Já passámos por isto


josegomesandre,

 

Ao assistir ao entusiasmo grotesco com que alguma imprensa noticia os casos de Gripe A, pergunto-me com frequência se há ainda um resquício de consciência histórica nesta nossa perturbada sociedade. É que por vezes dá a ideia de que a humanidade nunca se confrontou com epidemias, e que a doença não faz parte deste mundo que habitamos. Nessa altura, lembro-me de uma cartinha enviada por Thomas Jefferson a James Madison, em 12 de Setembro de 1793, quando a febre amarela consumia Filadélfia:

"A febre espalha-se. Há agora cerca de 30 mortes por dia. A febre está em todas as praças da cidade. Todos os que podem fogem. A maioria dos postos de trabalho estão fechados ou a fechar. Os bancos encerram hoje. Todos os meus secretários deixaram-me excepto um, pelo que não posso continuar a trabalhar. Vou por isso partir daqui a três ou quatro dias, e talvez o veja em breve. Hamilton apanhou a febre, mas está a recuperar e dizem que está fora de perigo. Melhores cumprimentos, TJ."

Doenças, pânico, epidemias. Uns morrem, outros recuperam. Nada disto é novo, nada disto nos devia surpreender. Mas como dizia uma outra grande figura histórica, "Aqueles que não conhecem a história estão condenados a revivê-la".

[Quadro: O Triunfo da Morte, de Pieter Brueghel, ca. 1562]

9 comentários em “Já passámos por isto”

  1. Gosto em particular desta soma de números feita pelos média:

    Registam-se 71 casos confirmados.

    Esqueceram-se de dizer que neste momento só meia dúzia está em quarentena a tomar medicação. Dois ou três em observação e todos os outros já foram tratados ao longo do tempo, estão em casa e já na sua vida normal.

    Imagino que continuem a somar, lá para Dezembro teremos números impressionantes.

      1. Sim, pelas contas da Srª. Ministra, esta pandemia lá para o Outono, poderá atingir um quarto da população portuguesa(!!), pelo que já fez saber que se encontram encomendadas 2,5 milhões de vacinas! Cá para mim tenho a impressão de que esta ‘pandemia’ se está a transformar numa ‘paranóia’ e que, à custa disso, alguém (dos suspeitos do costume, é claro) vai encher os bolsos com mais esta loucura que, mais uma vez, também, todos vamos pagar.

        1. Acho que as pessoas nem medem bem o que dizem. Falar em 2 milhões de infectados como se nada fosse prova bem o que se pensa de tal afirmação. Porque das duas uma: ou essa hipótese é real – e estaremos perante uma crise económica e social de gravidade ASSUSTADORA, ou é conversa para encher chouriços em período pré-eleitoral.

    1. Obrigado pelo comentário, caro Daniel. Sinto uma grande revolta pelo tratamento jornalístico deste caso, e talvez uma das piores coisas seja justamente essa enumeração “cumulativa”. Portugal “já tem 80” casos, dizem. Mas que estupidez, quando sabemos que 65 ou 70 já recuperaram…

  2. Percebo bem o teu ponto. Quando viajei pela primeira vez para o Oriente, nos anos 70, vacinei-me contra a varíola e a febre amarela, duas doenças hoje praticamente erradicadas (uma delas saiu mesmo do mapa da OMS). Em apenas 30 anos.

    1. É bem recordado, Pedro… O que me espanta neste caso é o 8 ou 80. Parece que a humanidade nunca enfrentou doenças, e que nunca ultrapassou nenhuma… Que tudo isto é “surpreendente”. Não é. Talvez dê jeito, mas não é. Um abraço!

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