Patrícia (permita-me assim o trato), por falar em princesas, deixe-me falar de outras:
«bairro de barracas de lata sobre o rio que corre ali perto, Tejo. em baixo hortas e sebes. dormiam os cinco filhos com os pais numa das divisões, havendo outra com serventia de cozinha, onde comiam. à noite o pai chegou cambaleante. a mãe, vestindo trapos que não aqueciam as ressequidas carnes, aguardava ao canto da chaminé cosendo meias velhas. ao ouvir os passos do marido abrindo bêbado como sempre a pequena cancela do quintal, levantou-se e foi esperá-lo. só a força da fome lhe dá ainda forma de assim se endireitar, tão agressiva, tão firmes na cintura as mãos pacíficas: badameco, desgraçado, farrapo miserável, cara de carago, mal te aguentas no badalo, fizeste-me seis filhos e agora que me amole. ele chegou à porta e parou para se amparar, a mulher detém-no parecendo forçá-lo a equilibrar-se: ou queres que as tuas filhas vão prà vida como a mais velha foi, queres? (…)»
in: FARIA, Almeida, 1943 – Rumor branco. 5ª ed., rev. Lisboa : Assírio e Alvim, 2012. p. 73
Patrícia (permita-me assim o trato),
por falar em princesas, deixe-me falar de outras:
«bairro de barracas de lata sobre o rio que corre ali perto, Tejo. em baixo hortas e sebes. dormiam os cinco filhos com os pais numa das divisões, havendo outra com serventia de cozinha, onde comiam. à noite o pai chegou cambaleante. a mãe, vestindo trapos que não aqueciam as ressequidas carnes, aguardava ao canto da chaminé cosendo meias velhas. ao ouvir os passos do marido abrindo bêbado como sempre a pequena cancela do quintal, levantou-se e foi esperá-lo. só a força da fome lhe dá ainda forma de assim se endireitar, tão agressiva, tão firmes na cintura as mãos pacíficas: badameco, desgraçado, farrapo miserável, cara de carago, mal te aguentas no badalo, fizeste-me seis filhos e agora que me amole. ele chegou à porta e parou para se amparar, a mulher detém-no parecendo forçá-lo a equilibrar-se: ou queres que as tuas filhas vão prà vida como a mais velha foi, queres? (…)»
in: FARIA, Almeida, 1943 – Rumor branco. 5ª ed., rev. Lisboa : Assírio e Alvim, 2012. p. 73
De António, gosto tanto de Almeida Faria:) Bom fim de semana