Chuis


Cristina Almeida,

A Avenida Duque de Loulé é um símbolo de um Portugal que eu rejeito. Durante o dia é uma rua normal de escritórios, com um estacionamento difícil mas ordenado. A partir da onze da noite transforma-se numa república das bananas, com descapotáveis topo de gama de cores garridas largados em terceira fila nas paragens de autocarros. O foco de atracção dos lustrosos proprietários destes bólides, e dos igualmente lustrosos seguranças privados que lhes abrem as portas dos veículos, é a correnteza de bares de alterne de um lado da rua. Não me move nada contra o negócio – cada um paga as contas como pode – mas repugna-me a presença constante e submissa de dois polícias – contratados, com serviços pagos à parte – que zelam para que ninguém incomode os autores das infracções. Como moro ao lado e qualquer rodita em cima do passeio perto da minha casa me custa um ror de dinheiro, considero seriamente a hipótese de trocar de carro para um Z3 amarelo e começar a deixar as chaves ao porteiro do Night and Day. Claro que, à hora a que saio de casa, já as meninas dos clubes dormem a sono solto e o meu Z3 amarelo fará uma triste figura abandonado no meio da avenida, mas sempre tiro a limpo a que horas é que a lei muda em Portugal.

12 comentários em “Chuis”

  1. Cristina! Com um Z3, ainda por cima amarelo, tenho a impressão de que não se safa… Ou, então, na melhor das hipóteses, arrisca-se a que julguem que é o carro de um dos tais seguranças, ou dos polícias, o que era capaz de até nem ser mau de todo, atendendo ao fim em vista.
    Mas já agora, vá por mim e tente uma coisa mais modernaça e vistosa: – um Z4, um Aston-Martin Volante, ou um Ferrari Mondial Spyder. Vai ver que o resultado é infalível e não vai haver passeios nem multas que lhes resistam.

  2. Todos os dias, quando cada dia chega ao fim, questiono-me sempre se adicionei qualquer coisa aos meus conhecimentos, ou se algo me aconteceu que tenha valido a pena mais este dia numa sociedade ingrata e injusta, onde – embora com promessas em contrário – o Artº 13º da Constituição da Republica não é cumprido pelos políticos. E hoje, neste momento em que ainda há Sol, concluo que já valeu a pena este dia, pelo facto de ter descoberto este espaço. Como já deixei escrito junto a outro texto, vou voltar. Já agora, CFA, já vivi nessa zona, que deixei há mais de 30 anos.

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