A importância do nome


cronicasnofeminino,

Suponhamos que o Manel faz uma viagem. Como todas as viagens, a viagem do Manel tem algumas peripécias. O Manel arruma a viagem na gaveta mas vinte anos depois e porque se lhe atravessa ao caminho uma fotografia da mulher que o acompanhou nesse périplo lembra-se de escrever umas coisas. O Manel acha a viagem engraçada com ingredientes suficientemente intensos para tornar a estória atraente, sente-se em dívida com a mulher que o acompanhou, é atacado por uma nostalgia súbita e neste embalo envia o manuscrito da sua aventura às editoras. O Manel, coitadito, é apenas o Manel, sem apelido, padrinhos, amigos, alguém que dê uma palavrinha a alguém, um toque só para ver se pega e, por conseguinte, tempos depois começa a receber cartas das editoras. Que não se enquadra nos critérios editoriais, que não podem encarar a respectiva publicação, que não são a editora indicada para a apreciação de narrativas curtas, que têm a programação editorial muito preenchida. O Manel arruma os manuscritos na estante, outros rasga-os furiosamente e coloca-os com grande dever cívico no ecoponto azul e outros oferece com uma dedicatória aos amigos, em tempo de crise há que poupar nos presentes. E partiu à sua vida. Ora se o Manel de chamasse, digamos, Miguel Sousa Tavares tinha o assunto resolvido e podia publicar este novo género de quase romance, a tal narrativa curta, contando uma das suas aventuras ao deserto com uma mulher com quem aparentemente teve um relacionamento amoroso e que morreu entretanto. No teu Deserto é apenas isso: um devaneio, sem grande qualidade de escrita. O texto está cheio de lugares-comuns, a noite estrelada a tempestade da areia, o desenrascando luso, o silêncio do deserto, uma mulher convenientemente loura que já se sabe resulta muitíssimo bem em países árabes como moeda de troca por cáfilas de camelos. Muito inferior a Sul, Não te deixarei morrer David Crockett ou a Equador, o livro não traz qualquer novidade. Servirá apenas o voyeurismo dos leitores e ocupará uma boa parte de uma lânguida tarde estival, há sempre que não goste de leituras pesadas no Verão. Miguel Sousa Tavares já mostrou que é capaz de bem melhor. No teu Deserto só viu a luz do dia porque o seu autor é quem é. Se fosse o Manel, por exemplo, nunca passaria da intenção e muito bem.

25 comentários em “A importância do nome”

      1. Como disse atrás, é apenas por qualquer motivo que nao fico admirado. Acontece na vida encontrar quem se deite à sombra dos primeiros alvores da fama e depois passe o tempo a fingir que cresce. Tenho medo de ser injusto, mas descubro no caso o que me parece ser um percurso descendente típico.

  1. Eu não gosto especialmente da escrita do MST. Parece-me sempre demasiado áspera, sem que se justifique essa aspereza.
    De facto, é uma enorme infelicidade que haja excelentes autores cujas obras nunca conhecerão a publicação, e que o público nunca terá o prazer de ler. Esse é um drama (literariamente falando, bem entendido) transversal à História, transversal a todos os países e do qual não nos livraremos nem com a criação de editoras de série B (também cada vez mais escassas).
    E sim, é a tal importância de se chamar assim ou assado – aí esteve a Leonor Barros muito bem -, mas não somente.

    1. A questão aqui nem é tanto o anonimato do qual nunca saem potenciais autores, é antes a edição de um livro que é desinteressante e não muito bem escrito. Parece-me que há um aproveitamento claro do nome do escritor. Há muita gente que compra o livro pelo nome do autor, eu faço isso com o Mia Couto ou o Agualusa, por exemplo. Neste caso, e depois de ler o livro, sinto que é quase uma pequena traição a quem considera MST .

  2. Também eu acho que o MST escreve bem. Gostei do Sul, do Menino do Rio, do Não te deixarei morrer, David Crockett e do Equador. Do Rio da flores não gostei especialmente. Li-o. ‘No teu deserto’ ainda não li.

    Lamento que assim seja, Leonor. É que, convenhamos, ele também é giro mas, se lhe começa a falhar o talento, não poderá entrar na lista! :))))

    [Ok, já foi mais giro, eu sei… ]

    1. Que certeira, Maria do Sol!!!! A escrever assim falta-lhe o talentoso :))))

      Não li o Rio das Flores, mas gostei dos outros, embora ache que Equador é um misto de viagens e de romance. São Tomé está muito bem descrito.

      1. Li o equador e gostei muito e acompanhei a série por isso mesmo…Em tempos eu própria tentei escrever um livro mas ao 4º capitulo a historia já estava contada…lol..fiquei-me pela poesia.

  3. Gosto muito de ler Miguel Sousa Tavares, gostei de todos os livros já aqui citados ( incluindo Rio das Flores), mas a a excelente análise que a Leonor faz não me surpreende. Na verddae, mesmo tendo comprado o livro há dias,nao esperava grande coisa. Temi, desde o princípio, o que a Leonor conclui: só foi publicado por ter a assinatura do Miguel. No entanto, não é por isso que ele deixa de ser talentoso…
    Sei que há quem o compare com o Dumbo, mas isso é uma injustiça. Os livros do Dumbo são intragáveis, não acha?

