CARIOCA (Voando para o Rio de Janeiro, 1933)
Say, have you seen a Carioca?
It’s not a foxtrot or a polka
It has a little bit of new rhythm, a blue rhythm that sighs.
It has a meter that is tricky
A bit of wicked wacky-wicky
But when you dance it with a new love there’s a true love in her eye.
A velha RTP a preto e branco funcionou para a minha geração como uma verdadeira cinemateca. Nunca é de mais prestar esta homenagem ao canal público.
Pelo menos três vezes por semana, durante os meus anos de infância e adolescência, vi na única televisão que tínhamos – os canais privados e o acesso à TV estrangeira por cabo não passavam de sonhos ou miragens – largas dezenas de obras-primas do cinema, incluindo Casablanca e O Mundo a Seus Pés. Graças aos programadores da RTP, numa época com muito menos meios técnicos e financeiros do que os actuais.
Hoje procuro na programação dos canais generalistas filmes que integrem o melhor acervo da Sétima Arte e só raras vezes encontro algum. Isto explica, em boa parte, o facto de ter deixado há muito de ver cinema na televisão. Vejo-o no grande ecrã, à moda antiga, nas salas que ainda se conservam em Lisboa. Salas como a do Nimas, que proporcionou a quem quisesse boa parte dos filmes de Ingmar Bergman (em 2014) e Roberto Rossellini (em 2015), entre outros mestres do cinema. Ainda há dias, no cinema Alvalade, descobri uma pérola recém-estreada, vinda da Austrália: chama-se Em Terra Estranha. É um dos mais perturbantes filmes deste ano, com um desempenho excepcional de Nicole Kidman. Dei-lhe quatro estrelas, mantendo a tradição – que conservo há décadas – de classificar os filmes a que vou assistindo. Dos três críticos de cinema do Público, como verifiquei depois, um arrasa-o com uma estrela solitária; os outros nem se deram ao trabalho de o ver…
Vem-me de miúdo esta mania de assinalar num caderno os filmes a que assistia, com a respectiva data – acrescidos do nome do realizador e dos principais intérpretes. Gosto de revisitar esses apontamentos: por vezes só através deles me lembro dessas fitas. Uma das primeiras (lá vem no caderninho) era italiana: Fabíola, com a actriz francesa Michèle Morgan.
Tinha 13 anos quando a RTP dedicou um ciclo de fim de Verão a uma série de filmes musicais produzidos pela RKO na década de 30. “Uma velharia”, pensei logo. Mas espreitei. E já não consegui desgrudar os olhos do ecrã: quem me surgia pela frente era um dos mais fabulosos pares que se juntaram no cinema. Ela, Ginger Rogers. Ele, Fred Astaire. Dançavam como se desafiassem permanentemente a lei da gravidade – pura leveza rodopiando para gáudio do nosso olhar.
O ciclo, adoptando a sequência cronológica, começou pelo primeiro filme que rodaram juntos: Voando para o Rio de Janeiro (1933), com realização de Thornton Freeland (1898-1987). Era o equivalente a uma superprodução da época, cheia de imagens aéreas da então capital brasileira com alguns dos seus ícones mais recentes – o Hotel Copacabana Palace (que abriu portas em 1923), o hipódromo da Gávea (inaugurado em 1926) e o Cristo Redentor (concluído em 1931). E com surpreendentes efeitos visuais, postos em prática por um dos técnicos mais criativos de Hollywood: Linwood Dunn (1904-1998), que dois anos antes trabalhara em King Kong.
Mas o que mais me seduziu foi a música. Ou antes: uma canção. Que no filme começa por ser dançada e só depois é cantada. O esguio Fred e a bela Ginger empolgam a assistência que enche um vasto salão de baile ao som de Carioca, criando passes com tal harmonia e garbo que até pareciam ter nascido para dançar juntos.
“Gostava de tentar [dançar isto] só uma vez. Anda”. Palavras de Fred para Ginger. Como quem diz: mata.
