No moderno mundo profissional vemos constantemente os conselhos para progredir na carreira. Desde os “7 hábitos de pessoas muito bem sucedidas”; aos conselhos sobre o que dizer ou perguntar e como agir em entrevistas; passando pelos inevitáveis apelos a empreendedorismo, iniciativa, destaque no meio da multidão, formas de discernir quais os maus chefes ou se estamos entalados numa determinada posição.
Não sou alguém que se aborreça com conselhos, bem pelo contrário, aceito-os de bom grado, mas pergunto-me onde neste mundo há espaço para as pessoas que não têm ambições especiais. Não falo daqueles que vão atingindo o seu tecto, que por força de idade, capacidades ou qualificações não se conseguem desenvolver mais. Falo apenas daqueles que, sendo capaz de se destacar, preferem não o fazer. Falo dos milhões de profissionais que gostam de facto das suas funções e não as trocariam por uma carreira de sucesso pela simples razão que… já são bem sucedidos ao serem pagos por fazer aquilo que lhes dá prazer.
Este é apenas mais um reflexo da cultura moderna ocidental que leoniza os profissionais muitíssimo bem sucedidos e os dá como exemplos para toda a gente. É uma cultura que também acaba por menorizar os outros, que não se desenvolveram mais simplesmente porque não era possível, não é possível a todos serem gestores. É ainda a cultura que promove encontros de antigos colegas de escola e universidade que promove confissões quando alguém é felicitado por ser um gestor sénior: «Sim, sou o gestor sénior de mim mesmo». Ou quando as boas e velhas secretárias (que continuam a ser as figuras mais influentes em muitas organizações) são promovidas a “assistentes de gestão”. Não estaremos longe do momento em que o nome “Gestor de resíduos processuais administrativos” será entregue a quem despeja o cesto dos papéis.
Peço que não me vejam como um velho do restelo. Não quero o regresso aos tempos em que ser um manga de alpaca era o sonho promovido pelo governo ou mundo empresarial. Há no entanto um momento em que o marketing na área das carreiras deixa de ser vantajoso: esse momento chega quando deixamos de chamar os bois pelos nomes e temos que lhes dar o título de “gestores de motricidade de transportes não motorizados”.

Diz que fala “dos milhões de profissionais que gostam de facto das suas funções e não as trocariam por uma carreira de sucesso pela simples razão que… já são bem sucedidos ao serem pagos por fazer aquilo que lhes dá prazer”. Isso só será assim – milhões – se estiver a pensar em toda a humanidade, porque, se estiver a pensar só em Portugal e nos portugueses, isso não corresponde, minimamente, à realidade. Digo isto porque, se assim fosse, lá se ia o “princípio de Peter”…
Estive de facto na dúvida sobre se escreveria “milhões” ou “centenas de milhar” mas entendi que o texto era aplicável ao mundo ocidental moderno e não apenas a Portugal. Dessa forma “milhões” pecará certamente por defeito. E o seu comentário tem obviamente todo o sentido.
Já o princípio de Peter é algo que vejo como divertido. Pelo seu comentário vejo que o compreende, mas muita gente entende-o de forma errada: julga que quer dizer que apenas incompetentes serão promovidos quando isso é manifestamente o contrário do enunciado.
André, olhe que o livro “O Princípio de Peter” não é apenas divertido: repare que o autor, a brincar, fala de coisas sérias.
Se leu, terá reparado que ele procura ensinar, aos seus leitores, formas de evitar que atinjam os seus níveis de incompetência, ou seja, aconselha-os a recusem a promoção e se “mantenham” na posição que ocupam, que não troquem as suas actuais carreiras por uma eventual carreira de sucesso (?), porque “já são bem-sucedidos ao serem pagos para fazerem aquilo que lhes dá prazer” e onde se sentem e são tidos por competentes.
Mas, pelo que se vê por aí, o que eu penso é que esse número é muito reduzido.
Infelizmente ainda não li o livro (mas é uma bela sugestão para prenda de Natal, obrigado pela ideia). Conheço essencialmente o princípio.
Concordo que deveríamos de facto ficar onde estamos felizes e somos eficientes. Infelizmente isso colide frequentemente com aquilo que sabemos: a sociedade e o pensamento empresarial promove um esforço cada vez maior com a promessa mítica da “promoção”. E colide também com um outro desejo muito humano: o de procurar os próprios limites, saber até onde podemos chegar.
Infelizmente não tenho qualquer solução para isto. Posso saber identificar o problema, mas caio vítima dele também.
Temo que tenha dificuldade em encontrar o livro, mas se procurar encontra. E leia, que vai gostar.
Aproveito para lhe desejar bois-festas.
è um bom tema… Mas parece-me que tratar este desejo avassalador do “sucesso” imposto a todos os cidadãos, apenas como uma mera chatice é pouco…
Como diz, e muito bem, não é possvel que todos sejam gestores excepcionais ou empresários de sucesso. Na verdade, por definição, apenas uma pequena minoria algum dia encaixará na definição.
O que nos leva ao efeito verdadeiramente pernicioso produzido por esta “filosofia de vida” (?!?), promovida até á exaustão. tende a criar enormes grupos de 1) Frustrados, porque não conseguem encaixar no estereótipo de sucesso e 2) “trafulhas intelectuais”, que não olham a meios para (pelo menos) parecer que têm sucesso.
Nada tenho contra a promoção da competência, do trabalho, da ambição, da excelência e do sucesso. Bem pelo contrário!
Tudo coisas boas, quando o resultado final do “sucesso reconhecido por todos” não se torna o único objectivo que legitima todos os meios ou trucida quem não o atinge.
