Partir os dentes aos burocratas do Festival da Canção


Rui Rocha,

O tema da austeridade tem polarizado a discussão política em Portugal. Todavia, um outro igualmente relevante tem ficado, estranhamente, na sombra. Na verdade, se não faltam pungentes chamamentos que sublinham a necessidade de fazer frente à Europa para derrotar as políticas austeritárias (é ver os vibrantes discursos de Sampaio da Nóvoa, de António Costa e dos protagonistas à esquerda, em geral), poucas ou nenhumas vozes se levantam para exigir uma mudança à Eurovisão. E se há matéria em que temos sido humilhados, enquanto Nação, ano após ano, é a do Festival da Canção. Ora isto não é, não pode ser, um fatalismo. O desafio é enorme, mas o estado de coisas pode ser mudado. Aqui, como no tema da austeridade, existe um problema técnico que deve ser resolvido. Se é verdade que a própria configuração da Zona Euro e dos mecanismos da moeda única são, por natureza, desfavoráveis aos países periféricos, exigindo-se medidas que contrabalancem as ineficiências estruturais da União Monetária, é igualmente certo que as regras do Festival da Canção são completamente inadequadas à realidade portuguesa. Para melhor percebermos do que aqui se fala, recorro ao enquadramento teórico das vantagens competitivas de Porter: o que determina a capacidade competitiva de um país não é o que o país produz, mas o quão sofisticado e produtivo é esse país a fazer o que faz. Ora, o problema é que nós não somos competitivos a fazer concursos. As coisas são o que são e os concursos não são a nossa praia, lá está, não são a nossa zona de conforto. Urge, portanto, uma proposta política que ponha as pernas a tremer aos senhores da Eurovisão. Uma voz que exija mudança, que ameace partir os dentes aos burocratas do Festival da Canção. Queremos ser felizes, queremos ver as nossas canções cantadas por essa Europa fora, queremos boas pontuações. E queremos vitórias. Deus, como queremos vitórias. É assim imperioso que o Festival da Canção, tal como o conhecemos, seja substituído de imediato por um modelo com regras novas, adequadas à nossa realidade. É preciso que o actual sistema de concurso dê lugar a um outro em que somos absolutamente proficientes e em que temos cabais provas dadas de capacidade competitiva. Falo, naturalmente, de substituir, de forma irrevogável, o concurso pelo ajuste directo.

0 comentários em “Partir os dentes aos burocratas do Festival da Canção”

  1. Lá está o RR a mudar as regras do jogo.
    Há uns anos tentaram todas as fórmulas no Hóquei em patins mas o FC Porto conseguiu chegar ao Decacampeonato.
    Desta vez foi no Andebol, com um play-off porque a fase regular era chata e acabava depressa (o FC Porto venceu todos os jogos da 1ª volta, inclusive em Odivelas), mas não impediu ontem o Heptacampeonato.
    Vão tentando. Os socialistas também.
    E a Eurovisão? Quem ainda vê isso já deve ter pelos nas palmas das mãos…

    1. O que tem a ver o comentário comas vitórias do seu clube?
      Porque não destaca também as derrotas?
      Será por causa da azia?
      Vá tratar-se!!!

  2. Tem toda a razão. Poder-se-ia pedir ao PS que gizasse um programa para o efeito – ganhar o festival da canção -, ou, ao menos, encarregar aquelas doze cabeças de apresentarem um projecto com esse objectivo. Se for necessário, ofereço os meus préstimos.

  3. Brilhante; mas a realidade vai como sempre desdizer os seus desejos. Pevejo que os meus colegas eleitores vao dar a vitoria aos que nos levaram as bancas rotas até hoje.

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