“Vamos mostrar-lhes uma coisa ou três.” Palavras de Ginger para Fred, numa réplica que ficou célebre. Como quem diz: esfola.
Ninguém diria que estavam longe de ser amigos na vida real. E nem gostaram de participar nesta película. Fred, então com 34 anos, era já quase um veterano protagonista do teatro musicado novaiorquino que se mudara recentemente para a Califórnia e ainda desconfiava dos méritos do cinema, onde os homens quase não dançavam. Ginger, com 22 anos, já dava mostras da forte personalidade que sempre a caracterizou: jamais se contentou com papéis secundários, como aqui sucedia.
Eles não gostaram, mas o público adorou vê-los dançar assim, de testas encostadas enquanto os corpos se moviam segundo a insólita coreografia criada de propósito para este filme, que ainda hoje – já desaparecidos todos os actores – constitui uma prodigiosa celebração da vida.
Mal imaginavam os espectadores que o autor da música, Vincent Youmans (1898-1946), terminaria ali uma bem-sucedida carreira de 13 anos na Broadway (onde compusera êxitos como Tea for Two e More Than You Know) e na Meca do Cinema: passaria os anos restantes a lutar contra a tuberculose que o vitimou. A letra de Carioca coube a um duo: Edward Eliscu (1902-1998) e Gus Kahn (1886-1941). Estiveram quase todos a ser premiados com Óscares: Carioca mereceu nomeação como melhor canção, acabando por perder para The Continental (outro tema imortalizado por Ginger e Fred, no segundo filme em que contracenaram), de Cole Porter.
Quatro décadas depois, vendo Voando para o Rio de Janeiro pela primeira vez, no pequeno ecrã televisivo, senti-me tão empolgado como as plateias que tiveram o privilégio de o contemplar em estreia nas salas de cinema. Ainda hoje vibro com aquela magnífica sequência em que Carioca electriza a sala. Ainda hoje me deslumbra o espectacular bailado aéreo final – verdadeiro prodígio técnico e artístico, cheio de bailarinas quase despidas, rodado escassos meses antes da entrada em vigor do puritano Código Hays, que introduziu rígidas regras de “moralidade” nas produções de Hollywood.
No elenco de Voando para o Rio de Janeiro, Ginger Rogers e Fred Astaire figuravam em quarto e quinto lugar (atrás de Dolores del Rio, Gene Raymond e Raul Roulien, que hoje apenas merecem notas de rodapé na filmografia norte-americana). Mas foi neles que o público fixou o olhar, atento e sabedor.
Não tardariam a ser promovidos a cabeças de cartaz: aconteceu logo no filme seguinte, The Gay Divorcée (1934). Tornaram-se estrelas da RKO, tornaram-se celebridades à escala mundial, tornaram-se símbolos perenes da dança como forma sublime de expressão artística.
Formaram par em dez longas-metragens até 1949: o cinema os uniu, o cinema os tornou inseparáveis. E às vezes ainda os imagino a dançar juntos, no aconchego de alguma nuvem, rodopiando ao som de Carioca até à eternidade.


Vi muitos filmes do Fred Astaire na televisão mas não me recordo deste.
Cinemateca para mim foi mesmo a RTP2 que, de 2a. a 6a., transmitia o programa “5 Noites, 5 Filmes” onde passava cinco filmes do mesmo realizador.
Foi assim que conheci o Hitchcock, o Bergman, o Woody Allen, o Truffaut e tantos, tantos outros.
Costumava gravá-los em VHS e depois revia-os até à saciedade.
Agora é uma tristeza: qualquer programa de índole cultural passa de madrugada.
🙂 Antonieta
Antes da RTP2, a própria RTP1 funcionou durante anos como magnífica cinemateca, Antonieta. Aí, sim, merecia a designação de serviço público.
A RTP2 também passava umas séries que eu adorava ver, como por exemplo, “Hitchcock Presents” e “Twilight Zone”, tudo a preto e branco, claro.
