No início do filme Serenata à Chuva, numa espécie de noite dos óscares, uma das vedetas explica à rádio, antes de entrar no teatro, como ascendeu a pulso em Hollywood fazendo cenas “sempre com dignidade”. Como se fosse a sua memória, vemos em imagens rápidas o esboço da carreira: o herói substitui um duplo que ficou desmaiado numa cena de pancadaria, depois é esmurrado, faz-se explodir, cai num precipício, lança um avião contra uma casa, odeia a actriz principal e tem discussões horríveis com ela, mas percebemos que os sucessivos filmes são cada vez mais importantes e a relação do casal maravilha mais catastrófica. Corte, regressamos ao presente, e ele diz, sorrindo imenso: “Sempre com dignidade!”
Em política, a dignidade também é uma grande farsa, como explica Pedro Correia, um pouco mais abaixo neste blogue. Ontem, numa das duas hipóteses que lhe restavam, o governo grego guardou a viola no saco e reclamou o fim da austeridade, enquanto começava a redigir a lista das medidas que prometeu cancelar. O memorando já não se chama assim e a troika muda de nome, mas Atenas tem a corda na garganta e quatro meses para negociar o terceiro resgate, enquanto cumpre o essencial do segundo, sempre com dignidade.
Nas duas semanas de crise, e com rasgado entusiasmo da nossa imprensa, o novo governo grego tentou criar uma situação de ruptura iminente na zona euro, que provocasse um pânico nos mercados e o aumento das taxas das obrigações portuguesas, italianas e espanholas. Só assim haveria condições para uma rebelião anti-alemã na zona euro. A estratégia era um bluff mal feito e pior executado, mas muitos analistas em Portugal consideraram que havia ali muita dignidade e rejeitaram a reacção defensiva do governo português. A nossa imprensa chegou a criar uma narrativa que não se encontra em nenhum jornal estrangeiro.
Não admira que parte substancial da opinião pública acredite que a delegação grega nas conferências do Eurogrupo quisesse defender os nossos interesses e que, pelo contrário, o governo português tenha agido contra os interesses nacionais. A realidade é que a Grécia prejudicou Portugal e Espanha, pois será mais difícil flexibilizar as medidas de rigor orçamental num ambiente onde a confiança entre os países da zona euro ficou seriamente abalada.
Napoleão dizia que não se deve interromper o erro de um adversário. Neste contexto, a esquerda portuguesa está a cometer um erro que o governo não tentará interromper: ao elogiar os desmiolados novos dirigentes gregos, a esquerda terá dentro de alguns meses de explicar por que razão eles fazem o mesmo que Antonis Samaras. Os indignados que batiam no peito e afirmavam que havia outro caminho, terão de explicar que caminho era esse, já que os radicais gregos também não o encontraram. Os que acham, subitamente muito patrióticos, que o governo português comprometeu a dignidade da nação, terão de explicar por que razão o terceiro resgate da Grécia lhes parece mais digno do que o financiamento nos mercados.


“A realidade é que a Grécia prejudicou Portugal e Espanha, pois será mais difícil flexibilizar as medidas de rigor orçamental”
Porque é que medidas de rigor orçamental prejudicam Portugal?
Quer pagar mais juros? quer imprimir moeda?
Ou seja o autor pensa como o Syriza com uma pequena diferença de grau.
Alemanha está numa IV «guerra mundial» a leste com a Ucrânea ao rubro, a Hungria com «problemas de consciência» e a ainda recente união à Alemanha de Leste.
Agora com esta Grécia já perdida, no meio daquele mediterrâneo juntamente com a aliada Lampedusa, a jogar todas as cartas na mesa, corremos o risco de ficarmos esquecidos, neste cantinho do ocidente.
Os loucos destes zorbas jogaram tudo porque no fundo sabem que aquela porta mediterrânica para o terrorismo árabe-islâmico mais a miséria africana que as descolonizações estúpidas atraem, só eles gregos podem ajudar a proteger.
A ver vamos, qual o comportamento germânico.
O fanatismo cultural da Esquerda ao outro é tão intenso que nem lhes passa pela cabeça que algum português pode concordar naturalmente com a Merkel.
Esta gente não tolera a diferença.