A Europa em implosão.


Luís Menezes Leitão,

O que se vê desta conferência de imprensa conjunta de Schäuble e Varoufakis parece muito claro: a Alemanha pretende permanecer irredutível em relação à Grécia, que trata como um mero estado vassalo. Não deixo de achar significativo que durante toda a conferência Schäuble tenha falado sempre em alemão, língua que Varoufakis não domina. Acho que a resposta de Varoufakis deveria ter sido falar por sua vez em grego, o que teria sido divertido ver Schäuble tentar seguir.

 

A única vez que Schäuble falou em inglês foi para dizer uma frase corriqueira: “We agree to disagree“. Mas nem essa frase Varoufakis deixou passar: “We didn´t reach an agreement, it was never on the cards that we would, we didn’t even agree to disagree from where I am standing“. É difícil ser mais claro no sentido da divergência total entre os dois Ministros das Finanças. A continuarmos neste registo, e sendo já assumido por todos os países na Europa que o euro é propriedade dos alemães, parece claro que a Grécia vai ser expulsa do euro por indecente e má figura a muito curto prazo. O que não parece perturbar muito os gregos, um povo orgulhoso, que está farto de ser tratado desta maneira.

 

O problema é as questões geoestratégicas que esta situação provoca e que me parece que não estão a ser equacionadas. Outro dia, na fantástica série dinamarquesa Borgen, que passa na RTP2, uma personagem comentava que toda a Europa do Sul estava na bancarrota e que, para elidir esse facto óbvio, as troikas tinham mandado os países vender as suas empresas públicas a pataco, que imediatamente tinham sido compradas por chineses, o que constituía um enorme risco geoestratégico. A personagem acrescentava que daí a pouco em toda a Europa do Sul só se falaria mandarim.

 

A mesma questão pode-se colocar em relação à Rússia, que no entanto neste momento é muito mais perigosa que a China. Depois da disparatada estratégia europeia de apoiar o derrube do governo ucraniano por uma manifestação numa praça, a situação na Ucrânia evoluiu para uma guerra civil séria, sem que no entanto o governo ucraniano se mostre minimamente capaz de controlar os rebeldes russos. Depois de uma série de derrotas militares, o presidente ucraniano Poroshenko recebeu uma carinhosa visita de apoio de Merkel e de Hollande, tendo este último ameaçado que se poderia entrar em guerra total. Putin não se ficou e antes mesmo de receber estes dois, formulou um convite a Tsipras para visitar a Rússia. A Europa pode implodir de um momento para o outro e, como em 1914, os seus governantes parecem sonâmbulos que não vêem o que estão a fazer.

0 comentários em “A Europa em implosão.”

  1. Schäuble tenha falado sempre em alemão, língua que Varoufakis não domina

    Tenho a impressão de que, quando por exemplo há uma reunião entre russos e norte-americanos, o representante russo fala na conferência de imprensa em russo. Especialmente se essa conferência de imprensa tiver lugar em território russo e grande parte dos jornalistas na sala forem russos.
    Se por exemplo Putin vai à Alemanha, dá depois a conferência de imprensa em russo, embora Putin fale alemão perfeitamente.
    Os povos poderosos não abdicam de defender a sua língua.

    1. É, parece que nas conf. Imprensa internacionais, para mais em países “ricos”, não se arranjam traduções simultâneas.

      A culpa é dos alemães, a culpa é dos alemães, a culpa é dos alemães, a cu…

  2. Schäuble é governante alemão, tem mesmo é que falar em alemão, numa conferência de imprensa realizada na Alemanha. Aliás, tal como Varoufakis, na já “famosa” conferência de imprensa conjunta com Dijselbloem, em Atenas, falou em grego, apesar de ambos dominarem perfeitamente o inglês (até deu jeito, para alegar a errada tradução das suas palavras). Triste figura fará um nosso governante que, em Portugal, se ponha a responder a perguntas de jornalistas em “estrangeiro”.

