Intolerância


Teresa Ribeiro,

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Quando se fala de intolerância relativamente aos imigrantes, por norma aponta-se o dedo aos povos anfitriões, partindo do princípio discutível de que é a quem recebe e está em maioria que devem ser cobradas as responsabilidades relativas ao bom convívio com as comunidades acolhidas. Mas o multiculturalismo deve pressupor uma abertura recíproca.

Não duvido que a esmagadora maioria dos muçulmanos emigrados no ocidente aspiram a viver em paz com os seus vizinhos infiéis, mas ao seguirem valores que antagonizam os nossos torna-se difícil evitar reservas de parte a parte. Quando vou à loja do indiano e encontro lá regularmente a mulher e a filha púbere, ambas de cabeça tapada e olhos no chão, sinto que aos olhos dele elas são mulheres puras enquanto que eu e a minha filha, que nos deixamos tocar descaradamente pelos olhos de todos os homens com quem nos cruzamos na rua, o não somos.

Confesso. Tenho uma relação de ódio com todas essas vestes que simbolizam a submissão feminina. Não odeio o indiano, que até é bem simpático para a freguesia, mas odeio alguns dos seus valores. Do lado de lá, não duvido, passa-se o mesmo. Quando se seguem princípios de vida incompatíveis, os choques culturais são inevitáveis.

Já li muitos textos a tentar justificar as pulsões assassinas dos putativos jihadistas nados e criados no ocidente. Todos falam da nossa intolerância e arrogância, politizam o discurso enumerando exemplos de atrocidades cometidas no passado e no presente, como se a maldade fosse um exclusivo nosso. Mas convém não esquecer que apesar das diferenças partilhamos a mesma natureza. A semente do mal faz parte do ADN  de “fiéis e infiéis” – para usar a terminologia deles. E se nós, ocidentais – recorrendo agora ao léxico dos católicos – pecamos pela soberba por nos acharmos superiores ao nível científico, tecnológico, cultural e civilizacional também eles o fazem quando reclamam para si mais do que a superioridade ética e moral, a superioridade tout court.

A nossa intolerância tem as costas largas. 

0 comentários em “Intolerância”

  1. os seus vizinhos infiéis

    Essa terminologia “infiel” não é apropriada.

    Os muçulmanos falam de não-crentes. Não usam o termo “infiel”.

    Tenho uma relação de ódio com todas essas vestes que simbolizam a submissão feminina.

    Evite ver as vestes como símbolos de seja o que fôr. Veja-as apenas como aquilo que são: roupa. Acredite, por baixo da mesma roupa podem estar pessoas muito diferentes.

    Já uma vez falei com uma mulher que só tinha os olhos à mostra mas que se mostrou tão aberta, franca e à-vontade como qualquer outra.

    os choques culturais são inevitáveis

    Não são nada. Basta cada um respeitar os princípios culturais do outro.

    Eu encontro-me frequentemente com muçulmanos (de diversas origens) e nunca tive choque cultural com nenhum.

    1. Fosse o Lavoura do sexo feminino e veríamos se encararia apenas como roupas aquelas roupas…
      Basta respeitar os princípios culturais do outro? Ai “basta”? Pois a mim não basta, porque alguns me revoltam as tripas, como o que dá fundamento à excisão genital feminina, para citar um exemplo dos bons.

      1. As mulheres muçulmanas em geral não se vestem muito diferentemente das freiras católicas.
        Já agora, ainda recentemente vi um casal judeu ortodoxo. Também se vestem de forma curiosa (mais os homens do que as mulheres).
        Mias uma vez, trata-se apenas de roupas. As roupas simbolizam a adesão a uma tradição cultural/religiosa, nada mais do que isso. Temos que ver as pessoas para além da sua religião ou da sua tradição cultural. Não nos podemos fixar só na roupa.

