Entre outras passagens fantásticas, encontrei num livro a referência a uma das mensagens mais antigas da humanidade. Não há ali grandes ideias filosóficas nem se trata de um testemunho incrível sobre o passado, nem sequer de algum poema sublime. Numa simples tábua de argila cozida pode ler-se, em escrita cuneiforme, o seguinte texto: “29086 medidas cevada 37 meses kushim”. Segundo a interpretação dos peritos, no documento diz-se que foram recebidas 29086 medidas de cevada ao longo de 37 meses, segue-se a assinatura do funcionário. Assim, Kushim seria contabilista sumério e um dos primeiros nomes registados pela História. Ele anotava cuidadosamente a colecta de impostos obtida há 5 mil anos na cidade de Uruk, mais tarde engolida pela areia do deserto iraquiano.
De uma civilização posterior da mesma região, a Mesopotâmia, foram entretanto destruídos no museu de Mossul artefactos com mais de 3 mil anos, para efeitos de propaganda do grupo extremista Estado Islâmico. Como se refere aqui, entre as estátuas destruídas havia reproduções, mas também objectos assírios originais, perdidos para sempre. O Estado Islâmico vende antiguidades no mercado negro, para comprar armas, e deverá estar a preparar novas atrocidades, visando corpos em carne e osso, pois entretanto capturou centenas de reféns cristãos.
Daqui a cinco mil anos talvez não sobre muita coisa do nosso tempo e seria bem estranho que, perante esse improvável vazio, se encontrassem por sorte apenas as sensacionais imagens de uns loucos a destruir estátuas antigas, sem motivo aparente, ou a mensagem enigmática de algum funcionário das finanças a contabilizar a receita do IVA. Alguém iria concluir que éramos assim: escaqueirávamos museus e cobrávamos impostos.


Apagar a memória é destruir o presente e o futuro.
“Alguém iria concluir que éramos assim: escaqueirávamos museus e cobrávamos impostos.”
A história terá dessas coisas: reduzirá a uma nota de pé-de-página , ou – vá lá – um obscuro capítulo menor, acontecimentos que devastaram a vida de muitos. E generalizará abundantemente, claro.
De mim, de muitos de nós, esperemos que não diga que escaqueirávamos museus. Não o fazemos e magoa a ideia de que seja isso o que de nós fique. Por estas paragens ainda não mandam as hordas que o praticam, embora o tratamento que recebam – a começar da parte de quem os deveria preservar – não seja manifestamente o melhor (as opções em matéria de obras públicas e construção civil foram e são, digamos, outras). Nem o tratamento nem o interesse do povo: não é preciso ser-se radical muçulmano para detestar a cultura (embora estes o exteriorizem com o selvático empenho próprio do fanatismo armado).
Quanto aos impostos, resta esperar que quem se dedique ao estudo do tempo actual conclua que, mais do que cobrar apenas impostos (como função do estado e natural sinalagma da uma boa actuação do estado), eles os cobravam com impunidade e ganância feudais e o que deles faziam era muitas vezes crime: quando não pelo valor, pelo destino. Crime mais do que impune, legalmente protegido.
Costa
A destruição, infelizmente, também faz parte da natureza humana!
Por exemplo, mais bem perto de nós, o que desconhecemos das civilizações ameríndias (maias, aztecas, etc.) por terem sido queimados / destruidos escritos e artefactos pela Inquisição espanhola? Ou mesmo em Portugal, quantos escritos originais se perderam nos autos-de-fé da Inquisição, por via da censura, seja ela salazarenta ou outra qualquer, ou da incúria?