THE RAIN IN SPAIN (My Fair Lady, 1964)
The rain in Spain stays mainly in the plain!
The rain in Spain stays mainly in the plain!
Muitas vezes menos é mais. No mundo da música também. De um trocadilho semelhante ao nosso “o rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia” pode fazer-se uma grande canção – daquelas que ficam para sempre gravadas na memória de quem as escuta.
O compositor Frederick Loewe (1901-1988) e o letrista Alan Jay Lerner (1918-1986) conseguiram este prodígio – prova suprema do inegável talento da dupla, que nos legou alguns dos maiores êxitos do teatro musicado do século XX. Com espectáculos como Brigadoon, de 1947 (que originou a película homónima de Vincente Minnelli em 1954, com Gene Kelly e Cyd Charisse), Paint Your Wagon, de 1951 (que Joshua Logan transformou em filme 18 anos mais tarde, com Lee Marvin, Jean Seberg e Clint Eastwood), e Camelot, de 1960 (adaptado ao cinema em 1967 também por Joshua Logan, com Richard Harris e Vanessa Redgrave). O sucesso de Camelot foi tão retumbante que a presidência de John Kennedy, empossado no ano da estreia da peça como inquilino da Casa Branca, passou a designar-se Camelot – como sinónimo de idealismo, heroísmo e altruísmo.
Igualmente muito aplaudida foi a adaptação cinematográfica de Gigi, com base num texto original da francesa Colette, também a cargo da dupla Lerner-Loewe. O filme, realizado por Minnelli em 1958 com Leslie Caron, Louis Jourdan e Maurice Chevalier no topo do cartaz, recebeu nove Óscares – incluindo melhor película, melhor realização, melhor banda sonora e melhor canção (Gigi). Superando assim as oito estatuetas conquistadas por E Tudo o Vento Levou (1939), Até à Eternidade (1953) e Há Lodo no Cais (1954).
Mas nenhum êxito assinado por estes dois veteranos do espectáculo norte-americano foi tão estrondoso como o da adaptação a musical da peça Pigmalião, escrita por George Bernard Shaw em 1912 e estreada em Londres dois anos depois. Em 1938, Anthony Asquith levara-a ao cinema, com Leslie Howard e Wendy Hiller como cabeças de cartaz, obtendo merecidos aplausos do público e da crítica.
Em 1956 Lerner e Loewe passaram-na ao teatro musicado, intitulando-a My Fair Lady, a partir do último verso das quadras da canção infantil inglesa London Bridge is Falling Down.
Obtiveram sucesso instantâneo e sem precedentes: a peça permaneceu sucessivamente em três palcos da Broadway entre 15 de Março desse ano e 29 de Setembro de 1962, com um total de 2717 representações – recorde absoluto à época. O disco de longa duração com as canções, editado igualmente em 1956, figurou durante cerca de um ano nos tops de vendas.
“É o musical perfeito”: assim o definiu a crítica novaiorquina desse período. Antecipando o acolhimento que o público e os críticos londrinos lhe dariam durante cinco anos e meio, a partir de 30 de Abril de 1958, quando subiu à cena no West End.
As canções do rico libretto de My Fair Lady explicam grande parte desta eufórica recepção nos palcos mais exigentes do planeta. Mas também o elenco original justificava os maiores elogios. Com o veterano actor britânico Rex Harrison no papel do excêntrico Professor Higgins, o Pigmalião, e a quase-estreante Julie Andrews no papel de Eliza Doolittle, a jovem de acento popularucho que o exigente mestre de linguística aposta em transformar em dama da sociedade bastando para tanto mudar-lhe o sotaque.
Rex Harrison não foi a escolha original dos produtores do espectáculo, que tinham pensado inicialmente no dramaturgo (e também actor) Noel Coward para aquele papel. Coward recusou. E foi ele próprio a indicar Harrison como substituto. Em boa hora o fez: não imaginamos mais ninguém capaz de dar gesto e voz ao Professor Higgins.
