Os patriarcas (3)


Pedro Correia,

001ccdwf[1][1].jpg

 

ADRIANO MOREIRA

 

Há pouco mais de dois meses, no dia 10 de Julho, um senhor vestido formalmente, de cabeços brancos e testa alta, ergueu-se da cadeira onde estava sentado, numa livraria do centro de Lisboa, e durante três quartos de hora prendeu a atenção de algumas dezenas de pessoas que o escutavam com uma notável lição de história, geografia, geopolítica – tudo a pretexto da literatura.

Eu estava entre os que tiveram o privilégio de o escutar nesse fim de tarde. E admirei a impressionante rapidez de raciocínio, a notável fluência verbal e a claridade de ideias deste homem que foi advogado e político mas cuja verdadeira vocação é o ensino. Deu aulas durante dezenas de anos e deixou um rasto de admiradores em todos os continentes: é um dos portugueses com maior vocação universalista.

A expressão francesa sagesse aplica-se por inteiro a Adriano Moreira, que nessa tarde em Lisboa discorreu sobre a “comunidade de afectos” que a CPLP é acima de tudo – e como a língua comum funciona como poderoso traço de união entre os Estados-membros. Ao contrário do que sucedeu com outras antigas potências coloniais europeias, como a Bélgica ou a Holanda, incapazes de gerar laços afectivos com os povos residentes nas paragens que tutelaram.

Adriano Moreira foi subsecretário de Estado da Administração Ultramarina (1958-61) e depois ministro do Ultramar (1961-62) com António de Oliveira Salazar, de quem chegou a ser apontado como um dos seus mais jovens e promissores delfins. Enquanto ministro, aboliu a lei do indigenato – uma das medidas de maior alcance social alguma vez decretadas nos então territórios ultramarinos.

A corte da ditadura fervilhava de intrigas contra aquele jovem governante com 40 anos recém-cumpridos que se atrevia a revelar protagonismo num regime em que tantos progrediam na penumbra. Um dia, em Dezembro de 1962, Salazar chamou-o e foi sucinto: “Nós acabamos de mudar de política.” Adriano Moreira foi igualmente sucinto: “Então acaba de mudar de ministro.”

Nunca mais reassumiu um posto governativo. Correu mundo, escreveu livros, (Tempo de Vésperas, O Novíssimo Príncipe), radicou-se no Brasil após o 25 de Abril, regressou a Portugal, foi deputado e presidente do CDS, retomou a sua paixão de sempre: o ensino.

“A minha mãe ensinou-me que Deus é companheiro e nunca me esqueci disso. Nunca ando sozinho, nunca ando sozinho”, declarou em Maio, numa longa entrevista concedida ao jornal i que vale a pena ser relida.

Pensa bem e diz o que pensa. Gostem ou não do que ele diz. Se em Portugal existisse Senado, ele seria o nosso primeiro senador. E, dobrado o cabo dos noventa, continua a ser um sonhador. Ouvi-lo falar com tão espantosa agilidade mental é também uma lição de vida. 

 

Adriano Moreira completou 93 anos no passado dia 6.

0 comentários em “Os patriarcas (3)”

  1. espero que ainda seja viva a minha Amiga Margot
    jubilada da universidade do Salvador

    viveu com o Adriano em Madrid nos anos 50

    não posso dizer o mesmo do dito cujo

  2. Tenho muita pena que o regime do 25 de Abril não tenha encontrado um lugar à dimensão de Adriano Moreira, que é um dos dois ou três Homens de Estado do pós 25 de Abril.
    Com a “impressionante rapidez de raciocínio, a notável fluência verbal e a claridade de ideias” que o caracteriza, fez falando de improviso o melhor discurso politico feito em Portugal no regime democrático. Foi algures pelos anos 80 no Parlamento português.
    Se bem me lembro falou da sua cadeira de deputado, o discurso foi relativamente longo, e no fim nenhum deputado de nenhum partido ficou sentado, todos o aplaudiram de pé.

    1. Só me mete impressão como é que um homem com tantas qualidades aceitou ser Ministro num governo que mantinha a censura, a Pide (com tortura) etc. etc. A dimensão ética também conta ou só conta a inteligência e sabedoria?

  3. O Homem só escolhia os melhores:Adriano Moreira, H. Galvão. H. Delgado, Tenreiro, H. Saraiva, D. Pacheco, Theotónio Pereira, Canto Moniz (ponte 25 de Abril),

  4. Ao que ouço, leio, vejo e sinto por aí, vindo das universidades de verão, dos círculos menores e “maiores” do poder instalado e do que se quer instalar é um perigoso esquerdista.

    1. É engraçado que ninguém comenta a minha observação do dia 14 às 18:02. O que significa que a ética interessa pouco. Desde que se seja inteligente, culto e brilhante…a ética fica no caixote. Quem tem ética passa fome, não é?

