Acelerando o que decorria em câmara lenta, a resposta popular ao referendo na Grécia aumentou a probabilidade de Atenas abandonar a zona euro e tornou menos provável que os líderes europeus continuem a lutar contra esse desfecho. Um acordo entre as partes é ainda possível, mas parece ilusório: o Syriza dificilmente trocará a sua vitória nas urnas por cedências aos europeus e estes terão dificuldade em ratificar nos parlamentos nacionais um terceiro resgate sem as devidas contrapartidas gregas.
Através de um Grexit ou reforçando a integração, a união monetária vai mudar nos próximos meses, embora não da forma que muitos comentadores julgam ser inevitável, ao narrarem estes acontecimentos como a chacina do Minotauro: a Europa não consentirá em pagar a factura da dívida grega sem garantias de que Atenas está disposta a fazer reformas. A Grécia acumulou uma dívida insustentável e não tem condições de permanecer na moeda única mantendo a sua economia disfuncional, mas a votação reforçou o governo de esquerda, que não aceitará fazer as alterações exigidas pelos seus parceiros. Já houve dois resgates e uma reestruturação da dívida, e não será por aí que se encontra a solução mágica, pois Atenas paga 3,5% do PIB em serviço da dívida, percentagem semelhante a muitos países sem problemas. Portugal deve menos, paga 5% e por enquanto financia-se nos mercados.
Mesmo com um acordo óptimo, a Grécia regressaria em breve à protecção dos credores, entrando numa lógica de eterna dependência. Não faz sentido que países pobres como a Eslováquia estejam a subsidiar uma sociedade mais avançada que não influenciam. E manter a situação de agonia incentiva por todo o lado formações populistas anti-europeias que contestam as chamadas ‘políticas de austeridade’, ou seja, contestam as medidas de rigor orçamental que os pró-europeus exigem em troca do dinheiro dos seus contribuintes. Pagar o preço de manter a fachada da união monetária abre caminho à reivindicação permanente dos devedores, pois compensa não cumprir as regras e há sempre um referendo para contrariar as retaliações.
Por estas razões, entre outras que José António Abreu muito bem assinala mais abaixo, o resultado de ontem reforçou indirectamente as facções europeias que antes defendiam a saída da Grécia. Os gregos votaram pela ruptura e os europeus tendem cada vez mais a concordar. As próximas discussões serão provavelmente sobre se o processo vai ser controlado ou caótico. A Europa cometeu muitos erros, sobretudo perdeu tempo e não rectificou os seus lapsos, mas esta crise revela o absoluto falhanço da classe política grega. Todos os partidos mentiram aos eleitores e vimos a fuga para a frente de uma equipa que levou goleadas sistemáticas e mudou sempre para treinadores piores, sem nunca aceitar que o seu problema era a exigência elevada do campeonato onde jogava.


Clap, clap, clap!
Aplaudo este seu texto lúcido.
Só acrescento algo à sua frase: «As próximas discussões serão provavelmente sobre se o processo vai ser controlado ou caótico» – receio que as próximas discussões servirão para Tsipras esticar ainda mais a corda até que os parceiros europeus lhe peçam para sair do euro, para que ele possa depois dizer: “a EU forçou a nossa saída, deu-nos um pontapé, deixando-nos na miséria. Isto é terrorismo!”
Espero bem que o orgulho grego lhes ordene que simplesmente se recusem a essa coisa horrorosa chamada ajuda humanitária e que passem alegremente os próximos 6 meses com a comida, a energia e os medicamentos que o Varoufakis judiciosamente mandou armazenar.
Se não houver eficiência a explicar que a democracia não é isto (votar na disponibilidade de outros pagarem as opções democráticas dos gregos) danos irreparáveis podem ser dados na ainda jovem ideia de solidariedade entre povos na UE.
Os folclóricos, com alguma hipocrisia infantil espalham a sua visão legitima , mas assente em sofismas pseudo democraticos:
se fizermos a mesma pergunta aos alemaes(candidatos a pagar o alivio de austeridade na Grecia) aposto que resultado democratico ser o inverso; e igualmente a respeitar!!