        Quando falo de respeitar os princípios culturais alheios não me refiro, evidentemente, a tolerar práticas criminosas.
        Também podemos dizer que em Portugal há uma antiga tradição de os maridos baterem nas respetivas mulheres. Tradição essa que, evidentemente, não deve ser respeitada.

        1. O que interessa não são as roupas, mas o que elas simbolizam. As vestes de uma freira identificam-na como uma mulher que decidiu de livre vontade consagrar a vida à sua religião.
          As vestes das muçulmanas são-lhes impostas e cumprem uma função específica. Servem para as esconder dos olhares alheios. O exemplo que deu do sari não faz sentido, pois trata-se de uma peça de vestuário tradicional como outra qualquer, bem adaptada às características do clima indiano.

    2. “Já uma vez falei com uma mulher que só tinha os olhos à mostra mas que se mostrou tão aberta, franca e à-vontade como qualquer outra.”

      O Luís Lavoura também encontra/ria escravos na mesmas condições, aliás se for ler muitos textos daqueles que foram alfabetizados ou se alfabetizaram encontra muita vezes o respeito pelo senhor que tem a sua posse.

      Hoje para pessoas como Luís Lavoura as patrulhas da Royal Navy no Séc XIX, contra a Escravatura seriam coisa má.

  2. “Não são nada. Basta cada um respeitar os princípios culturais do outro.”

    Bom então e já que se falou de Indianos que tal a tradição cultural do Sati? Certamente teremos a aquiescência do Luís Lavoura.

    Ou será que o Luís Lavoura defenderá as palavras do General Sir Charles James Napier:

    “Be it so. This burning of widows is your custom; prepare the funeral pile. But my nation has also a custom. When men burn women alive we hang them, and confiscate all their property. My carpenters shall therefore erect gibbets on which to hang all concerned when the widow is consumed. Let us all act according to national customs.”

      1. Então a Teresa, quando vê em Portugal uma mulher indiana vestida com um sari, deve ficar enojada. Aquele sari simboliza a adesão dessa mulher a uma cultura na qual as viúvas são queimadas vivas e na qual as jovens mulheres são obrigadas a casar-se com quem os pais decidem e os pais têm que pagar um elevadíssimo dote à família do noivo para que ele lhes leve a rapariga de casa. E, se não pagam o dote, frequentemente o marido mata a mulher, por exemplo ateando-lhe fogo ao sari enquanto ela está a cozinhar.

        Não é, Teresa? O sari significa isso tudo. Qualquer mulher que usa sari está totalmente de acordo com todas estas práticas nojentas. Não é?

  3. O que se falha em analisar é que as Justificações™ são há muito uma Industria Política-Economica dedicada à desconstrução da Sociedade Ocidental pela tactica da transferência de culpa.

    Ninguém oferece menos resistência que uma pessoa que se sente culpada.

    E para percebermos a Industria da Culpa temos de ir ao ódio fundacional do Marxismo à Civilização Ocidental e perceber como é a base fundacional da construção do poder da esquerda Marxista Ocidental no Ocidente.
    Por isso proliferam os grupos vitímas.

    No caso em apreço:
    Quando a Liberdade de Expressão serve para ridicularizar a Civilização Ocidental então é algo essencial.

    Se a Liberdade de Expressão serve pelo contrário para impor a Civilização Ocidental então é algo a desconstruir, desvalorizar.

    Por isso é que a Extrema Esquerda não tem pejo nenhum neste caso em deitar os caricaturistas de um jornal satirico de Esquerda às feras.

    Deixaram de ser úteis ao projecto.

      1. A Extrema Esquerda não tem Causas tem Pretextos. Depois de perceber isso vai entender.
        Desta vez foram os cartoonistas de Esquerda os sacrificados.