A sociedade onde vivemos é o caldeirão perfeito para criar tudo aquilo com que, mais tarde, nos indignamos…
Miguel
É de facto muito mais que uma «mera chatice». É essencialmente uma ferramenta da gestão para motivar os trabalhadores a esforçarem-se mais, a trabalharem de forma mais intensa ou mais horas ou outro mais qualquer. A promessa é um mítico pote de ouro no fim do arco-íris, com a vantagem de algumas pessoas lá terem chegado. Para enganar tolos dão-se uns títulos intermédios aos trabalhadores que não se pode/quer promover e que os vai mantendo satisfeitos (no filme State and Main há um belo running gag acerca dos produtores associados: http://www.imdb.com/title/tt0120202/tri via?item=qt0349586).
Pessoalmente vejo isto como uma variação do “sonho americano”, algo que é atingido por uma quantidade infíma de pessoas, mas que pela sua natureza acaba por permitir que um país inteiro viva para trabalhar em vez do oposto.
Link errado. Este está correcto: tes?item=qt0349586
http://www.imdb.com/title/tt0120202/quo
Não será uma sociedade que teme, teme de si mesma, desenvolvendo-se neste afã de competição. Uma sociedade menos ligada, onde o sentido de comunidade é cada vez mais pequeno. Eu vejo isto nos pequenos gestos, a falta de uma boa noite (ou bom dia) de alguém que está ao teu lado, precisamente ao teu lado. É também uma sociedade há procura de heróis diferentes (não religiosos ou míticos), porque eles têm sempre de existir. Às tantas é uma sociedade que desaprende de comunicar, querendo a super-velocidade da mesma.
No campo do misticismo, a promoção toma o lugar dos heróis ou do paraíso. Trabalha-se não para ascender à graça divina mas para chegar à promoção. É indiferente se é necessária ou desejada.
Completamente de acordo. O empreendedorismo, por exemplo, tem sido vendido aos jovens como uma necessidade de crise e um sinónimo de sucesso profissional. Pode ser um bom caminho, sim, para quem não quer andar ao sabor das vagas de emprego. E, bem vistas as coisas, o principal objectivo da formação superior/profissional não é garantir um emprego, é antes oferecer conhecimento e competências – que podem ser aproveitadas de forma autónoma. Mas acho que uma pessoa só deve apostar no empreendedorismo se entender que isso lhe interessa, que é a sua vocação. O mesmo se aplica ao «ser líder» (outra obsessão pós-Troika), como se toda a gente tivesse de ser líder e as capacidades de liderança viessem nas caixas de cereais.
gostei imenso deste teu post e acho que traduz em muito a sociedade em que vivemos.
Já nem me refiro ao facto de catalogarmos de gestor a pessoa que despeja o cesto de papéis como tu tão bem ironizaste, mas sim ao descrédito que essa pessoa tem por não ambicionar ser mais do que aquilo que é. Ou melhor, por ambicionar ser exactamente isso e como tal estar feliz nessa condição sem ter de ser o senhor Eng. ou Dr. ….
Gostei do que li.
A pressão sobre as pessoas para “progredir” na carreira profissional, sob pena de se ser considerado um falhado, está perfeitamente em linha com o modelo económico, não do mundo ocidental, mas de toda a humanidade. Para que a economia esteja de saúde, é necessário que cresça. Que cresça sempre e todos os anos. Se não crescer, uma décima que seja, entrará em estagnação. Talvez já tenha havido quem tenha estudado este assunto mas, aplicar o princípio de Peter à economia é capaz de ser um tema interessante.
O meu discurso é muito similar ao que descreve aqui neste post. Não temos de parecer um exército onde sò existem altas patentes e soldados rasos. Até porque o mundo não necessita sò de dirigentes. E para ver o nosso trabalho reconhecido (porque todos gostamos disso), não é necessàrio nomes pomposos ou prémios duvidosos. Para isso basta que sejamos recompensados adequadamente e que sejamos respeitados.
O problema começa na recompensa, que não é preciso dizer que é mal feita na maioria dos casos e nas diferenças astronòmicas que existem.
Por exemplo, um qualquer funcionàrio de uma empresa, que recebe 600€ para estar de “piquet” em caso de avarias, sente-se motivado sabendo que existem dirigentes que recebem o valor de um carro de luxo como ordenado mensal? E que esse dirigente e a sua mà conduta de gestão podem levar ao seu despedimento, não porque fez um mau trabalho, mas porque os que são bem pagos não o fizeram? Não se sente motivado e não se sente respeitado.
O que pensa ele? Que prefere ganhar mais mesmo que não faça um bom trabalho, é muito melhor carregar um tìtulo.
E em relação ao respeito? Não é sò da parte das mesas administrativas, muitas vezes bem dos seus pares. Porque em Portugal ainda se idolatra o “Sr. Doutor”. E a imprensa dà enfâse a isso.
Existem excepções à regra, e à empresas com boas lideranças que fazem todos sentirem-se ùteis ao funcionamento da organização. Tive essa sorte num passado recente. E apesar de pensarem que sou doida eu gostava do que fazia e era boa nisso. E tinha consciência que jà não seria tão boa se subisse mais um patamar. Na era de dar nome a tudo, a isso chamam: “Inteligência Interpessoal”. Gostava do que fazia, era dignamente recompensada, era respeitada por isso, era feliz.
A vida dà as suas voltas e abracei outro desafio, mas fica a memòria de que aquilo que descreve é possìvel, é saudàvel e muito mais produtivo e justo que o modelo dos “Sr. Doutor”.