O que é que nos fazia pensar que, se alguém não nos consegue amar, é porque está magoado, deficiente, com algum tipo de disfunção? E nos casos em que nos substituem por um deus, ou uma virgem em pranto, ou o rosto de Cristo num pano sagrado – aí tratamo-los por doidos. Iludidos. Regressivos. Estamos tão convencidos da nossa própria bondade, e da bondade do nosso amor, que não suportamos acreditar que haja algo que seja mais digno de amor do que nós, mais digno de devoção. Os cartões de felicitações dizem muitas vezes que toda a gente merece amor. Não. Toda a gente merece água limpa. Nem toda a gente merece amor a toda a hora.
Zadie Smith, Dentes Brancos. Edição D. Quixote (2002), tradução de Manuel Cintra.
Pois não. Mas dói, aceitá-lo. E recusar fazê-lo talvez constitua parte do que nos faz humanos. Como, de resto, desejar amar.

A “água limpa” é um Amor que não se vê. Transubstancia-se em fogo que preserva o trigo e consome o joio.
Também é necessário compreender a outra dimensão do amor, a do amor forte que arde mas não destrói.
Uma mãe viu-se confrontada com um filho que seguiu seus passos nas malhas da droga. Depois de tudo o que fez para salvá-lo não ter produzido efeitos e de seu filho ter continuado por caminhos tortuosos para ele e também contra a família, um dia, perante o regresso do filho para lhe pedir auxílio e abrigo, decidiu negar tal auxílio e bateu-lhe com a porta em cara, dizendo:
As portas desta casa abrir-se-ão quando quiseres aceitar o que não te parece óbvio. Só há duas soluções: ou regressas para a cura ou irei ao teu encontro quando te souber morto, para te oferecer o enterro.
Em lágrimas e com o coração partido, viu seu filho partir. Para dois meses depois o ver regressar aceitando os termos que lhe foram oferecido.
O Amor forte de uma mãe forte salvou seu filho.
São coisas da vida, são coisas de qualquer lugar. São os caminhos do Amor.