Oito anos depois, Jack Warner – o todo-poderoso patrão da Warner Brothers – decidiu levar My Fair Lady das tábuas do teatro às salas de cinema, convidando o experiente realizador George Cukor (1899-1983) a liderar esse empreendimento. Foi uma das produções mais caras da Sétima Arte, mas acabou por ser também uma das mais proveitosas: o sucesso dos palcos encontrou eco imediato na película, que repetia parte do elenco original da Broadway (nomeadamente Harrison como Higgins e Stanley Holloway como pai de Eliza), dando no entanto Julie Andrews lugar a Audrey Hepburn por imposição de Jack Warner, que pretendia entregar o papel central a uma estrela já consagrada em Hollywood.
Nunca saberemos como seria My Fair Lady em cinema com Julie Andrews: provavelmente o resultado não deixaria de ser excelente, a avaliar pelo seu desempenho como Mary Poppins na fita homónima produzida por Walt Disney nesse mesmo ano que lhe valeu o Óscar de Melhor Actriz de 1964. Mas a verdade é que Audrey Hepburn volta a ser deslumbrante no filme de Cukor – tal como já tinha sucedido em Férias em Roma (William Wyler, 1953), Sabrina (Billy Wilder, 1954) e Boneca de Luxo (Blake Edwards, 1961).
My Fair Lady tem excelentes canções: Wouldn’t be Lovely?, With a Little Bit of Luck, I Could Have Danced All Night, On The Street Where You Live, Get Me to the Church on Time. Ou I’ve Grown Accustomed to Her Face – espécie de solilóquio musical que Harrison interpreta falando em vez de cantar, para disfarçar insuficiências de afinação (à semelhança do que fez João Villaret, em Portugal, com o seu Fado Falado).
É difícil escolher qual delas será a melhor. Mas acabo sempre por eleger a que me parece mais original, precisamente por assentar num singelo trava-línguas que o génio da dupla Lerner-Loewe e a exemplar realização de George Cukor transfiguram num momento inesquecível da história do cinema.
The rain in Spain stays mainly in the plain. Desta frase – que não constava do original de Shaw mas já surgia no filme de 1938 – faz o professor Higgins o mais insistente meio para pôr fim à pronúncia cockney de Eliza na Inglaterra vitoriana, em que as classes sociais eram definidas pelo modo de falar.
Os exercícios fonéticos a que o Pigmalião submete a sua pupila – com uma arrogância intelectual e uma misoginia iniciais que o levam a questionar Why can’t a woman be more like a man? – acabam coroados de êxito. Eliza adquire uma dicção perfeita: já pode frequentar bailes elegantes e a selecta tribuna das corridas em Ascott sem deparar com sobrolhos carregados ou receber solenes miradas de reprovação.
Passou o teste com distinção: a mudança foi radical.
Mas o que Higgins não imaginava era que, ao mudá-la a ela, também ele mudaria muito mais do que alguma vez julgara.
The rain in Spain stays mainly in the plain: observo uma vez e outra esta cena, que já sei de cor, e não cesso de me espantar com aquilo que nos transmite.
Não me refiro à lição de pronúncia, mas à lição de bem-representar: é impossível ficarmos indiferentes a este jubiloso trio composto por Harrison, Audrey (dobrada por Marni Nixon ao cantar) e Wilfrid Hyde-White no papel do bonacheirão coronel Pickering.
Os espanhóis, impantes de orgulho pela menção ao seu país neste filme que em 1965 recebeu Óscares para melhor película, melhor realização e melhor actor principal, traduziram assim o trava-línguas: “La lluvia en Sevilla es una pura maravilla.”
Há gente que se diz cinéfila mas detesta musicais. Não entendo como é que alguém pode amar o cinema sem amar as canções que a Sétima Arte nos propicia.
Questão de verosimilhança, alegam: na vida real as pessoas não passam o tempo a cantar.
Têm razão. Se virmos bem, aliás, a chuva em Espanha não cai sobretudo nas planícies – o que tornará a tal frase-canção ridícula aos olhos dessa brigada “verosímil”.
Mas que interessa isso? A magia do cinema faz-se precisamente contra todos os catálogos de verosimilhanças. Como proclama uma das mais célebres personagens de John Ford, “quando a lenda se torna vida, imprime-se a lenda”.
The Rain in Spain é uma lição múltipla – de dicção, de inglês correcto, de diálogos exemplares, de música admirável, de alegria transbordante. Es una maravilla. Como a rara chuva em Sevilha, uma das mais secas cidades espanholas.
E quem não perceber isto não percebe nada de cinema. Nem da vida.

