Ouvi de fugida, enquanto passava defronte da televisão com a travessa do peru, o cerne da mensagem de Natal do Papa Francisco para este ano: Ternura.
Comoveu-me pela sua simplicidade e pelo tiro certeiro. Nada de metáforas complicadas em cartas de São Paulo aos Coríntios. Simplesmente ternura. Num ano que me foi particularmente complicado e em que foi a ternura da família e dos amigos que me salvou, não poderia achar de somenos.
A palavra acompanhou-me uma série de dias, como acontece muitas vezes com coisas que nos reconfortam.
Logo a seguir ao Natal, foi a prietada toda para o Rio de Janeiro. Numa noite, à vinda do restaurante, paramos na Toca do Vinicius, uma discaria para os conhecedores, à antiga, onde se encontram exemplares em vinil com João Vilarett a declamar poesia brasileira. À frente de uma loja destas está sempre uma grande figura, não há hipótese. Porque são negócios que vivem do amor. De maneira que lá apareceu o avô Carlos (nas suas palavras), que assim que viu a Xiquinha, a minha filha dos cromossomas a mais, encarnou as palavras do Papa Francisco, e a transbordar ternura foi buscar a correr um CD com músicas infantis do Chico Buarque e do Vinicius.
Agradecemos efusivamente e oferecemo-nos para lhe mandar música portuguesa actual. Respondeu-nos a rir, dizendo que preferia que lhe levássemos uma alheira.
Saímos comovidos, eu com um bocadinho de inveja, confesso, porque também queria ser pequenina e ter um senhor a oferecer-me canções do Chico e do Vinicius.


foi a prietada toda para o Rio de Janeiro
Quem pagou a viagem dessa gente toda?
Tenho a impressão de que aquilo que salva a Francisca não é somente a ternura, é também uma carteira bem recheada.
Caramba, Luís, que andava esperançada de que o novo ano lhe tirasse um bocado de azedume, homem.
Antes de mais, tenho-lhe a dizer que não é lá assim muito bonito falar de dinheiro, sobretudo quando é dos outros. Bem sei que agora está na moda, mas continua a não ser.
Depois, pergunto-me o que lhe vai na cabeça para fazer comentários parvos destes. O Luís sabe lá como e porque é que eu fui ao Brasil. Se tenho lá família onde fico hospedada, se obtive os bilhetes com pontos de passageiro frequente por o meu marido viajar muito, se me saiu um prémio do Continente, se o meu marido trabalhou um ano em Luanda, no Dubai, no Qatar ou no raio que nos parta e resolvemos ter esta viagem como presente de Natal para estarmos todos juntos, ou se simplesmente temos um negócio que, ao contrário da corrente, corre bem. Era só o que faltava tê-lo a vir para aqui falar da minha carteira, sobretudo quando não sabe nada da minha vida.
Vá mandar o seu fel para outro lado faça favor, que eu ainda ando a curtir as réstias de bronzeado.
Eu também queria levar a minha filha ao Rio, mas parece que tenho de ajustar por ter levado anos a viver acima das minhas possibilidades. Isto também tem a sua ternura.
Para a próxima, para não se perder o cerne da história, eu prometo que o avô Carlos é da Brandoa. É que isto do Rio distrai muito as pessoas.
(vá, Nuno, mas teve graça, sim senhora)
Que bela crónica, Francisca. Daquelas que nos fazem sorrir e nos fazem pensar.
Espero que o teu 2015 seja muito melhor do que foi 2014.
Beijinho.
Obrigada Pedro,
Felizmente, o meu início de 2015 tem sido tão bom que até estou desconfiada.
Um beijo grande para ti e bom ano
Cara Francisca, permita que a trate assim,
sua crónica é também de uma ternura imensa. Desejo que em 2015 sua vida e de sua família seja repleta de ternura. Abraços enternecidos
Oh, obrigada. Agora fiquei para aqui toda comovida. Estou cá uma lamechas.