As séries continuam, os filmes é que acabaram ou limitam-se a um por semana.
Resta-me ver os DVD,uma vez que as salas de cinema também encerraram.
Antonieta
Acompanhei todas essas séries, Antonieta. No tempo em que chamado horário nobre não estava preenchido com telenovelas, ‘reality shows’ e intermináveis debates sobre futebol.
O meu pai nunca foi bom dançarino, por isso encantavam-lhe os passos que pareciam deslizar sem tocar o chão, os dos magos da dança.
Também sou do tempo de tardes a preto e branco, o pai no sofá, eu no chão, a mãe nos bordados e mais tarde nos arraiolos e os rapazes na gandaia… Eram rapazes, pos claro !
Que saudade dos meus pré 17 anos em que me encantava tudo o que a caixinha mágica tinha para me oferecer, antes dos meus pensamentos andarem destrambelhados e a cabeça a voar com os guedelhudos das bandas cujos pôsteres forravam a parede do meu quarto.
Lembro-me do filme, principalmente por causa da música, da dança e de pensar que o avião era a sério e que era magnificamente sustentada a leveza daqueles seres fantásticos.
The Carioca é um Must. Adoro principalmente as versões do Caetano.
Beijinhos a todos 🙂
As tardes de cinema eram mais vistas lá em casa por mim e pelo meu irmão (4 anos mais velho) bem como aquelas séries dos Sábados: Robin dos Bosques, Bonanza, Mr. Ed, O Santo, etc.
Quanto ao The Carioca do Caetano, fui procurar o CD ‘A Foreign Sound’ e não é que é precisamente a canção nr.1 das 23 que compõem este disco?
Todas fantásticas, aliás.
Obrigada pela dica, Dulce.
Beijinho.
Antonieta
Ainda bem que fala nas séries 🙂
Eu , como toda a gente, desenvolvo defesas contra o que me incomoda , contra o que não quero ouvir, contra tudo o que tenho que aturar e a paciência vai faltando…
Curiosamente, adoptei o sistema de “cantar” mentalmente o tema do Robin Hood, talvez por uma questão de justiça para comigo própria… sempre foi funcionando :):)
Robin Hood, Robin Hood, riding through the glen
Robin Hood, Robin Hood, with his band of men
Feared by the bad, loved by the good
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood
He called the greatest archers to a tavern on the green
They vowed to help the people of the king
They handled all the troubles on the English country scene
And still found plenty of time to sing
Robin Hood, Robin Hood, riding through the glen
Robin Hood, Robin Hood, with his band of men
Feared by the bad, loved by the good
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood
He came to Sherwood Forest with a feather in his cap
A fighter never looking for a fight
His bow was always ready, and he kept his arrows sharp.
He used them to fight for what was right
Robin Hood, Robin Hood, riding through the glen
Robin Hood, Robin Hood, with his band of men
Feared by the bad, loved by the good
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood
With Friar Tuck and Little John they had a roguish look,
They did the deed the others wouldn’t dare.
He captured all the money that the evil sheriff took,
And rescued many a lady fair
Robin Hood, Robin Hood, riding through the glen
Robin Hood, Robin Hood, with his band of men
Feared by the bad, loved by the good
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood
To cheating and corruption, he would never, never yield
And danger was his breakfast ev’ry day
The cobler in the hamlet and the farmer in the field
Were always helping him get away
Robin Hood, Robin Hood, riding through the glen
Robin Hood, Robin Hood, with his band of men
Feared by the bad, loved by the good
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood
He rode up to the palace and was cheered by ev’ryone
His Lady Marian threw him a rose
The King of England knighted him the Earl Of Huntingdon
And that’s the way that the legend goes
Robin Hood, Robin Hood, riding through the glen
Robin Hood, Robin Hood, with his band of men
Feared by the bad, loved by the good
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood
https://www.youtube.com/watch?v=JErQMxqv fBU
Saudades, meu Deus 🙂
Beijinho Antonieta