Cadernos de um enviado especial ao purgatório (57)


Luís Naves,

Certos comentários sobre os vistos dourados não escondem significativa dose de xenofobia. Só se fala dos chineses, associados na frase seguinte à ideia de corrupção. A China tem uma das economias emergentes mais dinâmicas do mundo, não sendo surpreendente que esteja ali o maior mercado destes vistos dourados. Sim, é um mercado, embora alguns considerem que estamos perante uma questão moral e, de forma sempre subtil, até racial.

As notícias sobre o caso de polícia sugerem que as pessoas detidas são suspeitas de terem criado uma rede que enganava eventuais beneficiários dos vistos, acelerando o processo burocrático em troca da venda de casas com valor real abaixo do solicitado. E, no entanto, esta história criou uma onda de críticas ao próprio conceito, achando-se que o mal está nos chineses ricos que querem facilitar a sua entrada no espaço europeu.

Uma das críticas mais bizarras é de que os vistos deviam ser iguais para todos, o trabalhador braçal e o milionário. A ideia é ingénua e até um bocadinho infantil: imagine-se o milionário que quer construir uma fábrica em Portugal e tem de pedir o visto como se fosse camponês. Em todos os países, a política de vistos é construída em torno da ideia da diferença (estudante, turista, intelectual, empresário, familiar, trabalhador pouco qualificado). Outras críticas afirmam que os detentores de visto dourado só compram casas ou que nos estamos a vender por pouco. São afirmações estranhíssimas, como se a compra de uma casa fosse algo de ilícito, como se o dinheiro investido não servisse, como se o custo de um visto tivesse alguma coisa a ver com a venda da pátria ou da alma nacional.

Em conclusão, por causa de um esquema em que os pagantes eram esfolados, os críticos exigem o fim do privilégio. Em questões europeias, os portugueses são uns anjinhos. Na Europa, há países com questões de emigração politicamente complicadas, nos quais a tese dos vistos dourados será sempre vista de forma negativa, o que explica notícias devastadoras e o alarme com a segurança europeia, que nunca esteve aqui em causa. Há também países sem problemas de emigração e esses não hesitarão em usar sistemas de via verde para obtenção de vistos privilegiados, se as pessoas os puderem pagar.

8 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (57)”

  1. Luís,

    a equação é simples e não é necessário envolvermo-nos em enredos sobre chineses e xenofobia.
    Se para obter um visto edifica-se um esquema com as proporções noticiadas isto só pode revelar que o ouro é merda e merda da grossa.

    Da China ninguém pode esperar investimentos, quando muito compras em saldo. É o que tem vindo a suceder com a EDP e com os seguros da CGD. O investimento que se precisa é de outra natureza.

    Mas deixe-me dizer-lhe que se eu fosse chinês e começasse a avaliar que a minha massa compraria, por exemplo, um espaço de garagem para automóvel em Macau por 300.000 euro, e que o direito chinês não permite a existência de heranças para além de uma casita, mas condicionada no tempo, como usufruto, eu faria o que a maioria está a fazer, isto é comprar uma casita e colocar a massa no banco; sem mais.

    Mas os gold não se restringem aos chineses, também há africanos. Eu gostaria que se fizesse um estudo sobre o perfil de todos estes “investidores”.

  2. Caro Luís Naves,

    Permita-me enfiar a carapuça. E agora passar ao comentário:

    – Não tenho nada contra investimento de chineses, tenho contra investimento chinês. Se quiser simplificar, por mim podiam vender a EDP ou a REN a empresas da Formosa à vontade, já à RPC me mete mais confusão.

    “Uma das críticas mais bizarras é de que os vistos deviam ser iguais para todos, o trabalhador braçal e o milionário. A ideia é ingénua e até um bocadinho infantil: imagine-se o milionário que quer construir uma fábrica em Portugal e tem de pedir o visto como se fosse camponês. “

    Se o empresário quiser vir para cá construir uma fábrica, força. Aliás, do programa, o requesito para criação de postos de trabalho parece-me o único moralmente legítimo. Sabe quantos vistos foram atribuídos com esse pressuposto (inicialmente 20 postos de trabalho, depois reduzidos para 10)? ZERO.

    O que se passou foi pura e simplesmente um aluguer de cidadania (que é o que um visto de residência de facto é, uma cidadania “light” temporária) a quem pagava a comissãozinha. E isso, e referenciando ao excelente artigo do João Miguel Tavares, não é admíssivel.

  3. Por favor, acrescente ao anterior comentário que o facto de a China continuara em desaceleração poderá originar mais fugas de capitais do que as que poderão estimar-se.
    Por outro lado, o investimento Chinês, entenda-se do governo chinês, reflecte somente a sua necessidade de controlar empresas e/ou sectores estratégicos no estrangeiro para poder gerir a sua capacidade de influência. Não se espere portanto que eles venham para a Europa ou EUA fazer industrias e/ou a edificação de outro tipo de negócios. Eles querem tutano e o que lhes dê forte poder de influência.

