Schopenhauer: O Mundo como Vontade e Representação
Agora que penso nisso, não percebo muito bem por que razão Charlotte Rampling diz a Woody Allen, em Stardust Memories, não compreender nada do livro de Schopenhauer que vem lendo na praia. Talvez a personagem estivesse a usar de ironia. Ou talvez pensasse que filosofia é incompatível com sedução. Um pouco como a gestão de empresas, olhe os nossos gestores de topo, quão garbosamente eles juram que não entendem um quark do assunto.
E no entanto, Schopenhauer dedica parte substancial de O Mundo como Vontade e Representação a insultar outros filósofos, com Hegel à cabeça; o espaço que sobra, gasta-o queixando-se de ter um véu cobrindo-lhe as realidades e de como isso é chato e o impede de arranjar namorada. Se isto não é entretém.
Sublinharei todas as frases em que Schopenhauer insulta alguém. Pela penetrante mensagem filosófica que elas contêm, é claro, mas também porque isso me fornece deixas para quebrar o gelo em reuniões de condomínio. Por exemplo:
“Tornou-se o ponto de partida adequado para o ainda mais imbecil nonsense do desastrado e estúpido Hegel.”
Que tal? Olhe este para quando se estiver a discutir o Relatório e Contas e alguma bestinha se atrever a notar que o honestíssimo leitor deve cinco anos de condomínio:
“(…) a filosofia é reduzida a um simples processo combinatório, uma espécie de contabilidade que (como qualquer contabilidade) emprega e exige apenas as mais baixas faculdades. Dela resulta, por fim, um mero malabarismo com palavras, do qual o exemplo mais chocante é o oferecido por esse hegelianismo demolidor de intelectos, no qual é conduzida ao nível do mais puro nonsense.”
Na eleição de um novo administrador, um três-em-um:
“Fichte é o pai da filosofia do logro, do método sem engenho que, através da ambiguidade no uso das palavras, de linguagem incompreensível e de sofismas, procura enganar, e tenta impressionar assumindo ares de importância; numa palavra, a filosofia que procura confundir e ludibriar todos aqueles que de facto desejam aprender. Depois de Schelling ter aplicado este método, ele alcançou o seu auge, como todos sabem, em Hegel, em cujas mãos se converteu em puro charlatanismo.”
E ainda:
“Na Alemanha era possível proclamar Hegel como o maior filósofo de todos os tempos, um charlatão repulsivo e estúpido, um escrevinhador de nonsense sem paralelo (…)”
Neste ponto a coisa começa a tornar-se num nadinha repetitiva, mas quer melhor para uma leiturazinha de praia? Eia, agora fiquei com o livro todo riscado.

Ora… e quem quer livros sem um vinco, uma marca, um risco, uma anotação; intocados? Só se for daqueles a metro, em “luxuosa edição” a fingir pele e com impressão a dourado na lombada, para compor a estantezinha lá da sala – naquele espaço sob a última ceia (ou os cavalitos a galopar, ou a criancinha de lágrima ao canto do olho) – entre a “box” com os canais da TV Sport e o prato com o emblema do clube.
Talvez algum condómino seu? Ou vários?
Costa
Infelizmente, Costa, a última coisa que discutimos nas confrangedoras reuniões de condomínio é literatura (se bem que nas mãos certas o que discutimos daria literatura, e do mais alto nível).
Bem sei, bem sei quanto são refrescantes e intelectualmente estimulantes as assembleias de condóminos. Já não bastam a hipotecazinha e os caprichos da Euribor (vá lá que anda benigna por estes tempos) que condicionarão longos anos e em boa medida as nossas vidas, ainda há que suportar esses encontros e custos regulares. E depois ainda vem o IMI.
Quanto ao resto, devo-lhe um pedido de desculpas: tanto me alonguei em torno das estantes de vistosos livrinhos jamais lidos que nem o felicitei por um texto verdadeiramente brilhante.
Ah, mas não o deixo sem uma acusação: considero-o responsável, e não por este seu texto, entenda (mas ele há outro, mais acima), pela minha próxima retoma da leitura de The Life and Opinions of Tristram Shandy , Gentleman e tudo o que isso perturbará. É que o deixei a meio – ou coisa próxima – há uns tempos, pressionado por outras leituras que ansiava consumar. E vem você agora, qual verdadeiro Jiminy Cricket (seja: Grillo Parlante , que é mais selecto e não corre o risco de ofender convicções religiosas) apontar-me essa falta e alterar-me as prioridades na lista de leituras.
Uma confusão, creia…
Costa
Muito obrigado, caríssimo, e fico feliz por saber que vai regressar ao Tristram Shandy. Quem dera a mim ainda ter meio Sterne para ler. Abraço
Esse é dos bons,excelente Bandeira.E serve para injuriar o vizinho de toldo que catrapisca a semi-deusa na toalha em frente.Talvez Kierkegaard,mais melancólico,mas com a garantia de com eles não conquistar ninfas quanto mais deusas.
tiudózio
Pode ficar sem L o fiósofo.Tal como fica sem praia e só com o terraço lá no alto da torre condomínica.E como almofadinhas de cabeça(cuja reciclagem a mulher não permitiu)o Anti-Duhring e o Materialismo e Empiriocriticismo.Contêm apreciações ao nível,se não superior,do temor e tremor,mas ainda não experimentei com os vizinhos.
Temor e Tremor, ora aí está um da minha lista de recensões (olha, o corrector ortográfico do Sapo não conhece “recensões”). Quanto ao seu travesseiro, fiósofo, acho-o sumamente ortopédico. Um abraço!
Excelente, Zé. Entrada directa na Antologia do Delito.
(By the way, a Praia é uma das “minhas” praias. Espero voltar lá em breve, para banhos intermináveis e repastos ainda mais demorados no Búzio ou no Caniço…)
Obrigado, Pedro.
Banhos Intermináveis e Repastos ainda mais Demorados, ora aí está um clássico que apetece ler!
Mas lamento ter de te informar de que tenciono publicar um destes por dia, até ao total de 100 ou à expulsão do blogue, o que ocorrer primeiro.
Fazes muito bem, meu caro. Mesmo sem indício de “expulsão” no horizonte. A propósito: lá mais em cima, quando escrevo Praia, queria escrever Prainha. Com sufixo diminutivo mas maiúscula, aparente contradição desfeita pela brandura dos nossos costumes, bem à portuguesa.
Haha fui lá pelo contexto, como no acordo ortográfico, amigo.