O novo hino europeu.


Luís Menezes Leitão,

 

Não sei se haverá alguma federação de Estados no mundo que aceite submeter-se aos ditames de um único Estado. Ninguém nos Estados Unidos admitiria que o Estado de Nova Iorque passasse a mandar na União, e muito menos os brasileiros permitiriam que o Estado de São Paulo decidisse assumir a liderança do Brasil. Na Europa, no entanto, assiste-se descaradamente a uma assunção da liderança da União Europeia pela Alemanha, por vezes com o apêndice francês, como se viu em Minsk, o que pelos vistos gera inúmeros apoios. Apenas os pérfidos eurocépticos não aceitam o natural direito da Alemanha a mandar na Europa e escandalizam-se estranhamente com os actos de vassalagem a um Ministro alemão, quando ele está a ser contestado no seu próprio governo. É altura de acabarmos com o horrível eurocepticismo e passar a cantar loas à grande liderança prussiana, tão bem representada por Angela Merkel. Vamos passar todos a entoar a Preußenlied como novo hino europeu: “Wir sind ja Preußen, laßt uns Preußen sein“. 

0 comentários em “O novo hino europeu.”

  1. Senhor Professor

    Infelizmente, parece-me que a UE não é, cada vez mais, nem uma união de estados soberanos nem um estado federal.

    Recordando os meus estudos de Geopolítica, a situação faz-me, cada vez mais, pensar em Karl Haushofer e no seu conceito de grandes espaços (ele falava de pan regiões) dirigidos por um estado diretor.

    Sabemos o uso que, «malgré lui», o nacional socialismo fez do seu pensamento.

    Parece que hoje os objetivos que a Alemanha não conseguiu concretizar com a guerra (pelo menos os que respeitavam a grandes espaços e estados diretores) estão a ser atingidos pela via financeira e pela subserviência dos demais estados.

  2. Se não quer os Alemães a ditar regras não lhes vá bater à porta a pedir dinheiro.

    Podemos começar pelos milhões dos subsídios da União de que somos recebedores liquídos aos empréstimos da troika para evitar a bancarrota e que 4 meses de salários da função publica ficassem sem ser pagos.

    Se é anti Alemão, tenha défice zero logo não precisa de lhes pedir dinheiro ou então encontre outro sugar daddy mais do seu agrado.

      1. Existem certos factos prosaícos que os seus sonhos não contemplam:
        A União não é uma Federação. Mas como é para receber Euros em vez de enviar Soldados já podemos fazer de conta que é?

        É elucidativo para quem passa a vida a escrever sobre pátria, dignidade, quer ao mesmo tempo estar numa Federação com a cultura Alemã que abomina só para só poder sacar euros.

        Depois ainda fala de dignidade.

        Para todos, desde o Syriza, às redacções dos jornais, passando pelos PS’s a dignidade parece ser toda medida em Euros que conseguem ou não sacar.

        Se não gosta da moral, da ética, da cultura – estamos obviamente falar de muito mais que a Alemanha, estamos a falar da Flandres, da Escandinávia , do Leste, partes da França, Itália do Norte.

        Defenda o corte. Defenda o regresso do Escudo e a saída da União e o regresso da I Primeira Republica, com o populismo do regime o resultado seria provavelmente esse.

        Se por outro lado defende por exemplo as contas certas de Salazar, a baixa dívida mesmo em guerra então ainda passa por mais Alemão que Alemão e então as criticas à Alemanha não fazem sentido, aquilo que a Alemanha nos pede até passa por pouco.

        Era Salazar Alemão? Um corpo estranho que durou 40 anos num país de falsários e trapaceiros cansados por momentos da instabilidade e violência?

  3. Ainda se usa o termo “Realpolitik”? E a expressão “relação de forças”?
    E, entrando decididamente no universo Le Carré, as biografias paralelas da Senhora de Berlim e do Senhor do Kremlin ( rima “oblige”) autorizam todo e qualquer voo da imaginação – principalmente quando a ameaça da implosão americana se torna cada dia mais visível…

  4. Aqui me tem para dizer que continuo do seu lado. As tropas de Hitler, perdão, de Schauble e Merkel estão descontentes com a primeira vitória grega. Ainda a procissão vai no adro.
    Tal como a reacção russa na Crimeia, como referi, ditou a alteração na geopolítica também a Grécia deu o pontapé de saída para esta mudança.

    Esta vida não é para cobardes e acomodadozinhos à maneira pimba portuguesa.

    1. “As tropas de Hitler, perdão, de Schauble e Merkel estão descontentes com a primeira vitória grega. Ainda a procissão vai no adro.”

