volto a pecar e vou dedicar-me sobretudo às histórias da carochinha.
A questão não se prende com quem tem razão, mas antes com os pontos de vista de cada um. É normal olhar-se para um mesmo cenário e tecer considerações diferentes, se partirmos de preconceitos diferentes (sim, considero mesmo que são preconceitos, que, tal como as rotinas, nos ajudam a estruturar a vida e a não ter que pensar em todos os detalhes de uma qualquer situação).
O meu ponto de partida é muito semelhante ao do Sérgio – a Democracia praticada na Hungria é um bocado “estranha” segundo os padrões a que estamos habituados (Europa Ocidental). Como estou “sentad[o] no conforto do camarote”, chego a tal opinião com o recurso a observações directas de outra pessoa, um académico de seu nome Kim Lane Scheppele e que li cortesia do blog do Paul Krugman: ary
http://krugman.blogs.nytimes.com/?s=hung
No entanto, o relato dado pelo Luís Naves na primeira pessoa é igualmente marcante e impressionante. E deixa a nu um problema muito marcante: o que deve o governo de um país fazer, com recursos económicos escassos quando são pressionados ao cumprimento de um Tratado Orçamental a todo o custo? A resposta é complexa, tal qual dão conta os relatos dos “Retornados” que por aqui se publicaram no Delito de Opinião (Eram Portugueses? Estrangeiros? Vinham piorar a já difícil situação dos que cá estavam? Ou fugiam de uma guerra estúpida e inútil?).
O meu humanismo aponta na mesma direcção do Sérgio – estanquemos primeiro a hemorragia e depois façamos contas. O Alto Comissário da ONU para os refugiados diz-se chocado com a atitude calculista e de impasse na União Europeia e dá o mesmo exemplo do Sérgio, os refugiados da Hungria em 1956. erior.aspx?content_id=4778805&page=-1
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Int
Estórias da Carochinha? Tanto o Sérgio como o Luís são demasiado inteligentes para isso. Eu vejo opiniões diferentes para ajudar a desconstruir preconceitos. Discordar não é o mesmo que fazer ataques pessoais.
Pedir desculpa!!! como é que tem a cabeça? os seus posts são do mais genuíno e interessante que leio no DO. Sente-e que não são fruto da verdade a que temos direito, pre formatada e que faz as manchetes e narrativas dos media de referencia anglosaxonicos.
Por favor, faça jornalismo serio e português, como costuma e que faz a riqueza dos bons blogs.
Caro Sérgio, a questão de saber se a Hungria é uma verdadeira democracia ou se Órban é um democrata, toma banho e gosta de gatos é positivamente irrelevante para o caso!! Há, meu caro, Estados positivamente, de acordo com as suas constituições, totalitários, ditatoriais, que são signatários da convenção de 1951 relativa ao estatuto de refugiado, ou seja a convenção aplica-se aos signatários, independentemente de serem democracias ou não!! É irrelevante, meu caro!
A convenção, caro Sérgio, é clara quanto ao estatuto e quanto às obrigações dos Estados. A mesma dita, no art. 31 Art. 31 –
“1. Os Estados Contratantes não aplicarão sanções penais em virtude da
sua entrada ou permanência irregulares, aos refugiados que, chegando
diretamente do território no qual sua vida ou sua liberdade estava
ameaçada no sentido previsto pelo art. 1º, cheguem ou se encontrem no
seu território sem autorização, contanto que se apresentem sem demora
às autoridades e lhes exponham razões aceitáveis para a sua entrada ou
presença irregulares.” o n.2 do mesmo artigo excepciona o n.1 aos casos em que o refugiado não haja encontrado admissão em outro Estado, por aí se encontrar em perigo ou em perseguição injusta ou por esse estado não ser contratante da convenção. O art.32 determina que o estado contratante não poderá expulsar um refugiado que esteja em situação regular, ou seja, ao qual se não aplique o n.1 do art. 31 ou se lhe aplique o n.2 do mesmo art. 31.
O art.33 determina que o estado contratante da convenção não poderá rechaçar, impedindo a entrada, ou expulsar um refugiado para, nos termos literais do art., “territórios em que a sua vida ou a sua liberdade seja ameaçada em virtude da sua raça, da sua religião, da sua nacionalidade, do grupo social a que pertence ou das suas opiniões políticas.”
Compadeço-me e animo-me de toda a compaixão para com todos os refugiados mas não creio, muito pelo contrário, que a subversão às convenções que reconhecem estatutos e atribuem direitos traga valia assinalável para esses mesmos beneficiários refugiados e, especialmente, para os que no futuro se encontrem no jugo das mesmas circunstancias. A subversão à convenção apenas trará a sua substancial irrelevancia para futuro, e isso sim é preocupante!! No caso, os factos parecem-me incontroversos, o governo húngaro parece ser dos únicos a aplicar a convenção e as suas leis. Por outro lado, aplaudem-se estados que são falhos neste tocante e que, no mínimo, se munem de insídia travestida de bondosa compaixão.