    1. O livro lê-se muito bem, Carlos, li-o numa tarde por acaso, estava à mão de semear e li-o. Numa coisa concordo, não é por o livro ser abaixo das suas capacidades como escritor que ele deixa de ser talentoso e até tive a sensação de que se o texto estivesse mais bem trabalhado o resultado seria bem melhor e ao nível do que nos habituou.
      Já me ri com o Dumbo , Carlos. Nunca li nada dele, não posso opinar.

      1. Dele só li o Rio das Flores e foi uma decepção. Esperava muito mais de alguém que como cronista e repórter sempre gostei muito de ler. Tenho o Sul em casa há anos. A ver se lhe pego um dia destes para ver se concordo contigo, Leonor. Quanto ao que afirmas sobre a importância dos nomes não tem discussão. É assim e assim será… e quanto mais pequenos são os burgos, pior.

        1. Como não li o Rio das Flores é capaz de ser atrevimento meu pensar que ele é melhor cronista do que romancista mas começo a achar que sim, Teresa. O que me irrita neste livro não é tanto os outros não publicarem porque não têm nome, é mais ele publicar aquilo apenas porque é quem é.

          1. Pois apesar de só ter lido Rio das Flores arrisco a dizer que ele é melhor cronista que romancista. Quanto ao que te irrita, o que dizer? Para as editoras vender livros de figuras públicas é negócio e para os autores é sempre bom para o ego…

        2. O Rio das Flores peca por mais umas duzentas páginas. Vê-se que ficou o trauma dos erros históricos em “Equador”, e por isso MST encheu páginas e páginas com explicações circunstanciais, como se se tratasse de um livro de história resumido; e não só, até de jogos de cartas e práticas tauromáquicas ele consseguiu ser pouco sintético, e nem assim escapou a uma crítica afiada de Pulido Valente (embora a meu ver muito ressabiada).

          O Sul é muitissimo melhor, um óptimo livro de Viagens, em especial a primeira, à Amazónia.

    1. O Dumbo é o gajo; aquele tipo que tem o irritante hábito de (tentar e mal) pronunciar nomes estrangeiros usando a pronúncia da respectiva língua estrangeira…

  4. Eu estou quase como a Teresa Ribeiro, tenho em casa o Sul há anos foi-me oferecido e nunca lhe peguei. Só li o Equador, achei a história bem conseguida, embora nalgumas partes pareceu-me que ele facilitava um pouco a coisa e que deveria ter sido mais exigente, trabalhado mais… Não me admiro nada com essa sua opinião, Leonor, sobre este ultimo livro.

  5. Por acaso já li. E com aquela letra enorme, é mesmo um ápice (bom para dar às nossas mães/avós!)
    Li e fiz um raciocínio parecido: quando se está lançado, aguenta-se o estigma de um escrito de ocasião. Sabemos que o fenómeno não é nada original (ainda há poucos dias pensei isso mesmo a propósito da Sagan ).

    Só não concordo com uma coisa, francamente ( e isto se bem percebi) : – não acho nada que a editora tenha aceitado publicar o livro por MST ser alguém com apelido, patronos e amigalhaços… (por oposição ao
    ” Manel , coitadito, apenas o Manel , sem apelido, padrinhos, amigos ” ).
    Acho que a editora aceitou porque é esperta e sabe lindamente que o autor vende muito bem! Não lhe terá feito exactamente um favor… convenhamos realisticamente 🙂
    Mesmo que o sucesso seja menor ( e será); mesmo que o autor não empenhe as barbas pela produção; o certo é que cada um arrecadará à sua maneira.
    E até o timing comercial está perfeito: – é uma boa leitura de praia… para quem não quer estragar na areia aquele livro de grandes expectativas que guarda para ler nos fins de tarde, estirado na rede ou num sofá do jardim:-)

    PS- minha nossa, que mal lhe tem feito o Brasil, aquela cara ficou definitivamente em obras… 🙂

    1. O negócio é fulcral nesta e noutras situações semelhantes, Chloé. Infelizmente. A literatura devia estar acima do mero lucro comercial. A questão que levanto é que se fosse alguém sem nome o livro não seria publicado por falta de qualidade e muito bem. Parece-me óbvio que aqui o que prevalece acima de critérios de qualidade que considero absolutamente fundamentais são critérios de interesse comercial aproveitando o nome de Miguel Sousa Tavares. Se fosse o manel a publicar um livro daqueles ninguém o comprava. Assim muitos comprarão talvez na esperança de que seja aquilo a que Miguel Sousa Tavares nos habituou. Não é.

  6. Ó Leonor, isto já não é nada de novo e já nos finais do Séc. XIX o Oscar Wilde publicou o ‘The Importance of Being Earnest’. Isto não há nada como ter um nome sonante e, como a mulher de César, parecer sério… e o Manel, coitado, por muito bem que escreva, nunca há-de ser lido por ninguém…
    Lá está, é ‘A Importância de se chamar Miguel’…

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