![my_fair_lady[1].jpg my_fair_lady[1].jpg](http://7.fotos.web.sapo.io/i/B0906d7e4/18752370_FC7PY.jpeg)
Mais uma óptima escolha, Pedro, e muitos filmes que eu adorei são aqui evocados: Camelot, Sabrina, Férias em Roma, Paint your Wagon.
Assim que esta série começou decidi rever alguns deste filmes.
Pois bem, comecei ontem com o Breakfast at Tiffany’s: de manhã li o livro (comprei-o sexta-feira nos saldos da Bertrand) e à tarde vi o filme e os extras.
Confirma-se: o final do filme é muito melhor do que o do livro, embora tenha gostado muito de ler o livro.
Foi uma boa maneira de passar um dia de muita ventania em casa.
🙂 Antonieta
O filme expurga do livro de Capote os aspectos mais sarcásticos de denúncia do “elevador social” de Nova Iorque. A Holly do filme é mais doce e menos trampolineira. São registos diferentes, ambos com a sua lógica. Eu prefiro a do filme, desde logo porque o vi muito antes de ler a novela, embora seja admirador da escrita jornalística e ficcional de Capote, de vários dos seus contos e crónicas, e até das entrevistas (há uma célebre, dos anos 50, feita a Marlon Brando), além dessa obra-prima da ‘reportagem novelística’ que é ‘A Sangue-Frio’ (‘In Cold Blood’).
Um dia hei-de fazer aqui uma série sobre a relação íntima entre livros e filmes. ‘Breakfast at Tiffany’s’ tem de figurar nessa série.
Eu também só li o livro agora, pensei que fosse mais extenso (apenas 111 págs de letras grandes, lê-se num ápice) e estava sempre a ver a Audrey e o George. Se nunca tivesse visto o filme não os imaginaria assim. Por isso gosto de ler o livro antes de ver o filme, só que nem sempre é possível.
Quanto ao My Fair Lady, vi-o em Lisboa, ainda num écran gigante (não me recordo qual) e várias vezes na caixinha mágica.
🙂 Antonieta
É, tecnicamente, uma novela. Aliás complementada em algumas edições por alguns contos. Lê-se muito bem: é uma crítica ácida de um certo meio social norte-americano.
Ainda a propósito do Truman Capote, de quem só tinha lido o ‘In Cold Blood’ e o ‘Música para Camaleões’, também comprei nos saldos o ‘A Harpa de Ervas’ e gostei imenso de o ler.
🙂 Antonieta
Um dos melhores livros de Truman Capote – que só conheço em versão brasileira – intitula-se ‘Cães Ladram’. Uma colectânea de crónicas e contos simplesmente admirável. Recomendo-a: sp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=912229&ID=928174
http://www.lpm.com.br/site/default.a
Já fui espreitar, parece bem interessante.
Talvez consiga encontrá-lo…
🙂 Antonieta
Se conseguir verá que gosta, Antonieta. Muito bom.
Aí vão as achegas:
– a rolha da garrafa do rei
– recebeu nove Óscares
– estreada em Londres dois anos depois (1914)
– Em 1938, o produtor Gabriel Pascal levara-a ao cinema. (parece-me mais correcto salientar este nome do que o do realizador: Pascal é que era conhecido de Shaw, foi quem obteve os direitos da adaptação de várias peças suas ao cinema, foi quem, depois de ter dado o controlo total a Shaw para redigir o argumento adaptado, ainda conseguiu que ele aceitasse/engolisse algumas alterações. E terá sido ele o autor do tal trocadilho, que Shaw tratou imediatamente de incluir no guião. Note-se ainda que Shaw + ajudantes ganharam o Óscar para melhor argumento adaptado. Quer o musical quer o filme de Cukor baseiam-se na peça via guião de 1938).
– do último verso de cada quadra da canção de embalar
– “para disfarçar insuficiências de afinação” ??? Ao que parece, era mesmo propositado: “The two writers had based the whole concept of the musical around the notion that Higgins was far too intellectual a character to emotionally sing outright, but should speak his songs on pitch, more as an expression of ideas”.
– “dobrada por Marni Nixon ao cantar”; embora em The Rain in Spain Audrey também participe, nas partes cantadas-faladas.
– La lluvia en Sevilla es una pura maravilla
Obrigado pela sua atenção, Sampy.