  3. O que é que espera exactamente que a Alemanha dê à Grécia?
    Em que é que a Alemanha forma um bloqueio à nossa prosperidade?

  4. Para a Europa não “implodir” temos de passar uns cheques aos gregos, porque eles são um povo orgulhoso, e já agora preguiçoso e que não gosta de pagar impostos.
    Como já escrevi aqui no Delito, preocupo-me muito mais com os problemas sociais dos países da África negra, p. ex., do que com o 300 mil gregos que não têm dinheiro para pagar a conta da electricidade. A Grécia tem recursos próprios para resolver esses problemas sociais.
    Se o Obama e o Putin estão a disputar as vantagens geoestratégicas da Grécia eles que paguem, porque se há quem pense que perdoar 100 mil milhões de divida e enviar para lá 250 mil milhões de euros nos ultimos cinco anos é tratar mal um povo, os americanos ou os russos, se os quiserem tratar bem, terão de imprimir muitos dólares ou muitos rublos.

  5. Gosto muito de ouvir pontos de vista diferentes dos meus e tentar perceber.Nesta ronda dos principais gregos, não entendi nada do que eles acham que devem ser as posições dos outros, que defendem o que acham(há varios anos) que está certo. Se a ideia era sensibiliza-los para ideias diferentes devo confessar que me pareceram muito arrogantes. Parecido lembro-me de algumas posições de agrupamentos durante o PREC portugues que de tanta razão que achavam ter ou desapareceram de cena ou fizeram caminho na direcção contrária. Será que os gregos merecem logo a seguir aos corruptos governantes tão iluminados? pelo menos votaram neles!!
    Indiscutivelmente há mais gente do que que seria razoavel, na parada acha que o filho é o unico que marcha no passo certo.

  6. Claro que Schaubble tinha que falar em alemão.
    E claro que Varoufakis devia ter falado em grego.

    Mas Varoufakis estava nuna “sessão de propaganda” e portanto era lógico que falasse numa língua que todo o mundo compreendesse depressa.
    Ou acha que ele se arriscava a que lhe desvirtuassem as palavras, logo ele que até domina bem o inglês?

    O que não parece perturbar muito os gregos e sai-lhe aquele link?
    Atenas tem dentro dos seus limites como cidade 670 mil habitantes e no perímetro metropolitano que a cerca tem 3 milhões e 750 mil habitantes.

    E o Luís Menezes Leitão tira conclusões bombásticas de uma manif de 7 mil?

    Desculpe lá a conversa de “engenheiro” mas o povo orgulhoso que saíu à rua era 1% dos que estavam ali à mão e 0.2% dos que podiam lá ter ido fácilmente.

  7. Um texto filho do Marxismo.

    Até tem pérolas como “povo orgulhoso” . Aquele epíteto que só se utiliza com os pobres , pois um rico orgulhoso é já sabemos soberba, arrogância e outros nomes feios porque a Igualdade é o que este texto tenta impor.

    Pena que autor não se tenha lembrado da Igualdade quando os Gregos “Orgulhosos” se endividavam tanto que o seu PIB per capita passou em poucos anos de 20000 euros per capita para 30000 euros per capita – ultrapassando por momentos a Itália sem criarem riqueza para tal, só endividamento.

  8. A Rússia sempre foi perigosa quando se sentiu ameaçada. E ela, ameaçada, ameaça qualquer potência.

    A saída de Hollande não passa de retórica de circunstância. Parece-me que o que ele pretende dizer é que não há solução para o mundo a não ser através de uma guerra. E isto é absurdo na medida em que quem colocou em causa a segurança Russa foi a UE.

    A saída da Grécia revelará a indecência e má figura que a Europa tem feito na gestão desta crise, e a situação agravar-se-á. Esta simplesmente pretendeu salvar a banca à conta do massacre que leva por nome resgate. Acontece que por causa disto estão todos a pagar, incluindo a Alemanha:
    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=757049

    Aqui chegados é necessário compreender que o discernimento não é algo dado, mas sim que se adquire. Como tem faltado é normal que se viva tal romance.

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