Os trabalhos de Costa


Rui Rocha,

Quando afastou Seguro, António Costa tinha quatro questões essenciais para resolver. As duas primeiras diziam respeito a condicionantes específicas do contexto político interno do PS: posicionamento a assumir relativamente à última experiência governativa socialista e  necessidade de renovação geracional do partido. A terceira e a quarta implicavam a definição de uma visão estratégica no que diz respeito a dois aspectos dominantes e transversais introduzidos na discussão política dos últimos anos: austeridade e regeneração do poder. Na prática, a afirmação de uma liderança credível dependia da capacidade de Costa de assumir uma posição clara relativamente a José Sócrates e à facção que lhe continua fiel no PS, de promover internamente novos quadros e figuras socialistas, e de esclarecer sem lugar para dúvidas o seu entendimento sobre as propostas políticas do SYRIZA (porta-estandarte da luta contra a austeridade) e do PODEMOS (protagonista à esquerda do discurso contra a casta). Pois bem. Ao longo dos meses em que exerceu a liderança do PS, António Costa não conseguiu distanciar-se de Sócrates e dos desmandos da sua governação, não soube confinar a facção socrática dentro do partido, escolheu velhas figuras do PS como Ferro Rodrigues para cargos relevantíssimos de representação institucional, ziguezagueou a propósito do SYRIZA acabando por, ao que parece, estacionar numa espécie de austeridade mitigada (um socialismo de gravatinha e bem-comportado por oposição ao estilo radical de Tsipras e Varoufakis) e alinhou claramente com o PSOE, isto é, com a casta que o PODEMOS diz combater. Com esta gestão, Costa hipotecou as suas hipóteses junto do eleitorado moderado, ainda queimado pela governação de Sócrates, desbaratou o capital político que lhe podia trazer uma renovação geracional que é impossível de concretizar às costas dos Ferros Rodrigues socialistas, desiludiu potenciais eleitores da franja mais à esquerda não assumindo nenhuma das duas propostas políticas que podiam trazê-los para a órbita do PS. E, se atentarmos bem, não é só a aliança à direita que apresenta uma inesperada resiliência face a todas as dificuldades que o país atravessou. À esquerda, o Bloco parece ter encontrado, agora, um novo fôlego (sobe de 4% para 8% na sondagem da Católica ontem divulgada). A reflexão que Costa tem a fazer não é, portanto, sobre o valor que podem ter as sondagens. É, sobretudo, a de saber se, pelo que fez até ao momento, merece mais do que as intenções de voto que estas lhe atribuem. 

0 comentários em “Os trabalhos de Costa”

  1. Além de tudo isso, foi atrás de Soares, Sampaio e (infelizmente) Eanes e anda por aí acompanhado de um impensável candidato a PR, a quem, como se tem tornado óbvio, quando abre a boca só saem frases ocas e despropositadas.

  2. A sua análise, com a qual concordo em alguns pontos, esquece um vector fundamental no quadro que hoje vivemos em Portugal e no mundo (já lá vou).

    A subida do Bloco assim como a do PCP não constitui qualquer novidade no panorama político nacional. Aliás, o PCP já se vinha afirmando em subida sólida desde há algum tempo.
    Mas o BE, como tive oportunidade de referir num post de Luís Leitão, após o desaparecimento de dois portentos políticos de sua actividade – Louçã, um visionário, e Miguel Portas, um Coração com inteligência e cultura -, estava a superar o luto e necessitaria de tempo para que os novos líderes fossem assimilados e aceites pelos eleitores. Isto concretizou-se.

    Regressando agora a temática inicial. O que está em causa e a julgamento é o actual desgoverno. Sócrates afirmou, e eu parafraseio-o: “Eu sou o líder que a direita gostaria de ter”. Esta afirmação foi uma precognição de Sócrates que se vê hoje concretizada.
    Quem não soube fugir ao carisma de Sócrates em matéria de política e de governação foram precisamente PSD/CDS. De tal forma assim é, que um dos mentores desta coligação, o Presidente da República, vem reconhecer publicamente condecorando um ministro do governo Sócrates. Significa isto que condecorar o ministro de Sócrates é o mesmo que dizer que o PSD/CDS aceitaram e assumiram as políticas de Sócrates e, mais ainda, assumem também que quem governou Portugal nesta legislatura foi Cavaco Silva, e mal.

    Portanto, Costa é um homem de tácticas e tem gerido o silêncio em torno da Grécia porque deseja encontrar parceiros por esta Europa, incluindo os socialistas ou sociais democratas alemães, que o ajudem a concretizar as reformas europeias que PSD/CDS não desejam.
    De tal forma não desejam que já vimos Passos sair a público a gritar pela expulsão da Grécia da zona euro.
    Este grito, associado ao grito do PR na visita à Bulgária, só nos indica que ambos estão conscientes que perderam e que sua voz na Europa não só não passou de um som ao serviço dos alemães, e quando refiro ao serviço dos alemães refiro-me aos interesses das entidades financeiras alemãs representadas por Schauble, como também que eles já se deram conta que foram usados e que a situação da Grécia é resolvida não pelo Eurogrupo mas por quem domina e governa esta instituição.

    Concluindo, desviar as atenções desta verdade e atirá-la para cima do PS de Costa é enviesar a realidade apocalíptica a que nos conduziu PSD/CDS pelas mãos do PR.

        1. De pequerruchinhos é do que tu gostas…

          Se não fosses BURRO, tinhas reparado que 20:10 são oito horas e dez minutos da noite.

          1. Ó camelo, filho da pouca sorte, tens de perguntar ao teu neto se as 20H10 ou 8H10 do dia 21-06 correspondem à segunda-feira dia 22-06.

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