Clarifico: Gigi recebeu nove Óscares.
Nove, sim.
Pedro
Depois desta série fora de série, nunca mais digo que no DO só se fala de política!
Mal seria se em Agosto, por cá, só se falasse de política, Helena.
(obrigado pelas tuas palavras, uma vez mais)
Muito bom Pedro, como sempre.
Vi este filme quando era ainda uma criança, mas lembro-me dele ainda muito bem e em particular desta canção.
E esta série é sem dúvida a minha favorita. 🙂
Ainda bem, Isabel. Gostei muito de saber.
Este filme vi já em adulto. Jurei que haveria de o ver em cinema, mas os anos foram passando sem essa hipótese se concretizar (o facto de dever ser visto em ecrã gigante contribuiu certamente para o afastar do habitual circuito das reposições pois há poucos cinemas munidos das condições ideais de projecção). Acabei por vê-lo em vídeo, embora no formato correcto, sem as mutilações correntes neste formato (em que vemos apenas o centro das imagens originais, sendo cortada a moldura). E mesmo em vídeo é ‘una maravilla’.
Mas ainda não perdi a esperança de vê-lo em cinema.
My Fair Lady, a história da cocney Eliza que deslumbra Ascot com a sofisticação esculpida pelo seu pigmalião Higgins é estrela maior no Hall of Fame dos músicais.
Os actores pare terem sido eles próprios concebidos para os papéis, pois não conseguimos imaginar outros a interpretá-los.
Vi uma vez uma versão teatral esplêndida com o Jeremy Irons e a Kiri Te Kanawa acompanhados pela LSO, fantástico contraponto de vozes… Mas não era a mesma coisa.
Por cá tivemos a nossa versão muito em voga na altura, ” O Rei de Roma Ruma a Madrid” interpretada pela nossa Simone de Oliveira e pelo António Calváro.
Como já vem sendo habitual, esta sua décima sexta narrativa sobre as canções do cinema é um dos melhores guias sobre filmes musicais que li até agora.
E a propósito, Gigi é um dos filmes da minha vida.
Abraços.
É, de facto, uma história emblemática. Uma história imortal – tornada mais perene ainda pela fabulosa versão da dupla Lerner-Loewe a que Cukor foi fiel. Na estreia, alguns críticos torceram o nariz ao filme dizendo que faltava “espontaneidade” à representação de alguns actores – com destaque para Rex Harrison – por excesso de representação da peça no teatro. Faltou-lhes, como tantas vezes acontece, intuição elementar para perceberem que estavam perante uma obra-prima que teimaria em não passar de moda – anos fora, décadas adiante.
Uma vez mais lhe agradeço, Dulce. E fica a promessa de que não tardará o número 17 desta série.
Eu adoro cinema. Com esta sua séria, ficarei praticamente pronta para um doutoramento na sétima arte.
É óptimo conhecer o que está por detrás de grandes realizações imortalizadas pela sua excelência de conteúdos. O preciosismo com que escreve e descreve, as obras, as adaptações, as músicas e interliga tudo para nosso gaudio é de uma mestria e conhecimento impar.
Eu é que agradeço os seus textos, que só para os poder ler, ligo muitas vezes o PC ou o tablet ( que aproveito para dizer que é ortograficamente um pesadelo).
Beijinhos.
Espero que continue a gostar da série, Dulce. Pelo menos o número 17 está garantido. Depois terei de parar algum tempo por motivos profissionais que me absorverão em exclusivo no mês de Setembro.
Mas a série há-de prosseguir. Até gerar um livro. Tenho vontade disso.
I am sixteen going on seventeen,
I know that I’m naive,
Fellows I meet may tell me I’m sweet,
And willingly I believe.
Esta não será a minha canção favorita do incontornável ‘The Sound of Music’ (são todas), é apenas uma analogia com o fim anunciada desta 1a. série que tornou o nosso Agosto mais querido e musical.
Muito obrigada, Pedro, do ‘Fundo do Coração’ (outro incontornável, do FF Coppola) e bom trabalho em Setembro.
🙂 Antonieta
Muito obrigado eu pela sua simpatia, uma vez mais, Antonieta. Espero retomar a série em breve, logo verei quando. Mas fica desde já uma certeza: ‘Do Fundo do Coração’ há-de passar por cá.