    O panorama é este:

    http://economico.sapo.pt/noticias/economia-chinesa-continua-a-dar-sinais-de-forte-desaceleracao_206473.html

    http://economico.sapo.pt/noticias/actividade-economica-na-zona-euro-desliza-para-minimos-de-16-meses_206470.html

  4. Ajuda para quem comenta ou gosta simplesmente saber, dar uma vista de olhos pelo número de vistos gold dos EUA ou de Londres e fazer um apanhado do impacto económico. (O Vale e Azevedo tornou-se incomodo em Londres quando deixou de pagar as contas)

  5. De todo o seu comentário que, naturalmente, respeito, só posso concordar quando diz que estamos perante um mercado. Digo até que estamos perante um mercado que ultrapssa, em larga escala, os chineses e as suas ambições na europa. O mercado reporta-se, sim, à venda da cidadania europeia e de toda amlivre circulação de pessoas, capitais e bens que essa cidadania traz consigo e que nunca um chinês ou um árabe sequer almejaria.

    Todavia, discordo totalmente quando diz: “Uma das críticas mais bizarras é de que os vistos deviam ser iguais para todos, o trabalhador braçal e o milionário. A ideia é ingénua e até um bocadinho infantil: imagine-se o milionário que quer construir uma fábrica em Portugal e tem de pedir o visto como se fosse camponês. Em todos os países, a política de vistos é construída em torno da ideia da diferença (estudante, turista, intelectual, empresário, familiar, trabalhador pouco qualificado). Outras críticas afirmam que os detentores de visto dourado só compram casas ou que nos estamos a vender por pouco. São afirmações estranhíssimas, como se a compra de uma casa fosse algo de ilícito, como se o dinheiro investido não servisse, como se o custo de um visto tivesse alguma coisa a ver com a venda da pátria ou da alma nacional”.

    Discordo porque acho que sim, se o camponês puder ter o dinheiro necessário, deverá ser-lhe o visto concedido tão rappidamente quanto ao milionário. A ideia não é ingénua, como diz, mas sim a de que a lei deve ser igual para todos. Se a mim, milionário, não me perguntam onde auferi tanto dinheiro, a mim, camponês, também não me devem perguntar qual o cultivo que me permitiu ter tais quantias.

    Depois, discordo da abordagem que faz das ideias de visto. De facto, os visto de que fala existem, mas pressupõem uma estadia temporária nos territórios dos países, daí a distinção do objectivo com que ingressam no país. Ademais, esses vistos só atribuem alguns direitos e nada têm a ver com a cidadania.

    Finalmente, a compra de casas é de louvar e nada tem de ilícito. Contudo, a crítica que é feita é que a lei prevê, também, que esse mesmo visto dourado seja atribuído a quem estabeleça negócios em Portugal, com criação líquida de emprego. Quantos foram atribuídos nesta base? Que eu tenha conhecimento, nenhum. Creio que será daí que vem a crítica, ou seja, não há criação de nada de estimule efectivamente a economia nacional.

    Pessoalmente, não concordo com esta política dos vistos gold. Não por qualquer questão racial, mas pelo princípio que lhe subjaz, ou seja, pode ser atribuído a qualquer pessoa com dinheiro e que lhe “apetece” ter aqui uma casa cara e, puff, fica lá com a cidadania portuguesa. É só uma opinião.

  6. A atribuição de um visto de residência é uma burocracia infernal. Não sei ao certo como decorre agora esse processo, mas lembro-me com horror dos problemas que teve a minha mulher para obter um visto de residência: era casada com um português, tinha um bom emprego, mas o azar de pertencer a um país considerado de segunda categoria, de fora da UE, ainda por cima do leste. Foi em 1989, não me esqueço. Para mim, esta conversa de imoralidade e do branqueamento serve só para distrair o pessoal: os vistos são difíceis de obter e não são iguais para todos. Há vistos de estudante, vistos de turista e vistos de residência permanente. Para estes últimos é necessário ter trabalho no país ou ser casado com um nacional. No caso do visto gold , foi acrescentado um critério possível: investir meio milhão de euros. A diferença entre visto gold e os outros está no tempo que dura o processo. É evidente que no caso dos vistos, a lei não é igual para todos, pois um chinês nunca terá as facilidades de um japonês e a política de imigração tem objectivos. O país atribui os vistos a quem quer, segundo os seus critérios, isso é que a soberania. Quanto aos funcionários que se sentam em cima dos processos, à espera da propina, não me esqueço. Foi há 25 anos, mas não me esqueço.

  7. Vamos lá então comentar isto seriamente… os próprios vistos Gold são a “personificação” de um tipo de “xenofobia”… Estamos a discriminar pobres, em favor dos ricos que podem pagar o visto milionário… Independentemente da sua nacionalidade!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *