Nas últimas décadas, com excepção da construção da democracia e de alguns pequenos nichos na ciência, no desporto, na literatura, na música ou no cinema, onde a criatividade e o génio lusíada se manifestam, devem ser poucas, muitas poucas, as obras verdadeiramente importantes que enquanto portugueses fomos capazes de construir e dar ao mundo. Temos alguns bons gestores, meia dúzia de empresários dignos do nome, muitos anónimos, mas raras são aquelas obras em que de facto se tenha deixado uma marca de perenidade de tal forma relevante que aqueles que, sabe-se lá porquê, têm sido os nossos modelos não hesitam admirar. A criação do Multibanco é uma dessas obras. E no momento em que passam trinta anos sobre o seu lançamento gostaria de aqui deixar uma nota de apreço a quem o concebeu e aos informáticos portugueses que têm afirmado internacionalmente a qualidade da nossa inovação, em especial no campo da segurança informática e no uso das novas tecnologias. Recordo-me de alguns amigos meus serem despertados a meio da noite por causa do sistema, dos dias e noites que perdiam a procurar as melhores soluções, a garantirem que tudo funcionaria na perfeição. Ao fim de trinta anos é mais do que justo homenagear essa gente, a maior parte desconhecidos para a generalidade dos portugueses, que além-fronteiras deixa muita gente extasiada – não há outra palavra – com a qualidade do seu trabalho. Gente que percorre o mundo a dar cursos, em Londres, em Nova Iorque, em muitos outros locais, sempre apresentando novas soluções, dando a conhecer as que têm, e contribuindo com o seu know-how para o progresso e para facilitar a vida das pessoas, que é aquilo para que as máquinas e a tecnologia devem servir.
Os portugueses que estão habituados a viajar e os que vivem fora do país não podem deixar de ter registado o avanço das nossas máquinas e a quantidade de operações que nelas se pode fazer em pouquíssimo tempo e com a máxima segurança por comparação com os equipamentos que prestam um serviço parecido noutros países. Parecido, digo eu, porque os nossos equipamentos são mais modernos, mais seguros e realizam mais tarefas. De levantamento de fundos a transferências e emissão de cheques, permitindo a realização de pagamentos da mais variada espécie, da electricidade a custas judiciais e impostos, sem esquecer a venda de bilhetes de comboio e para espectáculos musicais, quase que diria que ao Multibanco nem falar falta porque até há gravações a recordarem-nos o que temos de fazer para o cartão ou o dinheiro não ficarem esquecidos na máquina. Centros financeiros como Tóquio ou Hong Kong não têm máquinas ATM que proporcionem serviços com a qualidade dos nossos.
O Multibanco não é a panaceia para os nossos males, mas devia ser um exemplo de como em Portugal se podem fazer coisas bem feitas e úteis que a todos servem. Ganham as empresas, ganham os bancos, ganham os cidadãos. No dia em que Portugal, a sua administração pública, o seu governo, as suas instituições, funcionarem como o Multibanco e as nossas obrigações colectivas forem cumpridas com a mesma limpeza, economia, discrição e eficiência, poderemos dizer que o país funciona bem. Não sei se algum dia esse momento chegará, nem quando, porque também não sei ler nas estrelas e não acredito em novos messias. Menos ainda naqueles que temos por aí com a cara nos cartazes. De qualquer modo, entretanto, espero que não dêem cabo do Multibanco e que alguns banqueiros, para poderem continuar a circular em topos de gama alemães e a usar o cartão de crédito nos restaurantes do Guincho, não o queiram transformar em mais uma fonte de conflito à custa dos portugueses, novos e velhos, estudantes ou reformados, trabalhadores ou desempregados, que nos centros urbanos e rurais, no litoral e no interior, dependem do Multibanco para o seu dia-a-dia e das máquinas milagrosas para tornarem os seus dias menos penosos e mais longos.


Eu vi pela primeira vez uma caixa automática de levantamento de dinheiro em 1978, na Suíça – sete anos antes de o Multibanco ter sido introduzido em Portugal. Portanto, a ideia destas caixas não é, de forma nenhuma, originalmente nossa. Acredito que o Multibanco português seja em diversos aspetos superior aos seus congéneres estrangeiros, mas a ideia original da sua criação não é portuguesa.
Colocar uma máquina dar dinheiro é fácil. Difícil é pô-la a fazer o que o MB faz com segurança. Nisso é que está a inovação e o avanço.
Até na ortografia abdicamos da originalidade, veja lá. Há quem ande por aí com uma ortografia tropical e amacacada bem ao gosto dos retornados que destruíram o País com a sua ganância banal e comezinha e transformaram isto num pasto aborrecido de copiadores de genialidades superficiais importadas dos impérios populares do Novo Mundo.
Sérgio, não dê muita importância ao dito do Lavoura – ele está sempre no “contra” e não parece saber bem do que está a falar. Por mim, concordo inteiramente consigo – tudo o que escreveu é justo. E também lamento que os que conceberam e realizaram essa pequena maravilha, estejam perdidos num imerecido esquecimento.
Li o seu post apressadamente na esperança de aí encontrar alguns nomes desses pioneiros. Eu, pessoalmente, conheci um, com quem me cruzei profissionalmente.
Não quererá o Sérgio arriscar alguns nomes, para ver se outros lhe pegam na palavra, criando condições para que se preste, a essa gente, justa homenagem.
Aqui fica o desafio.
No link ibs_multibanco/pt/documentos/Aniversario MB/2010_DOSSIER_25_ANOS_MULTIBANCO.pdf
http://www.multibanco.pt/export/sites/s
e a propósito dos 25 anos do Multibanco pode ler-se como ele nasceu e cresceu.
Obrigado, Helena.
Creio que esse link ajuda-nos a perceber melhor a importância do MB e a sua projecção.
Sergio
Justíssima análise e justíssimo tributo àqueles que trabalharam para nos permitir gozar tais benefícios!
Podemos acrescentar a via verde portuguesa, a mais funcional e exportada até para os EUA
O Multibanco baseou-se num projecto de investigadores da Universidade de Derby em Inglaterra e foi seguido de perto no lançamento das primeiras duas versões das caixas Multibanco pelo professor Richard Self e cuja tecnologia usada tanto em Portugal como em Espanha era a mesma.
O que realmente distinguiu Portugal foi centralizar numa organização (SIBS) a gestão da rede à qual todos os bancos se ligavam enquanto noutros países cada banco geria a sua própria rede sem ligação as redes dos outros bancos. Esta centralização proporcionou uma mais rápida evolução dos serviços Multibanco. Nem o sistema de pagamentos europeu(SEPA) que surgiu 20 anos se lhe equipara.
Salvo erro em 2004 em vista a Portugal o professor Richard Self ficou muito surpreendido com tudo o que se podia fazer numa caixa Multibanco.
Tem razão, também penso que a SIBS esteve na base do êxito que foi e são os ATM em Portugal.