Alá nada tem a ver com isto


Pedro Correia,

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Membros do grupo fundamentalista Boko Haram, responsável por milhares de mortes na Nigéria

 

Sou incapaz de diluir a responsabilidade individual dos homicidas em factores étnicos, culturais, sociais ou religiosos.

Um “crime passional” (expressão detestável) pode ser avaliado por factores externos: solidão, ciúme, depressão, desemprego, exclusão social. Podemos tentar “compreender” a vertente externa do crime. E, se formos advogados de quem cometeu esse crime, até talvez devamos invocar tudo isso como possível atenuante em tribunal.
Nada apaga, no entanto, a componente do livre-arbítrio. É o grande trunfo – e também o grande fardo – da condição humana.

Isto ficou, de resto, plasmado na jurisprudência internacional nos célebres julgamentos de Nuremberga que julgaram os responsáveis pelos crimes cometidos durante o regime totalitário hitleriano. A linha defensiva dos réus era invariável: todos tinham agido em obediência a ordens superiores, como se a responsabilidade de cada um estivesse diluída numa espécie de imperativo categórico ditado pelas forças do mal.
O tribunal rejeitou esta tese – e muito bem, condenando a generalidade dos réus a duras penas. Foi uma conquista civilizacional do direito que não deve ser revertida nestes tempos de barbárie à solta em tantos locais – de  Paris ao Paquistão, passando pelos crimes hediondos que por estes dias têm sido cometidos pelas hordas fundamentalistas do  Boko Haram na Nigéria. Nenhuma “exclusão social” ou “marginalização” de qualquer espécie justifica o comportamento daqueles que degolam, lançam a bomba ou comprimem o gatilho.

Alá nada tem a ver com isto. É tudo humano, demasiado humano, por vezes insuportavelmente humano.

0 comentários em “Alá nada tem a ver com isto”

  1. “Nenhuma “exclusão social” ou “marginalização” de qualquer espécie justifica o comportamento daqueles que degolam, lançam a bomba ou comprimem o gatilho.”

    Uma frase que pode ser escrita de outro modo:
    Nenhum poder, governo ou moralismo de qualquer espécie justificam o comportamento daqueles que prendem, torturam ou matam.

    “How convenient it is to stand united for our liberties now, while not long ago our same governments were banning peaceful demonstrations, jailing whistleblowers, arresting journalists, and threatening news organisations. Free speech was not attacked just these last few days, but it has been undermined in Western societies for a long time, often by the same leaders that are now waving Je suis Charlie signs.
    To seal this climate of hypocrisy, even delegations from some of the most shameless oppressors of free press joined the march in Paris yesterday. Egypt, Turkey, Saudi Arabia, United Arab Emirates and others were all there chanting “freedom of speech” along with the French population, while back home bloggers and journalists are tortured, jailed and their voices are being suppressed. Disgusting.”
    https://nex.sx/blog/2015-01-12-manipulation-of-terror.html

    1. Não percebo a sua tese. Devemos evitar proclamações favoráveis à liberdade de imprensa e manifestações pela liberdade de expressão só porque a liberdade de imprensa é violada na Arábia Saudita e no Egipto?

      1. Quem ler este seu último comentário e não o conhecer bem até pode ficar a pensar que o Pedro sabe pouco sobre as pressões, ameaças e punições da liberdade de imprensa em todos os países, incluindo os ocidentais.

        No entanto, já que pergunta, ponho à sua consideração que, em jornalismo e para mencionar apenas alguns exemplos, devemos evitar:

        1. A hipocrisia;
        2. O seguidismo;
        3. A instrumentalização política.

        Estou certo que concordará.

        1. Já estão a ser postas coisas demasiado diferentes no mesmo saco, o que torna difícil estabelecer umalinha de raciocínio. Não podemos comparar as imperfeições, limitações ou insuficiências da imprensa da Europa ocidental onde vigora de facto a liberdade de expressão com o panorama existente noutras zonas do mundo. E nem o mundo islâmico é monolítico. Há países islâmicos, como a Tunísia, a Indonésia ou a Malásia, onde vigora liberdade de imprensa. Não é comparável a situação da Arábia Saudita, uma feroz ditadura, com a da Turquia, onde acabam de ser reproduzidas caricaturas de Maomé na imprensa (algo recusado por órgãos de informação tão influentes e reputados como o New York Times, a Associated Press, o Washington Post, a CNN e a Economist).

  2. Lá estamos nós a querer passar do oito para o oitenta.

    “Alá não tem nada a ver com isto”. Pois, o nome de Alá aparece na história completamente por acaso e sem especial significado. Podiam ter gritado “Viva Nossa Senhora” ou “Esta é pelo Sócrates” ou “Salvem as tartarugas”. Ia tudo dar ao mesmo.

    Não se diluam responsabilidades individuais; mas também não se queira reduzir a coisa a um desentendimento entre dois irmãos e uns trabalhadores de um jornal.

    1. Na guerra civil de Espanha, do lado nacionalista, matava-se aos gritos “Viva o Cristo Rei!”
      Cristo não mandava matar ninguém. Cristo mandou respeitar a vida alheia.
      O que cada um grita no momento em que mata não vincula entidade alguma – e muito menos esse homicídio pode ligar-se a um mandamento divino. Não concebo maior heresia que essa.