    2. Obrigado pela sua atenção, Eduardo. Penalizo-me por ter lido a data (sem confirmar) na famigerada wikipédia, onde vem de tudo – do óptimo ao péssimo.
      Já rectifiquei. E aproveito para o felicitar, mais uma vez, pela qualidade do seu blogue.

  5. Esqueceu-se de dizer que o Moreira, enquanto ministro do ultramar de Salazar mandou reabrir o Tarrafal, o chamado campo da morte lenta, algo que fica bem em qualquer curriculum.

  6. Se a reabertura da prisão Tarrafal tivesse sido compreendida por muitos «inteligentes europeus» daqueles anos da guerra fria (1961), provavelmente não fosse necessário em Ceuta e em Melila criar aquele arame farpado que vemos diariamente na TV.

    Aquelas centenas de libertadores-da-pátria que foram parar ao Tarrafal, podiam explicar melhor que eu, porque há 50 anos tantos milhões de jovens africanos querem atravessar aquele arame farpado e o mediterrâneo a nado para vir «jogar â bola» para a Europa.

    Agora os africanos têm a concorrência dos Sírios.

    A Europa pôs-se a jeito, mas não foi por culpa de homens como Adriano Moreira.

    1. Claro que não foi por culpa de Adriano Moreira, a culpa foi dos parvalhões dos democratas.
      Se o Tarrafal tivesse sido compreendido … podia nem haver pretos hoje. Se se lhes tivesse feito como aos ameríndios hoje não nos incomodavam. Lá isso é verdade: os mortos não chateiam, exceptuando as consciências de alguns maricas sentimentais.

      1. A história já está bem explicadinha há muitos anos.

        As demagogias de uma Europa caduca criaram uma África inimaginável. contra as quais nós “orgulhosamente sós” lutámos, mas que essa África está aí no Mediterrâneo a pedir explicações à Europa que os abandonou.

        O Tarrafal, e os treze anos de Guerra do Ultramar ao lado de milhões de angolanos, moçambicanos guineenses e caboverdeanos, que lutaram ao nosso lado, não envergonham homens como Adriano Moreira, antes pelo contrário.

        A História já está escrita nestes 50 anos, só não se sabia que ia ser pior do que se imaginava, em toda a África em geral.

        A Europa vai pagar!

  7. Formação, inteligência e educação e idoneidade é todo um epílogo de gabarito que assenta bem nos ombros do professor Adriano Moreira que faz falta a uma grande parte dos portugueses e aos meandros da politica nacional

    1. Quando ele era Ministro, eu andava na tropa numa das ex-colónias. Acho que eu e os meus amigos na tropa consideraríamos que ele era inteligente. Quanto a educação talvez. Quanto a formação e idoneidade, de certeza que não. Opiniões.
      Nós (os tropas) não éramos inteligentes nem educados e frequentemente nem idóneos. Por isso tínhamos opiniões esquisitas e, como se verifica agora lendo os intelectuais, completamente erradas.

      1. Obrigado Anónimo, por me ter estado a guardar as costas numa das ex-colónias.

        Obrigado por esse nobre gesto.

        Penso que não havia outro motivo para ir até lá.

        1. Guardei as costas a muitos mas não a si. Lembra-se da última vez que nos encontrámos: eu, como tropa, dei-lhe uma carga de porrada. Ou esqueceu-se? Sei é que fugiu a sete pés.

      2. O meu Pai que foi para uma província ultramarina com uma carta de chamada, que para quem não sabe, era um documento em que alguém se Responsabilizava pela subsistência de quem ia, ainda hoje sempre que vê o Dr. Adriano Moreira na televisão chama-me para eu ver e reconhece-lhe enorme inteligência e idoneidade.
        Foi incorporado no exército e como muitos outros brancos e negros lutou pela sua pátria até ao dia em que meia-duzia de oficiais roídos de inveja por um decreto que fazia dos oficiais milicianos homens com as mesma regalias que os oficiais do quadro traíram todos os Portugueses das províncias ultramarinas e deixaram no caos essas províncias onde anos de guerra civil dilaceraram vários povos.
        Onde hoje em dia cuidados médicos básicos, salubridade no ambiente, educação e outras benesses da evolução humana são luxos mas que já naqueles anos começavam a ser massificados dentro das possibilidades da Nação.

        P.S. – Não poderemos esquecer que as entourages que instigaram as revoltas nas províncias ultramarinas , que as comandaram e que ficaram com os despojos da guerra foram formadas na sua maioria na Metrópole o que diz bem do quão avançado estava o estado Português em relação ás outras potências europeias que exploravam possessões em África como por ex. os belgas, os holandeses, os franceses á pouco menos de 100 anos enquanto nós já lá estávamos á 500 anos e mesmos com todos os erros sempre procuramos tratar todos de igual para igual.

        1. “meia-duzia de oficiais” A sua análise está errada porque não foram meia dúzia, foram o suficiente para tornar a situação incontrolável e vencerem. Seguido de grande apoio popular. Esse foi o problema que tramou o patriotismo do seu pai.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *