«Porque só nos revoltamos quando há actos de malvadez e o resto dos nossos dias vivemos, alheados, de tudo e de todos? Porque só nos entristecemos quando a barbaridade acontece e nada fazemos para mudarmos essas mentalidades, desde o berço? Porque nos aborrecemos quando alguém diz algo menos próprio relativo a um facto e não paramos para vermos se a sociedade que estamos a construir está ou não no caminho certo? Porque nos escusamos de auxiliar alguém que nos pede ajuda em momentos de aflição e muitas vezes deixamos que actos graves aconteçam e nós, apesar de nos terem pedido ajuda, nada fizemos e até fugimos daquilo que nos iria dar trabalho? Era bom que todos parássemos e fizéssemos um exame de consciência para vermos se estamos, ou não, a fazer uma sociedade mais justa, em vez duma sociedade egoísta e egocêntrica.»
Do nosso leitor Rui Nuno. A propósito deste meu texto.

«« A mama é reaccionária. Direi mesmo: a mama é fascista. A burca é revolucionária. Por isso temos todos de “compreender” a burca. E a mutilação genital feminina. Em nome da “interculturalidade”. »»
(Essa teria de ser dividida pela fonte inspiradora, que é o professor Boaventura.)
Um pouco ao lado, mas, creio, relacionado: quando comecei a ver no Facebook a enorme quantidade de «Je suis Charlie Hebdo», ocorreu-me de imediato o elevado número de pessoas que conheci ao longo da minha vida que calaram aquilo que pensavam para não contrariar, por exemplo, um superior hierárquico. Muitos daqueles que agora se comoveram, sinceramente ou não, venderam a sua liberdade de expressão por uma expectativa de promoção; tão barato quanto isto. Será humano, concedo, mas é também muito triste.
Sim, Carlos. Aliás li o que escreveu no seu blogue e revejo-me em grande parte no que lá está. Tenho visto alguns censores que bem conheço batendo por estes dias a mão no peito, com ares de virgens ofendidas, em louvor e apologia da liberdade de expressão – e é quanto basta para eu ter a certeza de que não podemos estar todos do mesmo lado.
Destruir o céu com bolas de fogo
Invadir o inferno com lanças de papel
Partir a janela penetrar no espaço;
Destruir o piano e fazer um poema
Apagar o sol engolir o mar
Erigir um marco no centro do mundo
Ensaiar alturas rastejar servil
Ocupar palácios esmolar a fome
Cercar o castelo e servir o rei
Empunhar a bandeira de novo senhor
Correr em círculo e gritar em frente
E contemplar inerte
As sombras do esbracejar grotesco
Poema seu, Marquês?
Sim, e em consciência não tenho memória que mesmo inadvertidamente se trate de copianço. Já tem uns anitos mas parece-me frequentemente actual. Na altura quis retratar atitudes e comportamentos cinzentos na nossa sociedade.
Parabéns. Gostei.
Os seus “porques” devem ser “por ques”. O rigor também interessa.