      1. “Cristo não mandava matar ninguém. Cristo mandou respeitar a vida alheia”. Pois. E lixou-se bem lixado.
        Faria falta ler um bocadinho mais a Bíblia para compreender melhor a violência do sagrado…

        “O que cada um grita no momento em que mata não vincula entidade alguma”. Se não houver nenhuma entidade a reconhecer-se no grito. Ou no acto. Ou no resultado do acto. Ou na motivação do acto.
        Quem gritou “Cristo Rei” não foi repudiado pela Igreja católica. O lado nacionalista foi atacado também pela sua fé. E matou também em nome da sua fé.

        1. Se você sair à rua de Kalachnikov em punho e desatar a disparar sobre os transeuntes aos gritos «Por Tutatis!» os danos que eventualmente causar ser-lhe-ão atribuídos a si e não à divindade. Justamente, a meu ver.

          1. Ser-me-ão atribuídos, e à visão que tenho da divindade invocada.
            Sendo que, se a visão que tenho é partilhada por outros, amanhã poderemos ter outras armas a ser disparadas. Serão outros indivíduos, mas prontos a morrer pela mesma causa, gritando pela mesma divindade.
            Não, a divindade não mata. Mas a crença mata. O crente mata. A sua ideia ou invocação de Deus (seja ele qual for) não é atenuante nem desculpa; mas também não é acessória.

          2. Certo, a crença pode matar. Lembremos, por exemplo, o que sucedeu à seita de Jim Jones na Guiana, em 1978:
            http://www.theatlantic.com/national/archive/2011/11/drinking-the-kool-aid-a-survivor-remembers-jim-jones/248723/
            Mas a crença pode libertar também.
            E o crente pode matar. Mas um crente concreto. Por cada um com impulsos homicidas, encontramos mil ou um milhão que dedicam a vida a ajudar o próximo.
            A crença não é acessória na existência de milhares de milhares de milhões de pessoas. Também não pode ser em casos destes, embora eu recuse por completo a ideia de que um deus digno de ser venerado possa mandar matar. De qualquer modo, a condição de crente não serve de atenuante ou desculpa quando ocorre um crime. E nisto estamos de acordo também.

  3. Viva Pedro, tenho andado um tanto assoberbada no desempenho do novo papel de protectora de vida nova e muito grata E feliz por poder fazer parte dela. Apesar de tudo, não quero deixar passar este seu post sem o comentar, porque resume tudo o que eu penso sobre o assunto.
    É simples de perceber. Todos têm o direito de discordar. É isso mesmo o livre arbítrio, a consciência em acção que nos separa dos irracionais.
    Abraços

    1. Sim, Dulce, o livre arbítrio separa-nos dos irracionais. E por vezes também nos aproxima perigosamente deles.
      Mas nunca é de mais sublinhar nada disto, hoje mais que nunca.
      Felicidades na sua nova missão.

  4. Apoiado. Parece-me que o mesmo raciocinio tẽm que ser usado para lutar contra os imbecis que argumentam contra certos artigos ou videos. Cada um é o unico responsavel por ver ou nâo ver e assume toda a responsabilidade pelos actos que comete. Num artigo hoje do Observador- Opiniao – G.Ribeiro faz muito bem as poucas excepçôes que se admitem e de modo nenhum estâo incluidos o ser dum credo ou de nenhum.
    O que se passa fora da UE nâo é relevante nem nos deve servir de argumento. Seja a sua cultura-barbarie aqui felizmente é a nossa .

    1. A UE tem de continuar a ser o que foi nas últimas décadas: um espaço de liberdade e segurança. Que não pode abdicar de uma em função da outra porque estão interligadas por natureza. Uma Europa mais segura é uma Europa mais livre e uma Europa mais livre é uma Europa mais segura.

  5. La liberté française, está a cavalgar a onda do terrorismo, neste caso de Estado:
    http://www.liberation.fr/societe/2015/01/14/dieudonne-sera-juge-en-correctionnelle-pour-apologie-du-terrorisme_1180778

    Com a boca cheia de <

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    La liberté française, está a cavalgar a onda do terrorismo, neste caso de Estado:
    http://www.liberation.fr/societe/2015/01/14/dieudonne-sera-juge-en-correctionnelle-pour-apologie-du-terrorisme_1180778

    Com a boca cheia de <<liberdade de expressão>>, o chicote está no ar.
    Calado o mundo do sofá unanimista com o <<je suis Charlie>>, metem na prisão o autor de um tweet <<je me sens Charlie…>>.

    Terrorismo de estado não é terrorismo, é segurança.

  6. Vejo que o Pedro concorda comigo sobre o livre-arbítrio, e que este é efectivamente um acto de liberdade, ainda que possa ser condenado em determinadas circunstâncias. Mas não dilui outras arbitrariedades, ainda que caucionadas por lei.

    1. Talvez seja o meu caro a concordar comigo quanto ao livre arbítrio. Ignoro a que “arbitrariedades” se refere. Não será certamente nas democracias liberais do Ocidente, escrutinadas pelos cidadãos, onde vigora o império do lei – alicerce e fundamento de qualquer sistema democrático.

      1. Se for mais fácil dizer que sou eu que concordo consigo, então, eu estou de acordo.
        Mas a lei não é um dogma, ainda que haja quem queira fazer dela isto mesmo. A lei não liberta, nunca libertou.
        As democracias liberais do ocidente pretendem implementar acreditar um regime farisaico fazendo crer, enganosamente, que a questão desta guerra de mundos se centra no puro e no impuro. Acontece que quem lava por fora, através da lei, o que por dentro não é tratado assemelha-se ao fariseu que pretende tirar a trave dos olhos de seus irmãos mantendo-a em seus.

        Escondidos atrás da lei parecemos cegos a querer guiar outros cegos, e não somos capaz de compreender que mesmo que a lei permita a ofensa pode ter resposta.

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