Não conhecia a ficção de Alexandra Lucas Coelho, apenas as brilhantes reportagens e crónicas, mas depois de ler o seu mais recente romance, O Meu Amante de Domingo, não vou perder mais nenhum livro da autora. Trata-se de um texto dilacerado, cruel, comovente, com humor negro e sem contemplações na linguagem. Nenhum leitor lhe poderá ficar indiferente.
A história é simples: uma mulher de 50 anos, ferida por uma traição amorosa, sonha com a vingança e perde-se num labirinto de dor, desejo, insatisfação, raiva e desespero. No meio, a literatura, sobretudo a literatura brasileira, e a fantasia do sexo, embora os homens sejam aqui uma espécie de lugar comum entre o ridículo e o insensível, homens objecto que constituem uma forma de punição. “A vingança é uma espécie de amante, toma o lugar do morto na cama”, explica em certa passagem a narradora.
O livro tem páginas de grande beleza e outras com linguagem desbragada e propositadamente chocante, mas isso explica-se pela profunda indignação da personagem central, que tem dois planos de discurso, um em que fala directamente aos leitores, provavelmente em pensamento, e outro em que escreve um suposto romance chamado O Meu Amante de Domingo. A prosa de Alexandra Lucas Coelho é apurada e rica, como mostra este exemplo de uma descrição da paisagem alentejana: “Todos os dias subo ao Castelo a pé, para que os olhos corram como um cão que estava preso, até onde a terra cai do outro lado”.
As personagens não têm nome, mas designação genérica: Sancho Pança ou o mecânico, Nosferatu ou o futuro Nobel, o caubói, Apolo; a narradora nunca se identifica, embora se descreva várias vezes; sabemos, pois, que é uma mulher baixa, loira, magra, revisora literária, que vive sozinha. Através desta figura, a autora constrói um texto sarcástico, com linguagem brutal e que, ao estilo da literatura brasileira, não usa reticências. As palavras proibidas são usadas sem poupança e as cenas de sexo explícito surgem sem condescendência ou pudor. E, no entanto, há por aqui uma ilusão de realismo: o sexo é insatisfatório e sem emoções, quase parece ginástica, como na pornografia; no fundo, torna-se uma parte do delírio da personagem, elemento central da sua vingança. Sublinho a dificuldade desta escrita e julgo que não existe um único momento de mau-gosto.
Os diálogos são hábeis, o ritmo de prosa é alucinante, o estilo poderoso e eficaz. Em cada página encontramos frases espantosas, por exemplo, “a minha fúria é mais forte do que o meu lamento”. Algumas destas frases contêm indícios da intenção estética da autora, sobretudo na discussão com Nosferatu, onde este diz que não está interessado no explícito, ou ainda no diálogo um pouco anterior, quando a narradora diz ao amigo para escrever depois de “meter o dedo na ferida”. No primeiro caso, o oposto do que se pretende; depois, o intuito da exploração da dor íntima.
Neste livro tão bem escrito é notável a prosa aflita do capítulo onde se revela a razão da vingança, como se a personagem, ali, perdesse o pé e o fôlego. Há no texto um constante exagero, nos delírios, na riqueza do vocabulário, na brutalidade dos insultos e nas referências literárias. A meu ver, este último excesso, demasiada literatura, é o maior defeito do livro, embora se possa argumentar que faz parte da caracterização da narradora, onde existe boa dose de histeria. O fio da narrativa tem igualmente fragmentação invulgar na fase final, quando tudo acelera e o foco se engasga. As personagens secundárias são demasiado efémeras e desaparecem, há igualmente digressões que, apesar do interesse, parecem inúteis para o desenvolvimento do romance: cito apenas a história de Euclides da Cunha, metida um bocado a martelo, boa para uma crónica, desnecessária naquele contexto.
Tirando estes pormenores menos felizes, O Meu Amante de Domingo é um livro inteligente, desassombrado e profundamente original. O título evoca os “condutores de domingo”, aquelas figuras inábeis e desajeitadas que infernizam a vida aos que têm pressa. Os homens, aliás, são ineptos e tolos, ou apenas cruéis. As mulheres estão desprotegidas perante uma brutalidade masculina que não aceitam. Como explica a narradora, “os homens são a imaturidade das mulheres, difícil não ficar refém deles”. Neste romance, Alexandra Lucas Coelho consegue subtilezas que fazem pensar e atinge um grau de inquietação que, no fundo, nos fala do medo da mudança, do envelhecimento e do declínio. A maior traição, parece, é não suportarmos a verdade. E como isso é actual.

![17851911_VDcLz[1].jpg 17851911_VDcLz[1].jpg](http://9.fotos.web.sapo.io/i/Bba1419bf/17880546_UZpQf.jpeg)
Meu caro Luís Naves,
com um abraço fraterno e os votos de um:
https://www.youtube.com/watch?v=51bO1CVP WRA
discordo da inutilidade ou pelo menos redundância da euclidiana. tem a ver com a traição, com o embuste, mesmo ao fim de tantos anos.