      É mesmo para levar a sério tamanho disparate? Nazis e vitórias gregas? É fechar já o Civilization V que isso anda-lhe a fazer mal. Quanto aos bimbos portugueses a sua opinião encaixa-se exactamente nesse provincianismo ignorante de que todos os alemães são nazis e inventar vitórias onde só há cedências. Ou então é do álcool, ou qualquer coisa:|

  5. A Prússia? Apesar de a grande parte da oposição a Hitler ter vindo das antigas elites prussianas? A Prússia de Frederico o Grande que decretou o fim da tortura e onde havia mais liberdade de expressão do que na maior parte da Europa? Onde havia, aliás, tolerância religiosa? A Prússia que foi totalmente apropriada por Hitler – através, em grande parte, de Frederico, o rei, bissexual que nem alemão falava. A Prússia sobre a qual Kant escreveu:

    Frederick’s Prussia is a shining example that freedom need not cause the least worry concerning public order or the unity of the community. When one does not deliberately attempt to keep men in barbarism, they will gradually work out of that condition by themselves.

    A Prússia sobre a qual Chris Clark disse:

    “But National Socialism was in many respects the exact opposite pole of Prussiandom. The old Prussian state had been about the authority of government and the rule of law, but the new Nazi Reich was about the people. It was an ethnic entity. The Nazis didn’t care about laws. To them, laws were utterly secondary. What mattered was the Führer as the expression of the will of the Volk. This was an idea that had no precedent in Prussian history whatsoever. So I see a very strong antipathy between the two forms of state.”

    Ou “If it were true that Prussia created an environment that deadened the will of ordinary citizens and turned them into instruments of state power, thereby blazing a trail for a totalitarian dictatorship in which people would do anything they were told, it would be very easy to test that hypothesis. All you’d have to show is that Germans of Prussian provenance made better and more obedient Nazis than people from Austria, Baden-Württemberg and so on. If that had been the case, it would be more than obvious. But it isn’t. There is simply no evidence. On the contrary, people from Baden-Württemberg and especially Austria made for equally keen Nazis, with Austrians, for example, being hugely overrepresented in the machinery of Nazi genocide. It’s just simply not the case that you can map out a relationship between Prussia and Nazism that made people into better tools of the regime. “

    Eu não me interessa estas ligações da Alemanha de Merkel a Hitler porque para além do cliché e do absurdo ignoram assuntos muito mais graves como por exemplo, o facto dos países mais anti-semitas na Europa serem a França e a Grécia, e eu sei que provavelmente ninguém estará interessado em perspectivas históricas mas sim em formas de dizer que a Merkel é uma pequena ditadora prussiana saída de um livro do Thomas Mann mas a sério, é chato uma pessoa querer estudar a Prússia como deve ser e levar com gente que vê no Frederico o Grande e no Bismarck Hitlers (e Merkels) em potência.

    1. Se ler o hino com atenção, há muita coisa lá. Já agora pode acrescentar a formação da confederação do Norte pela Prússia após a derrota de Napoleão, a guerra contra a Dinamarca pela conquista do Schleswig-Holstein, a subsequente guerra contra a Áustria e a guerra contra a França pela conquista da Alsácia-Lorena, que terminou com a coroação do rei prussiano como imperador alemão em Versalhes. Neste enquadramento o apelo de Kant à paz perpétua (“Zum ewigen Frieden”, já que ele não escrevia em inglês) não passa de “wishful thinking”.

      É um facto que a aristocracia prussiana não deu apoio a Hitler, e até o tentou matar aquando da operação Walküre. Mas tal não se deveu a princípios de liberdade democrática, de que a Prússia esteve sempre arredada. Deveu-se, isso sim, a um profundo ódio de classe. Hitler desprezava a aristocracia alemã, que considerava responsável pelo desastre da I Guerra, e esta nunca deixou de o considerar como um simples cabo oriundo da Áustria, a quem faltavam os pergaminhos aristocráticos para dirigir a Alemanha.

      1. Se o Luís ler com atenção o comentário da Daniela, verá que ela não diz nada sobre a Prússia ser um Estado pacífico, mas sim sobre ela ser um Estado relativamente livre, em particular com liberdade de expressão e religiosa. Pelo que, parece-me que o comentário do Luís não infirma o da Daniela.

  6. Não ofenda a maioria dos alemães que nada quer com a Prússia! Em Hamburgo, por exemplo, que é e sempre foi cidade-estado, que ninguém fale em prussianos! O meu marido é alemão e não se considera prussiano de todo. E então, se formos para o sul…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *