O ano de 2015


Luís Naves,

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A mitologia da catástrofe criou uma mentalidade que tarda em desaparecer. Torna-se penoso mencionar factos, quando estes apontam para a melhoria da situação económica e social, pois muitas pessoas simplesmente recusam a possibilidade de já não estarmos em crise. As lojas estão cheias e nos restaurantes é difícil encontrar mesa, mas o espírito da indignação continua bem vivo.

A situação na Europa parece mais positiva do que nos diz a comunicação social. Em 2015, a baixa do preço do petróleo e o aumento da confiança na Alemanha terão impacto favorável, isto apesar de não terem desaparecido todos os riscos políticos. As presidenciais gregas podem implicar uma eleição antecipada (veremos no final do mês) e prossegue a ascensão do Podemos, mas o facto é que há várias economias em recuperação. As incertezas sobre a Rússia e os efeitos das sanções não podem ser ignorados, mas a Europa apresenta boas perspectivas para o próximo ano.

Tudo indica que em Portugal o défice de 2014 ficará abaixo de 4%, o que facilitará o cumprimento da meta do próximo ano sem novas medidas de austeridade. As exportações estão a crescer mais depressa do que se esperava e o preço do crude, a manter-se durante alguns meses, será uma boa oportunidade para se conseguir crescimento acima de 1,5% em 2015. O bom desempenho das exportações associado à recuperação da procura interna é compatível com a preservação dos excedentes da balança corrente e de capitais. Isto significa que o País tem condições para se financiar nos mercados e para reduzir a sua elevada dívida pública.

O Banco de Portugal espera mais investimento, mais exportações e a renovação do saldo positivo da balança externa, o que significa que o aumento do consumo não implica endividamento insustentável. O crescimento acima do valor para a zona euro é ainda modesto e criará emprego de forma insuficiente, mas no último ano foram criados cem mil postos de trabalho (mesmo que um terço resulte de políticas activas de emprego, é um número positivo). Crescimento acima da zona euro significa convergência com o rendimento médio europeu, ou seja, uma boa medida de final da crise.

Apesar de todos estes indicadores favoráveis, só vejo análises deprimentes. Os comentários nas redes sociais e na imprensa estão cheios de demagogia e tremendismo. Continua a indignação com trivialidades, como se os pessimistas que nos mandaram desistir ao longo dos últimos três anos, porque era impossível e íamos morrer todos, agora nos quisessem afogar na praia.

14 comentários em “O ano de 2015”

  1. E a dívida? E o desemprego? E a falta de investimento? E a baixíssima natalidade? E os mais de 350 mil que emigraram? E os políticos corruptos? E as falências dos bancos? E as reformas que continuam por fazer? E a balança de pagamento que continua desequilibrada? E a venda por meia dúzia de patacos de tudo o que é público? E as cantinas das escolas que têm que permanecer abertas durante as férias do Natal porque há pessoas que não têm comida suficiente em casa?
    Os restaurantes e as lojas continuam cheios?
    Somos ambos portugueses mas parece-me que vivemos em mundos diferentes.

      1. Se calhar está a falar, entre outras coisas, disto:

        http://portocanal.sapo.pt/noticia/34387/

        e disto:

        http://www.dinheirovivo.pt/Imprimir.aspx?content_id=4229156

        e ainda disto:

        http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Fisco/interior.aspx?content_id=4067717&utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:%20DV-ultimas%20%28DV%20-%20Ultimas%29

        E mais isto:

        http://www.msn.com/pt-pt/noticias/other/despesa-do-estado-subiu-mil-milh%C3%B5es-desde-2011/ar-BB9wu9L

        para não falar disto:

        http://visao.sapo.pt/divida-publica-sobe-e-atinge-os-134-do-pib-ate-junho=f793402

        1. Não vou discutir factos com um comentador que não tem qualquer dúvida sobre os erros do meu texto. Se está tudo errado, para quê perder tempo? Mas não resisto a comentar as fontes que cita, com informação usada para sustentar os mitos que pretende defender.

          A informação da primeira notícia é sobre uma crise demográfica que não tem relação directa com os números da emigração. Não há números fiáveis sobre este fenómeno e os oficiais contabilizam muita gente duas e três vezes. Podia tentar explicar um pouco melhor, mas basta dizer o seguinte: os famosos 350 mil são a soma dos fluxos de emigrantes à chegada (novos portugueses no Luxemburgo, mais Suíça, mais Reino Unido, etc.), mas ninguém sabe quantos voltam ao fim de seis meses e depois emigram de novo no ano seguinte. Muitas pessoas estão a ser contadas duas e três vezes, porque trabalham numa base sazonal, estão seis meses lá, regressam a Portugal, e no ano seguinte emigram de novo. A emigração real é provavelmente metade da geralmente citada, mas trata-se de um palpite. Aliás, a emigração já se verificava antes da troika, para aproveitar as oportunidades de trabalho em Angola e a livre circulação na Europa.

          A segunda notícia confunde pobreza com crise. Deixámos de ser pobres? Não. A economia caiu 6% durante a crise e o desemprego aumentou até meados do ano passado. Seria um milagre que houvesse menos famílias falidas. O rácio da dívida pública aumentou (pois, se o PIB cai e a dívida se mantiver, o rácio aumenta), mas convém ter presente que este aumento em 2013 e 2014 se deve à acumulação de reservas para aguentar 2015 e 2016, quando estivermos a financiar a economia com recurso aos mercados. Foi aproveitada a baixa de taxas de juro, mas agora a dívida começa a baixar. A notícia sobre a despesa não diz respeito ao ano todo e há custos com juros, mais subsídio de desemprego, etc. Uma coisa é inegável: se a despesa não estivesse sob controlo não tínhamos passado no último exame da troika e o défice nunca baixava.

          1. Não fui claro no primeiro ponto. Existe uma crise demográfica em Portugal e o número de indivíduos nas várias faixas etárias mais jovens está a diminuir: os que passam para a faixa seguinte são em maior número do que aqueles que entram naquele intervalo de idades. Ou seja, é previsível uma quebra constante do número. Depreender que se trata de emigração corresponde a um erro de análise.

      2. Um mito, 350 mil emigrantes?
        (http://www.pordata.pt/Portugal/Emigrantes+total+e+por+tipo-21)
        A balança de pagamentos foi positiva em 2013 (e não desde 2013) à custa do brutal empobrecimento dos portugueses, como foi positiva em 1943 à custa do volfrâmio que o Salazar vendeu aos dois lados do conflito mundial e à fome que muitos portugueses passaram nessa altura.
        Realmente há coisas que nem têm discussão, são do puro domínio da fé.
        Ou da falta dela…

        1. Não compreendo este comentário. Faça o favor de somar os números da fonte que cita. Onde estão os 350 mil? Durante o período de ajustamento o número de emigrantes permanentes ronda os 150 mil.

          1. O número total de emigrantes ronda os 300 mil, incluindo permanentes e temporários. As definições, tanto de temporário como de permanente, são subjectivas, na medida em que caracterizam uma intenção, que pode ou não concretizar-se.
            Seja como for, foram 300 mil e não 150 mil as pessoas que saíram de Portugal nos últimos três anos, números oficiais.
            Se considerarmos que os números oficiais pecam sempre por defeito, tanto na emigração como no desemprego, é natural que os tais 350 mil não andem assim tão longe da realidade.

  2. Compreendo o sentido de seu texto, Luís. E mais ainda elogio-lhe a esperança que pretende transmitir ao oferecer esta sua perspectiva sobre a situação económica e social.
    Dito isto, primeiramente vou focar-me em Portugal. E em Portugal nós temos a grande vantagem de ser um povo muito desligado das violências. E esta característica, associada à nossa tradição cristã, ainda que muitos possam ser ateus, e a capacidade de termos esperança, que hoje se vai construindo já sem as atitudes esperançosas de um sebastianismo quase que mitológico, permite-nos uma coesão afectiva e emocional que nos faz sentir a “solidão”, mais que a pobreza, como um sentido. Muitos designam este percurso por “carregar a Cruz”. Mas é necessário compreender que carregar a Cruz é um símbolo de União. É compreender que o único sofrimento legítimo é o que tem sentido, aquele que não só visa ultrapassar as circunstâncias como também sente-se que o resultado do mesmo é uma herança generosa e bem mais agradável que aquela que se herdou e que se vive.

    Aqui chegado, estranho que numa sociedade dita de técnicas e ciências – eu considero-a mais de truques pseudocientíficos e de alguns pavoneios pseudo-intelectuais – o seu texto não nos remeta para as fontes que possam corroborar muitas das afirmações.
    Pouco me importa que haja restaurantes cheios, porque sei que hoje se vive o ciclo que Portugal viveu nos anos 80 nesta matéria. No período que medeia o recebimento dos salários da função pública, associando aos salários do privado, até ao dia 9 do mês seguinte vemos realmente tais movimentações. Mas o tempo restante é feito de “um pastel de bacalhau, sopa e um copo com água”. Mas também da compra num ou noutro supermercado de uma refeição que fica à volta dos €3,00, quando ela não vem na marmita preparada em casa. A refeição maior será feita ao jantar se o orçamento permitir.

    A redução do preço do petróleo, ainda que importante para os países importadores, não define que tudo possa correr bem. E explico: o preço das commodities, onde também se inclui o algodão, a soja, o ouro, a prata, têm vindo a registar alguma instabilidade, em queda e com alguns momentos de subidas especulativas. A este facto acresce referir a quebra no consumo do ferro, o que significa uma desaceleração industrial e também menos produção de aço. Mas também outras matérias primas.
    Deixo aqui um gráficos para verificar, uptodate, as mexidas ao longo do ano, de alguns produtos: http://money.cnn.com/data/commodities/

    Significa isto, Luís, que os “mercados” ou os mercadores depois do colapso do negócio a leste, em particular com a Rússia, somado à descida do preço de petróleo e à instabilidade do preço das commodities (por influência da crise), que eram mercados de recurso que lhes permitia manter taxas de juro mais baixas, virar-se-ão naturalmente para o aumento destas.
    Significa isto que, perante este cenário, o preço do petróleo per si não conseguirá suprir os valores do serviço da dívida, custos e comissões, nem tampouco os juros que poderão sofrer um aumento significativo. Associe a este facto a desaceleração nos países emergentes dependentes da venda e do preço de petróleo.

    Por outro lado, o Luís não nos revela um aumento da empregabilidade, mas uma habilidade numérica que não colhe provimento nesta matéria.

    E se faz referência ao que espera o Banco de Portugal, permita, com toda a humildade, dizer-lhe que se o BdP não equacionar as vertentes que aqui reproduzo está totalmente enganado.
    Por último, o nosso défice não baixa em valor, o que ocorre relativamente a este facto é que o valor das receitas, em particular os impostos deixados pelos turistas, estão acima do previsto e isto poderá levar à possibilidade de um défice de 3,7% ou 3,8%. A boa notícia são as receitas extraordinárias e não a despesa que se mantém (e ainda bem que se mantém). Quanto à dívida, não há condições para a abater, mas sim para nos prepararmos seriamente para renegociá-la.
    Estou à disposição para dialogar com alguém que contrarie as perspectivas e certezas aqui deixadas.

    1. Luís,

      para reforçar a minha ideia sobre a falsidade dos 100 mil empregos criados, quero aqui deixar os resultados consolidados sobre os empregos disponíveis deixo aqui esta ligação:
      http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=1&did=172373

      Se fizer as contas, e comparar com os dados que lhe tinha fornecido num post anterior, se tivesse em conta um universo de 800.000 desempregados oficialmente registados (que não existe por razões sobejamente conhecidas), verificará que a taxa de empregabilidade efectiva ainda está mais abaixo dos 9 mil empregos ali mencionados.

      Significa isto, meu caro Luís, que o dito emprego ou Vida Activa tem pressupostos que aparentam escravidão e chantagem.

      1. Caro Luís,

        peço-lhe que contemporize com minha insistência. Na minha recolha de dados económicos um pouco por este mundo, dei com a recente nota emitida pelo Banco de Portugal:
        http://economico.sapo.pt/noticias/actividade-economica-afunda-para-o-valor-mais-baixo-desde-o-verao-de-2013_208576.html

        Fico surpreso com a afirmação feita em seu texto que remete os dados positivos que alega para projecções do BdP.

        Eu não sou um pessimista. Simplesmente entendo que a única forma de se poder vencer uma situação é encarar a Verdade de frente. Ninguém pode trabalhar conscientemente se pretender tratar a realidade com visões emocionais.
        Creio que é chegado o momento deste governo, e o próximo que virá, começar a encarar a realidade de forma séria para alterar os rumos seguidos.
        Para isto é necessário renegociar os dinheiros vindos para as pseudo-formações e usá-los disponibilizando-os aos cidadãos que dele necessitam para a sua vida elementar (Reforço do RSI, pensões sociais e prestações sociais de desempregados que ultrapassaram o período normal de recebimento do subsídio).

  3. Aos números diz nada. Quer explicar como um eventual crescimento de 1.5% paga um novo endividamento de 4%?

    Esqueceu-se ainda de referir que o petróleo “barato” se for reflectido nos preços – o que não é porque o preço da gasolina não passa de um Cartel do Governo do momento para financiar o Estado – implica menos receita.

    Tudo o que é barato é um problema para o Estado Socialista.
    Por isso não a batota vai continuar.

  4. E ainda com tanta previsão “tremendista” feita e sucessivamente falida há gente que não entende porque muito cidadão se abstém e se aparecer uma formação bem estruturada, com propostas credíveis, estes políticos de pacotilha levam uns patins bem à medida.

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