Um outro conceito que há muito vejo subvertido é o de corredores humanitários que serão, nos termos convencionais, locais de passagem seguros onde os beligerantes não tomarão os refugiados por alvo. Note-se, beligerantes. Transformar caminhos de transumancia em corredores humanitários é, sobretudo, subverter e desconsiderar os corredores humanitários. Temo, sinceramente, que a vulgarização dos conceitos e dos respectivos estatutos os venha a converter em irrelevancias que enterrem a compaixão por séculos de provir!! Mais triste me quedo quando os custódios das convenções, as NU e seus órgãos, se tornam nos principais promotores da artilharia subversiva e, mais das vezes, as empreguem em proselitismo de controvérsia política. Assinala-se já, consabidamente, a irrelevancia das NU. Assinalar-se-á, em breve, a irrelevancia da convenção de 1951 relativa ao estatuto e direitos do refugiado. Há quem aplauda. Eu, sinceramente, quedo-me, no mínimo, apreensivo e, honestamente, esperançado em estar errado!!
Muito bem, Sérgio. Um abraço.
Aquilo em que os textos do Sérgio são pobres é sobre o que a Hungria devia ter feito em alternativa ao que está a fazer.
É muito fácil dizer que o problema não se resolve com cercas, sem gastar uma única palavra para dizer como o problema se resolve.
Estamos em 2015, não em 1956. As nossas sociedades não acolhem em condições 170 mil pessoas sem um processo que lhes permita ter acesso a coisas básicas nos dias que correm como: acesso aos serviços de saúde, ao trabalho legal, à protecção social, a uma habitação legal, a uma conta bancária, a um telemóvel. Para todas essas coisas é fundamental a identificação das pessoas, e preferencialmente, com a atribuição do estatuto de refugiados.
A alternativa simplista à cerca é, por isso, deixa-las passar pela Hungria para montarem acampamento na Áustria ou na Alemanha (até estas fecharem a fronteira, o que já aconteceu). É, portanto, passar a bola e garantir que as pessoas continuam a viver ilegais, em tendas, sem poderem arranjar trabalho, sem acesso a cuidados de saúde, sem poder sequer comprar um telemóvel para falar com a família.
É fazer isso tudo enquanto se continuam a canalizar os escassos recursos dessas pessoas (leia-se: as suas parcas poupanças) para redes de tráfico de pessoas.
É isso que o Sérgio defende?
Eu defendo que se controlem as fronteiras, que se recebam as pessoas (refugiados e migrantes) de forma controlada e de acordo com regras (mais abertura para com refugiados que migrantes), e se possível adicionalmente, que se vão buscar as pessoas à origem, evitando a canalização de recursos para o crime organizado.
Nesse quadro a Hungria está a fazer o que lhe é exigível – controlar as nossas fronteiras comuns (e com recursos próprios, que não abundam). Tenho sérias dúvidas que Portugal fizesse melhor.
Não percebo qual é a sua discordância.
Eu defendo o controlo de fronteiras. Há qualquer coisa que não deve ter ficado clara. Vou tentar explicar.
Portugal não faria melhor. Isso parece-me claro.
Então não consigo perceber as suas críticas à Hungria.
A Hungria parece estar a cumprir melhor as suas obrigações que, quer os países de destino (Alemanha, Áustria), quer outros países de passagem (Grécia, Croácia).
Comporta-se muito, mas muito melhor do que quer a sua democracia “disfuncional” ou a sua liderança “populista” fariam prever.
E de pouco vale que venha da ONU e do Guterres a comparação a 1956. O argumento não me impressiona de forma alguma.
Há 30 anos era aceitável termos bairos de lata nos subúrbios de Lisboa. Era normal termos uma enorme economia informal. Era normal uma franja da população poucos impostos pagar. Hoje nada disso é normal.
E se não é, não é nessas condições que vamos receber dezenas de milhares de pessoas, até porque não é isso que estas pessoas procuram na Europa.
Para as manter num campo de refugiados, bem podiam permanecer na Turquia, na Síria e na Jordânia num campo financiado com o nosso dinheiro através da ONU.
Se as queremos receber cá, não é certamente nessas condições. E para o fazer é necessário termos um processo de concessão de asilo, mas também que as pessoas se submetam a ele.
O excesso de zelo é normalmente uma forma de não cumprir ou de impedir que se cumpra.
Obrigada, Sérgio.
Agradeço ter conseguido escrever tão bem e à letra.
A Croacia já fechou as fronteiras, a Austria e a Eslovenia.
A Hungria recebe imigrantes da Croacia e faz o seu registo, como sempre achou seu dever no âmbito da UE; tudo medidas contestadas pelos tudologos de serviço, e ideias feitas nas sessões de verdade a que temos direito!! tudo previsto nos manuais!!