  4. You’re missing the point. (Perdoe-me o inglês, mas é difícil dizer exactamente isto em português.)

    “… If you spend time as I have in … the depressing, segregated housing projects known as banlieues that ring French cities such as Paris and Lyon, warehousing impoverished North African immigrants, you begin to understand the brothers Cherif Kouachi and Said Kouachi, who were killed Friday in a gun battle with French police. There is little employment in these pockets of squalor. Racism is overt. Despair is rampant, especially for the men, who feel they have no purpose. Harassment of immigrants, usually done by police during identity checks, is almost constant. …”
    (… Se vocês passassem algum tempo, como eu passei, … nos depressivos bairros de realojamento conhecidos como “banlieues” que envolvem cidades francesas como Paris ou Lion, os quais armazenam empobrecidos imigrantes norte-africanos [aos milhares], começariam a entender os irmãos Cherif Kouachi and Said Kouachi que foram mortos na sexta-feira num tiroteio com a polícia francesa. Há muito pouco emprego nestas bolsas de miséria. O racismo é evidente. O desespero é ilimitado, especialmente para os homens que sentem não ter qualquer objectivo. A perseguição de imigrantes, usualmente feita pela polícia durante as[operações de] verificações de identidade, é quase permanente. …)
    Chris Hedges, American journalist, activist, author, Presbyterian minister and humanitarian

    http://www.truthdig.com/report/item/a_message_from_the_dispossessed_20150111

    1. O Pedro Correia num post mais abaixo fala claro sobre este assunto. Não o vou repetir. Apenas digo que tal como ele não estou disponível para “compreender” assassinos, quiça desculpá-los pois tadinhos, viviam num subúrbio mal frequentado.

      1. You missed the point. Again.

        Apesar da sua resposta, vou continuar a partir do princípio que é suficientemente inteligente para perceber que não pretendo justificar os assassinos. Nem estes, que mataram 12 pessoas, nem os outros que, a coberto de leis iníquas, matam milhões pela fome ou pela brutalidade das armas.

        “… the inherently antithetical classes were not businessmen vs. workers, but the producers in society (including free businessmen, workers, peasants, etc.) versus the exploiting classes constituting, and privileged by, the State apparatus.”
        Quoted from Rothbard, “Left and Right: The Prospects for Liberty.”(1965), p. 8. (Rothbard relates that this phrase can be traced back ultimately to the radical nineteenth century French liberals Charles Comte and Charles Dunoyer.)

  5. A Teresa deve ter visto na televisão a cerimónia de receção do prémio Nobel pela menina Malala Yusafzai. Terá reparado que essa menina usava um véu a cobrir-lhe a cabeça. A mãe dela, que foi mostrada ao lado do pai (ambos todos babados, como é natural), também usava véu.
    Os pais de Malala eram, no Paquistão, diretores de uma escola para meninas. Defendem a educação das meninas e o seu progresso cultural e social. Porém, mantêm a tradição do véu.
    A própria Malala referiu no seu discurso que estava orgulhosa de ser a primera Pashto a ganhar o prémio Nobel. Ela orgulha-se de ser Pashto, apesar de a cultura Pashto poder ser considerada por nós como altamente machista.
    Tal como eu digo, Teresa, não nos devemos fiar nas aparências. As pessoas (Malala e os seus pais, neste caso) são bem mais do que a roupa que vestem e do que a cultura à qual orgulhosamente pertencem.

    1. Mas não é novidade para ninguém de que muitas muçulmanas fazem questão de usar o véu. Foi uma tradição que assimilaram e eu compreendo isso. Não invalida, porém, que continue a identificar essa tradição com uma cultura machista que considero intolerável e os véus como um símbolo dessa cultura.

  6. Há uma diferença abismal e “!animal” entre o uso do véu e da burka!

    Caro Lavoura: É o mesmo que confundir um tomate com um nabo… devia saber isso!

  7. Na minha opinião, creio não ser essa a pergunta fundamental.

    O que quero dizer é que a superioridade do “Ocidente” Cristão; seja ele Ortodoxo, Católico ou Protestante é, acho eu, indiscutível, tanto Cientifica como Técnica ou Democraticamente falando. O ocidente conseguiu construir uma sociedade democrática, funcional e próspera de um modo nunca antes visto no Mundo.

    E isso é um fato!

    A pergunta fundamental é, na minha opinião, porque é que o Islão que nos primeiros anos da sua expansão pelo Mundo, se encontrava na vanguarda da Ciência, da Técnologia e era socialmente bastante liberal; tendo criado designadamente na Hespanha uma sociedade modelo, acabou por implodir e acabou por se tornar, salvo raras exceções (como a Turquia que acabou por seguir, contra ventos e marés, o modelo Europeu), numa das zonas mais retrógradas do Mundo.

    Para mim a resposta tem a ver com:

    – O Cristianismo ao contrário do Islamismo, separa a religião da política – “ A César o que é de César e a Deus o que è de Deus.”

    – O Cristianismo reconhece a legitimidade do individuo de per si, tentar melhorar o seu Futuro por pensamentos e atos.

    No Cristianismo o tempo é linear e o Futuro tem o potencial de ser melhor que o Passado, já para o Islão o tempo é circular, tudo tem um princípio, um meio e um fim como as estações.

    (Tendo algum cuidado com as comparações, a China sofreu do mesmo problema de marasmo social, o estado laico no entanto ajudou á reviravolta)

    Alem disso como tudo se resume e esgota na religião, no tempo do profeta o Islão era mais puro, o que faz do regresso ao passado um objetivo ético e espiritual para qualquer bom e verdadeiro muçulmano.

    E tudo o que sair desse objetivo é proibido, é pecado, não vale a pena.
    De resto, a crença de que amanhã será melhor se fizermos por isso e a ambição desmedida, tornou a Europa Medieval, á época a região claramente mais atrasada do Mundo conhecido, na Futura potência que dominou e domina o Mundo, só que de momento, através da Europa do outro lado do Atlântico.
    Também aí existem razões objetivas que explicam a substituição dos Países do sul Católicos, pelos Países do Norte Protestantes e o seu modo de ver o Mundo que atualmente domina.

    O Islão com a passar do tempo, deixou de ser o espaço de liberdade relativa de pensamento que foi durante vários séculos (pelo menos em relação ao Cristianismo), para se tornar numa pálida imagem, gerando pouco mais que estados despóticos e muito ressentimento com o Ocidente.

    Ocidente que mal ou bem, com maior ou menor brutalidade, construiu Impérios que dominaram e em larga medida ainda dominam o Mundo.

    Todos os IMPÉRIOS nascem com base no confronto com os poderes pré existentes e isso é válido para todos, sejam eles- Islâmico, Cristão, Romano, Chinês, Asteca ou a Zara.

    Como toda a religião digna desse nome, vê a morte não natural de alguém como um pecado e uma ofensa ao criador do Universo, a conclusão lógica é a de que existem pessoas na área do Islão que querem aberta e objetivamente um choque de civilizações porque acreditam que o Ocidente velho, gordo e amante da vida longa e próspera, não tem nem terá o nervo necessário para se lhes opor, para matar e ser morto.

    No entanto se há coisa que a História ensina é que nem tudo o que parece é, vide a História do Japão na 1ª metade do século XX, inicio e fim.

    O ramo do Islão que adora e prega a morte de tudo e de todos os que não se vergarem a ele, tem neste exato momento várias dezenas, senão mesmo centenas de milhares de combatentes dispostos a morrer e a matar em nome de Alá.

    Oxalá esteja enganado, mas na minha opinião, a procissão ainda vai no adro …

    Só espero que exista bom senso de todos os lados e que como diz a canção sobre a guerra fria – I hope they love their children too.

  8. É um texto vertidito, Teresa, para querer marcar uma supremacia. Deixem eles resolver seus problemas e não arranjemos diversões para nos escusarmos aos nossos que estão por resolver. Tenho mulheres na família, e muitas (algumas já falecidas), e não só. que sempre fizeram o que hoje dizem que não se podia fazer. Creio que o problema é outro.

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